A China encerrou um período sem precedentes de cinco meses sem comprar soja dos Estados Unidos, de acordo com os dados mais recentes do U.S. Census Bureau. Nesta quarta-feira (4), o presidente Trump disse que a China se comprometeu a comprar 20 milhões de toneladas de soja americana no atual ciclo de 2025/2026. Fato é que o total de US$ 21,83 milhões em novembro de 2025 (R$ 115 milhões na cotação atual) foi 99% inferior ao do mesmo mês de 2024.
Uma gota no oceano — quase irrelevante — para a China, maior consumidora mundial de soja, usada principalmente para alimentar suínos e atender à crescente demanda do país por proteína de origem animal, e que agora recorre cada vez mais ao Brasil para seu suprimento.
A queda é impressionante. A China caminha para registrar sua menor participação nas exportações americanas de soja desde 2002, o primeiro ano completo após sua entrada na OMC, e possivelmente desde 1999. Até novembro, essa participação era de 17,1%. Em 2002, foi de 17,3%; em 1999, de 7,85%.
Somente em novembro, a China ficou atrás de 19 outros países como destino da soja dos EUA, incluindo Iraque, Malásia e Argélia. A participação chinesa foi de 1,16%.
A China comprou mais de 50% de toda a soja americana em 15 dos últimos 16 anos completos, com uma única exceção: 2018. Foi nesse ano que o presidente Trump, em seu primeiro mandato, iniciou a guerra comercial com a China ao impor tarifas sobre quase todas as importações vindas do país. A China retaliou contra determinadas exportações americanas, sendo a soja o principal alvo, cultivada principalmente em estados que apoiaram a primeira candidatura de Trump.
Ironicamente, o total acumulado de janeiro a novembro de 2025, de US$ 14,5 bilhões (R$ 76,5 bilhões), é o menor total para 11 meses, em 16 anos. O ano de 2009 foi o primeiro desses 16 em que as exportações americanas para a China superaram 50%.
O total de 2025 deve ser o mais baixo desde algum ponto entre 2005 e 2007, dependendo do desempenho de dezembro, cujos números serão divulgados em duas semanas. Os totais anuais nesses anos variaram de US$ 2,25 bilhões (R$ 11,9 bilhões) em 2005 a US$ 4,12 bilhões (R$ 21,7 bilhões) em 2007. O total de 11 meses no ano passado foi de US$ 2,48 bilhões (R$ 13 bilhões).
A diferença entre o México, segundo maior mercado da soja americana, e a China foi de 2,63 pontos percentuais até novembro. Essa foi a menor distância entre a China e qualquer outro país desde 2002, quando a diferença entre China e México foi de 2,42 pontos percentuais, também no primeiro ano completo após a entrada chinesa na OMC.
No ano seguinte, a diferença saltou para 24 pontos percentuais, o menor intervalo registrado nos 15 anos seguintes, até o início da guerra comercial em 2018.
Uma carta enviada na terça-feira (3) por um grupo de ex-líderes de associações de soja, milho, cevada e trigo, além de outras entidades e indivíduos, aos principais republicanos e democratas das comissões de Agricultura do Senado e da Câmara, descreveu a situação em termos duros, alertando para um “colapso generalizado da agricultura americana”.
Como os agricultores geralmente fazem rotação de culturas, muitos produzem soja além de outros grãos.
“… [Está] claro que as ações da atual administração, somadas à inação do Congresso, aumentaram os custos dos insumos agrícolas, desorganizaram mercados externos e domésticos, privaram a agricultura de sua força de trabalho confiável e retiraram financiamento de pesquisas e equipes essenciais”, afirma o texto.
As referências certamente dizem respeito às tarifas anunciadas por Trump em 2 de abril contra a maioria dos países, atualmente sob análise da Suprema Corte; ao desmonte da USAID, que beneficiava agricultores americanos; às tarifas retaliatórias, quase exclusivamente da China; às ações para deportar imigrantes ilegais; e aos cortes de financiamentos ocorridos no início de seu segundo mandato.
“Considere”, prossegue a carta, “o impacto da guerra comercial com a China apenas sobre a soja: em 2018, quando as tarifas chinesas foram impostas inicialmente, a soja americana representava 47% do mercado mundial. Hoje, representa apenas 24,4%, uma redução de 50% na participação de mercado”.
“Enquanto isso, a participação do Brasil no mercado mundial de exportação cresceu mais de 20%”, continua a carta, assinada por ex-presidentes da National Corn Growers Association, National Barley Growers Association e American Soybean Association; pelo ex-presidente da National Grains Association; e por representantes dos setores de biocombustíveis, suínos e lácteos.
“O Brasil foi o grande vencedor dessas guerras comerciais, o que lhe permitiu se tornar o principal exportador agrícola do mundo, hoje líder em soja, algodão, carne bovina e frango”, diz o texto.
“Mas outros países, incluindo Argentina e Austrália, também ocuparam esse vácuo. Qualquer agricultor dirá que, uma vez perdidos, os mercados são extremamente difíceis de reconquistar. Os Estados Unidos simplesmente deixaram de ser vistos como um fornecedor confiável.”
A saga da soja é apenas parte do desmonte da relação comercial entre Estados Unidos e China. Quando os números anuais forem divulgados, a China terá representado menos de 10% de todo o comércio americano, ficando atrás do México, em primeiro lugar, e do Canadá, em segundo.
O déficit comercial dos EUA com a China diminuiu significativamente, enquanto o déficit com o México cresceu de forma acelerada. Em 2018, o déficit americano com a China era cinco vezes maior que o déficit com o México. Hoje, o déficit com a China é apenas 12% maior.
A erosão da influência agrícola dos Estados Unidos na China não se limita à soja — é um sinal de alerta de um realinhamento comercial mais amplo. À medida que o Brasil consolida sua posição dominante e os Estados Unidos arriscam perder participação de mercado e confiança, os efeitos vão muito além das lavouras. No mínimo, os EUA correm o risco de ver uma parceria agrícola construída ao longo de uma geração com a China desaparecer de forma permanente na história.
Ken Roberts – Forbes