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Sebo: impactos e preços do mercado de biodiesel

SeboCotacoes 110814Indústria do biodiesel revolucionou o mercado do sebo, contudo o aumento da mistura não deverá ter um impacto direto sobre os preços do insumo.
BiodieselBR.com 7 min de leitura
É como aquela história de atirar no que está vendo e acertar o que não estava vendo. Desde que foi lançado, em 2004, o PNPB está promovendo uma verdadeira – porém pouco notada – revolução no mercado de sebo bovino.

Antes que a produção de biodiesel criasse um mercado capaz de dar conta dos enormes volumes de sebo produzidos no Brasil, era comum que esse coproduto do setor de processamento de proteína animal sofresse com instabilidade de preço.

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É como aquela história de atirar no que está vendo e acertar o que não estava vendo. Desde que foi lançado, em 2004, o PNPB está promovendo uma verdadeira – porém pouco notada – revolução no mercado de sebo bovino. Antes que a produção de biodiesel criasse um mercado capaz de dar conta dos enormes volumes de sebo produzidos no Brasil, era comum que esse coproduto do setor de processamento de proteína animal sofresse com instabilidade de preço. 

“Após o início da utilização do sebo no biodiesel, nunca mais tivemos baixas expressivas como no passado, quando o produto chegou a ser queimado nas caldeiras por falta de mercado”, constata Dayane Teles, operadora de mercado da Unidade de Negócios Proteínas e Gorduras Animais (Profat) do Grupo Aboissa. Ela pontua que, diferente dos demais países do Mercosul, o Brasil proíbe a utilização do produto para fins alimentícios. “Antes da implementação do biodiesel, não tínhamos, além da indústria de sabão, outra alternativa para escoar o produto”, conta.

Dados da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra) mostram que, em 2013, o setor de biodiesel absorveu 41% das 1,4 milhão de toneladas de sebo gerado pelo abate de bovinos – um índice de consumo quase igual ao do setor de higiene e limpeza, que, atualmente, lidera o mercado com 45% da demanda [veja gráfico].

O crescimento da participação do sebo na produção do biocombustível já era observado nos levantamentos realizados pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sobre a aplicação das matérias-primas na indústria de biodiesel. O monitoramento realizado mensalmente pela agência mostrou que, dos 2,9 bilhões de litros de biodiesel fabricados no ano passado, 590,2 milhões de litros foram produzidos a partir do sebo bovino – alta de mais de 34% sobre os números de 2012.

2ª opção
Apesar de estar intensificando sua presença na produção de biodiesel, o sebo registra, no decorrer do ano, uma certa sazonalidade que parece caminhar na direção oposta à oferta da principal matéria-prima do biodiesel brasileiro: o óleo de soja. Normalmente, começa a ampliar sua presença no final do ano, diminuindo-a quando entra no mercado a safra da soja – principal matéria-prima do biodiesel –, o que ocorre por volta dos meses de fevereiro e março. 
“Quando temos uma safra recorde, dá-se preferência ao óleo de soja devido ao custo e benefício. Com isso, acabamos por ter uma oferta maior de sebo bovino”, expõe Dayane. 

Apesar do inegável sucesso do sebo na indústria do biodiesel, as chances de que ele supere a soja são diminutas pelo simples fato da oleaginosa ter uma série de vantagens nada desprezíveis sobre o sebo. “[A soja] é mais fácil de se trabalhar”, resume Andrea Gaia, que atua na área de sebo, proteínas e derivados da corretora Uniamerica. “Primeiro, porque é líquida, mais tranquila para se manusear em qualquer época do ano. Além disso, a acidez é menor de 1%, enquanto o sebo, o padrão mínimo que se trabalha em contrato é 3,5%.”

Outro fator, também relacionado à especificação, que redunda num maior uso do óleo de soja é a questão do ponto de congelamento a filtro frio. Com a chegada do frio, as usinas – muitas delas concentradas na Região Sul, onde o inverno é mais intenso no Brasil – optam pela utilização da oleaginosa na fabricação do biodiesel porque o sebo possui uma tendência maior a se cristalizar quando as temperaturas caem, o que pode ocasionar problemas no motor de veículo.

Ainda segundo Andrea, a soja oferece outra vantagem em relação ao sebo: o poder de barganha. Qualquer pessoa que já tenha feito compras no atacado sabe que comprar em grandes volumes permite negociar preços melhores. Isso é verdade para uma commodity madura como a soja, mas nem tanto assim no caso do sebo. “Qualquer outra commodity você entra no mercado e diz ‘eu quero 2 mil toneladas’ e ganha poder de barganha para negociar a preços mais baixo. O sebo não. Se você pede 2 mil toneladas, para a garantir a disponibilidade e a entrega desse volume no padrão desejado, paga-se um pouco mais caro”, esclarece.

Chave climática 
Essa não é a única forma que o clima interfere no uso da gordura animal pelo setor de biodiesel. “Historicamente, o fator que mais influencia numa maior ou menor oferta em todo negócio agropecuário é o clima, o que em inglês chamamos de weathermarket, ou mercado climático”, atesta Dayane.

Como, no Brasil, o boi – que é a ponta inicial da cadeia do sebo – é criado por meio da pecuária extensiva, alimentando-se de pastagens, quando chega o inverno, o frio queima o pasto e o animal começa a perder peso. “O pecuarista, normalmente a parte mais capitalizada da cadeia, ‘senta’ em cima do rebanho e só vai pensar em vender quando o verão chegar e o animal estiver superalimentado e no limite do seu ganho de peso”, diz a operadora de mercado.

De acordo com Hyberville Neto, da Scot Consultoria, o ciclo da oferta do sebo, em geral, pode ser retratado da seguinte forma: no começo do ano, há uma maior oferta de animais por conta da disponibilidade de pastagem e da estação reprodutiva, concentrada no final do ano. Essa boa oferta de animais se intensifica até abril e maio. Depois, os pastos perdem a qualidade por conta da ausência das chuvas, tornando-se caro manter os animais com suplementação.

“Em meados de agosto, temos um maior volume de animais confinados no mercado. Quando setembro se aproxima, começa a retomada das chuvas, abre-se o período para esses animais engordarem. Tudo isso gera um maior abate no final do ano”, expõe. Isso quer dizer que, embora, as ofertas do sebo e da soja se sobreponham em parte do ano. A oferta do sebo começa a engrenar, precisamente na época em que a entressafra da soja está em seu ponto mais agudo bem a tempo de dar uma força aos fabricantes de biodiesel. 

Compreensivelmente , os preços do sebo tendem a subir nessa época justamente porque há menos soja no mercado para segurar os preços. “Ele se recupera com a chegada do tempo mais quente. Atualmente, o mercado esta pressionado, fraco, influenciado por uma maior utilização do óleo de soja”, diz.

B6 e B7
Segundo o consultor da Scot, o impacto do demanda da indústria do biodiesel na formação dos preços do sebo é relativa. Hyberville lembra que, quando o B2 foi introduzido oficialmente em 2008 o impacto foi bastante forte com o quilo do sebo chegando a atingir um pico de R$ 3,19 por quilo (em valores atualizados para a inflação do período). Desde então, essa relação se tornou mais madura e estável. 

Tanto que nos três últimos aumentos da mistura obrigatória – B3, B4 e B5 – não chegaram a modificar de forma significativa a dinâmica dos valores cobrados pelo sebo bovino. Tanto que ao longo os últimos os preços do quilo têm se mantido entre R$ 1,50 (entressafra) e R$ 2,30 (safra).

Questionadas se a chegada do B6 – e, em novembro, do B7 – deve resultar numa valorização da matéria-prima no mercado, as fontes dizem acreditar que sim, mas não acham que o impacto será muito relevante. “Não acredito em mudanças tão significativas como das últimas vezes que [o aumento] foi implementado”, diz o consultor da Scot.

Isso acontece porque o preço do óleo de soja acaba servindo como um teto para o valor do sebo o que impede uma apreciação mais relevante desta matéria-prima em momentos em que haja aumentos da mistura obrigatória.

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Cátia Franco – BiodieselBR.com
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