Ceará terá que importar mamona
A produção de mamona no Ceará pode não ser suficiente para atender a demanda por matéria-prima das usinas de biodiesel em instalação no Estado. A alternativa será importar as oleaginosas de outras regiões do País
As usinas de biodiesel instaladas ou em fase de implantação no Ceará poderão ter que importar oleaginosas de outros estados em virtude da insuficiência de produção de mamona no Estado. O fato é que, até o final de 2007, a capacidade instalada para produção do combustível em terras cearenses será de 160 mil toneladas/ano (ou 160 milhões de litros anuais). Para suprir essa demanda, nos próximos 12 meses, o Ceará terá que elevar sua área plantada de mamona dos atuais 18 mil para 400 mil hectares, segundo informações Secretaria da Agricultura e Pecuária do Estado (Seagri).
A questão é que se as unidades de biodiesel instaladas no Ceará, e até mesmo no Nordeste, tiverem que importar matéria-prima de outras regiões e o cultivo de oleaginosas não avançar, milhares de empregos poderão deixar de ser gerados no Estado e no próprio Nordeste, principalmente no semi-árido. Os 400 mil hectares de mamona que precisariam ser plantados no Ceará, por exemplo, abririam 130 mil empregos diretos no campo.
Segundo o gerente do Projeto Mamona do Ceará da Seagri, Valdenor Feitosa, o Ceará possui todas as condições industriais e tecnológicas para produzir o biodiesel, mas reconhece que há problemas na parte agrícola. Vale lembrar que a própria tecnologia de produção de biodiesel a partir de óleos vegetais (como mamona, algodão e pinhão manso) foi desenvolvida no Ceará por Expedito Parente, no final da década de 70. Hoje, há sete plantas industriais já instaladas ou sendo implantadas no Estado. A principal é da Brasil Ecodiesel, em Crateús. A unidade, a maior em operação no País e capaz de produzir 300 mil litros de biodiesel por dia, recebeu investimentos da ordem de R$ 12 milhões.
Outra de grande porte que está em processo de construção é a usina da Petrobras em Quixadá, com capacidade de produção de 57 milhões de litro por ano. O POVO apurou que esta unidade deve entrar em operação em dezembro de 2007 e, até o final deste ano, deve obter a licença ambiental de instalação.
Na prática, entretanto, o grande desafio será garantir matéria-prima para as unidades do Ceará e do Nordeste. Valdenor Feitosa explica que, para as culturas de mamona e de outras oleaginosas deslancharem na Região e no Estado, será preciso garantir crédito e assistência técnica aos agricultores. Outro desafio, segundo ele, será dar um preço mínimo capaz de remunerar adequadamente os produtores. Segundo Feitosa, hoje as usinas pagam aos agricultores R$ 0,55 pelo quilo da mamona, quando pelo atual nível de produtividade o ideal seria R$ 0,80. Ele defende ainda que o preço seja até mesmo em parte subsidiado pelos governos estaduais e federais e que a cultura de mamona seja incluída na Garantia Safra (espécie de seguro em caso de perda da safra).
Estado precisa de programa local
Para o deputado estadual Chico Lopes (PC do B), a produção de mamona e biodiesel estão engatinhando no Ceará e há falta de coordenação política para desenvolver a cadeia produtiva do combustível no Estado. Ele adianta que vai propor na Assembléia Legislativa um projeto de lei autorizando o executivo estadual a criar o Programa Ceará Biodiesel, sob a liderança da Secretaria de Ciência e Tecnologia. Este programa tem o objetivo de consolidar uma forma viável de produção e comercialização do combustível, baseado em um desenvolvimento agrícola sustentável no semi-árido cearense.
Segundo uma fonte ligada a investidores do mercado de produção de biodiesel, que pediu para não ser identificada, em um primeiro momento, as usinas do Nordeste deverão ter que importar parte da matéria-prima de outras regiões. Na opinião dele, porém, a produção de oleaginosas tendo a crescer gradativamente no Nordeste, até mesmo porque os agricultores da região possuem as melhores condições de desoneração tributária para a comercialização da matéria-prima, conforme prevê o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel, do Governo federal.
Oswaldo Scaliotti


.gif)

