Economias na América Latina e na Europa dependem do combustível norte-americano; interromper as exportações poderia levar alguns países à recessão
A decisão de sexta-feira, 3, tomada por nações industriais ricas, incluindo os Estados Unidos, de liberar diesel de seus estoques tem como objetivo ajudar a baixar os preços recordes.
Também poderia aliviar a ansiedade ao redor do mundo em relação a uma proibição das exportações de diesel dos EUA, que vem sendo considerada pelo governo Trump. Tal medida poderia causar estragos nas economias da América Latina e da Europa, que estão entre os maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos.
A preocupação com uma possível proibição vinha aumentando, especialmente nas duas maiores economias da América Latina, Brasil e México, e em outros países da região, como Chile e Equador, onde aliados de Trump chegaram ao poder. Alguns parlamentares republicanos nos Estados Unidos pediram a proibição em resposta à disparada dos preços do diesel.
Na Europa, a Grã-Bretanha, um importante parceiro comercial, e os Países Baixos, um polo energético relevante, seriam fortemente atingidos se os Estados Unidos interrompessem as exportações de diesel, que são cruciais para o transporte rodoviário de longa distância, a agricultura e a mineração.
As preocupações refletem como os Estados Unidos se tornaram o maior exportador de diesel do mundo. Os suprimentos de diesel americano tornaram-se ainda mais importantes à medida que a turbulência na Rússia e no Oriente Médio sufocou rotas comerciais marítimas e o refino.
América Latina seria “duramente atingida”
Seis dos 10 principais destinos das exportações de diesel dos EUA estavam na América Latina em setembro, de acordo com a Vortexa, que monitora os embarques de energia. Brasil e México lideram o mundo na compra de diesel dos Estados Unidos.
“A América Latina seria absolutamente golpeada por uma proibição”, escreveu Robin J. Brooks, membro sênior da Brookings Institution, em uma avaliação online.
O Brasil emergiu recentemente como o principal comprador de diesel dos Estados Unidos, uma mudança que se acelerou nas últimas semanas depois que a Rússia estendeu as restrições às exportações do combustível após ataques de drones ucranianos a refinarias.
O Brasil depende do diesel para seu vasto setor agrícola e está procurando maneiras de reforçar os suprimentos enquanto alivia o impacto econômico resultante dos preços altos.
As autoridades vêm analisando opções como aumentar as importações da Índia ou expandir a produção de biodiesel, que pode ser feito a partir da soja. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também aumentou os subsídios ao diesel.
Magda Chambriard, CEO da gigante petrolífera brasileira Petrobras, tentou aliviar algumas das preocupações quando revelou que a empresa já havia reservado cargas para outubro.
Embora o Brasil tenha uma grande indústria de refino que poderia responder a uma proibição, “eles não têm capacidade doméstica suficiente para atender à demanda”, disse Reid I’Anson, economista da Kpler, uma empresa de pesquisa.
México está em uma situação delicada
O México, o principal parceiro comercial dos EUA, busca há anos reduzir a dependência das importações de combustíveis americanos. Mas atrasos técnicos e custos acima do orçamento têm prejudicado os esforços para expandir o refino doméstico.
Déficits na própria produção de diesel do México agora expõem grandes setores da economia a uma proibição por parte dos EUA. O norte do México, lar de uma vasta base industrial, poderia ser especialmente vulnerável se as tubulações transfronteiriças no Texas receberem ordens para interromper as exportações.
Países menores da América Latina estão ainda mais expostos, afetando potencialmente importantes produtores de cobre, prata e lítio. A dependência do diesel dos EUA é particularmente aguda na América Central, que tem relativamente pouca capacidade de refino.
O Chile, que recentemente deu uma guinada à direita com a eleição do aliado de Trump, José Antonio Kast, como presidente, seria especialmente afetado. O Chile depende dos Estados Unidos para 88% das importações de diesel, de acordo com a S&P Global Energy, uma empresa de pesquisa.
Temores de recessão na Europa
A Europa também seria prejudicada, especialmente depois que os países europeus reduziram as compras de combustível russo após Moscou invadir a Ucrânia e a guerra no Irã reduzir os fluxos de energia.
A Grã-Bretanha e os Países Baixos são atualmente os maiores importadores europeus de diesel dos EUA, seguidos por França e Espanha.
A Grã-Bretanha ocupa uma posição unicamente frágil, já que os Estados Unidos fornecem cerca de um terço do diesel importado pelo país. Fechamentos de refinarias domésticas também reduziram a capacidade da Grã-Bretanha de elevar seus próprios suprimentos.
Os Países Baixos também estão vulneráveis, tanto como consumidores de diesel dos EUA quanto como um polo regional de armazenamento e refino. Uma proibição dos EUA poderia esvaziar os estoques nos Países Baixos, fazendo com que os fluxos de barcaças no Rio Reno caíssem e levando a escassezes secundárias de diesel na Europa Ocidental.
EUA poderiam acabar se prejudicando
Philip K. Verleger, economista de energia, disse que uma proibição do diesel poderia ter consequências não intencionais, além de interrupções de curto prazo.
Verleger fez uma comparação com o embargo temporário do presidente Richard Nixon às exportações de soja em 1973, em resposta à inflação doméstica nos EUA e a uma colheita ruim.
Essa medida criou um choque no Japão, o que, por sua vez, ajudou a financiar a transformação do Brasil de um ator secundário no mercado global de soja para o concorrente proeminente dos Estados Unidos na agricultura global.
Da mesma forma, disse Verleger, uma proibição poderia pressionar outros países a encontrar suprimentos alternativos ou a acelerar sua transição para fontes de energia renovável.
“Uma proibição das exportações de diesel minaria a credibilidade dos EUA como um fornecedor confiável de energia”, disse Verleger.
Simon Romero – The New York Times