Com a chegada do HVO ao mercado o biodiesel deixa de ser a única alternativa renovável ao óleo diesel
Não estamos mais sós. Durante muito tempo o biodiesel foi a única alternativa ao óleo diesel de petróleo. Isso mudou com a chegada do óleo vegetal hidrotratado (HVO). Em alguns mercados – como o norte-americano – o novato já tomou a liderança colocando em dúvida qual seria a melhor opção para avançar com a descarbonização do setor de transportes.
Pesar as vantagens e desvantagens desses dois competidores foi a missão do painel “Disputa de Renováveis: o Espaço Disponível para Biodiesel e HVO” realizado no primeiro dia da Conferência BiodieselBR 2023. Participaram do debate o superintendente da Aprobio, Julio Cesar Minelli, e o gerente executivo da Petrobras,
Sandro Barreto.
Sem disputa
“Não cabe falar em disputa. Tem espaço para todos”, tranquilizou Sandro Barreto. As preocupações em torno da crise climática vêm ganhando corpo nas últimas décadas e isso tem alimentado a demanda por renováveis. “O mundo começou a acender o sinal de alerta. (...) Agora estamos num mundo muito preocupado que já tem uma série de acordos assinados para o net-zero para os próximos anos”, ressaltou destacando que, embora a transição energética em curso ainda tenha um horizonte de longo prazo, ela já está sendo sentida no setor de petróleo onde os projetos são de longa maturação.
Não estamos mais sós. Durante muito tempo o biodiesel foi a única alternativa ao óleo diesel de petróleo. Isso mudou com a chegada do óleo vegetal hidrotratado (HVO). Em alguns mercados – como o norte-americano – o novato já tomou a liderança colocando em dúvida qual seria a melhor opção para avançar com a descarbonização do setor de transportes.
Pesar as vantagens e desvantagens desses dois competidores foi a missão do painel “Disputa de Renováveis: o Espaço Disponível para Biodiesel e HVO” realizado no primeiro dia da Conferência BiodieselBR 2023. Participaram do debate o superintendente da Aprobio, Julio Cesar Minelli, e o gerente executivo da Petrobras,
Sandro Barreto.
Sem disputa
“Não cabe falar em disputa. Tem espaço para todos”, tranquilizou Sandro Barreto. As preocupações em torno da crise climática vêm ganhando corpo nas últimas décadas e isso tem alimentado a demanda por renováveis. “O mundo começou a acender o sinal de alerta. (...) Agora estamos num mundo muito preocupado que já tem uma série de acordos assinados para o net-zero para os próximos anos”, ressaltou destacando que, embora a transição energética em curso ainda tenha um horizonte de longo prazo, ela já está sendo sentida no setor de petróleo onde os projetos são de longa maturação.
Sandro considera que a questão mais importante será dosar o ritmo. Quem acelerar muito corre o risco pagar mais caro pela energia e, portanto, perder eficiência. “Temos que fazer na velocidade certa”, destaca ainda mais porque a transição vai ficando progressivamente mais cara. “Quanto mais avançamos mais importante o custo fica, porque, para cada grama de CO2 que eu tiro do ar, o próximo grama fica mais caro. A questão é fazer a transição com o menor custo possível para retirar o CO2 do ar”, complementa.
Até porque a troca do petróleo por renováveis não é necessariamente a única rota para reduzir o atual nível de emissões. A indústria de petróleo pode fazer bastante para descarbonizar suas atividades antes de ter que abandonar seus principais produtos. “Temos correntes de petróleo no pré-sal que tem emissões 40% menores que a média mundial. Quando a gente desenvolve tecnologia para reinjetar CO2 nos poços o resultado é uma melhora no perfil de emissões”, afirma destacando que, no ciclo 2024-2028, a Petrobras deve aumentar em até 15% seus investimentos com sustentabilidade e desenvolvimento de produtos.
Dessa forma, ainda deve demorar alguns anos antes que o mercado comece a realmente ficar apertado. Ao menos por enquanto, o consumo dos renováveis deverá crescer ao mesmo tempo em que a curva de demanda por produtos petrolíferos avança. O próprio tamanho do mercado colabora para amortecer o impacto. Por mês o Brasil consome entre 4 e 6 milhões de m³ de óleo diesel. “Transferir esse volume para qualquer outra matriz é um desafio”, diz.
Desafio multifacetado
E um desafio multifacetado que exigirá conciliar oferta, preço e qualidade. Do ponto de vista da qualidade o biodiesel tem evoluído o que se soma a seu custo relativamente competitivo. “É uma questão encontrar o ponto de equilíbrio entre o custo e nossas outras necessidades”, considera Sandro.
Também é preciso atentar para a sustentabilidade dos próprios biocombustíveis. “Temos um desafio na certificação para que as matérias-primas dos biocombustíveis consigam cumprir os requisitos (...) porque não adianta nada a gente fazer o melhor biodiesel ou HVO do mundo se não olharmos o que está para trás”, pondera.
Complementariedade
O superintendente da Aprobio, Julio Minelli, também iniciou sua fala rejeitando a ideia de que os biocombustíveis do ciclo diesel estejam em rota de colisão. “Também não concordo que a palavra certa seja ‘disputa’, acho que é ‘complementariedade’”, iniciou.
Para o representante dos produtores de biodiesel, é natural que as soluções diferentes para a questão da transição energética sejam distintas para cada região do mundo em função de suas necessidades específicas e recursos disponíveis. Mas ele ressalta que a demanda por combustíveis do ciclo diesel não vai sumir tão cedo. “A quantidade de veículos diesel novos é muito grande e eles ficam por bastante tempo em uso. Ainda vamos ter veículos diesel que estão sendo vendido hoje rodando daqui a 12 anos”, reconhece.
Ele destaca que ainda há muito espaço a ser ocupado pelos biocombustíveis antes que eles comecem a, de fato, competir entre si. “Não temos condição de produzir todo o diesel que consumimos. (...) Só o volume de diesel que importamos equivale a produção de umas 11 usinas de HVO”, diz. “Não estamos falando nem de cortar a produção de diesel [fóssil], só de deslocar os importados”, aponta.
Um ponto que Minelli coloca é que a produção de HVO em diversos mercados tem sido alavancada não necessariamente pelo mercado de diesel, mas pela demanda por combustíveis de aviação sustentável (SAF). “Não tem alternativa para aviação que não seja o SAF e, como não se produz SAF sem fazer HVO, uma coisa puxando a outra”, pondera lembrando que o investimento para a instalação de uma biorrefinaria de diesel verde é consideravelmente maior do que o custo de uma usina de biodiesel. “Se vamos produzir HVO porque precisamos de SAF, vamos ter que a achar uma maneira de pagar essa diferença de preço”, complementa.
Matéria-prima sempre residual
Minelli lembra que mesmo quando usa óleo de soja virgem em seus processos produtivos, o biodiesel e o HVO podem ser considerados biocombustíveis feitos de matéria-prima residual uma vez que o principal produto da soja é o farelo e que não haveria mercado suficiente para o óleo gerado. ‘Não temos condições de absorver todo o óleo de soja derivado da demanda por farelo”, ressalta. “Agregar valor sobre o óleo nos permite reduzir o custo do farelo e reduzir os preços das carnes”, complementa.
O representante da Aprobio também não vê a qualidade do produto como uma barreira a sua expansão. Ele ressalta que na Indonésia, por exemplo, já se usa B35 e que as especificações do produto têm avançado para atender às demandas dos novos equipamentos. A melhoria das práticas ao longo da cadeia e a adoção de procedimentos de rastreabilidade para identificar em que ponto os problemas estejam acontecendo são, em sua opinião, dois pontos necessários para desatar as controvérsias ao redor do biodiesel. “Temos que identificar os problemas, assim podemos resolver”, encerra.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com