A distância entre o desenvolvimento e o sustentável
O termo desenvolvimento sustentável vem sendo bastante empregado em palestras, reuniões e conferências que tratam de temas envolvendo, geralmente, meio ambiente e investimentos em infra-estrutura.
A expressão, apesar de simpática, quase sempre para os governos significa mais gastos para preservação do meio ambiente e dificuldades de retorno dos investimentos. Para muitos ambientalistas, significa concessões para desmatar ou poluir em nome do inevitável progresso.
Durante a XI Conferência sobre Mudança Climática da ONU, que aconteceu em Montreal, no Canadá, o foco das discussões não foi muito diferente das limitações oferecidas pelo termo.
O objetivo do encontro, que reuniu representantes de 189 países, foi discutir formas de minimizar os efeitos dos gases poluentes, que provocam o efeito estufa e que vêm causando enormes transformações no clima em todo o mundo.
Como representante do governo brasileiro na Conferência pude perceber esta dicotomia entre o desenvolvimento e o sustentável. China, Índia e o próprio Brasil temem atravessar a linha que os separa dos 40 países industrializados, signatários do Protocolo de Kyoto. Estes já são obrigados a reduzir em 5,2% suas emissões de gases até 2012 em comparação a 1990.
O principal temor é de que a sustentabilidade venha comprometer o crescimento de nações em desenvolvimento. Apesar de válido, o argumento deve ser contraposto a estudos que mostram a responsabilidade dessas nações nas alterações climáticas.
Um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE), publicado em novembro deste ano, indica que as emissões de gases de China e Índia tiveram um crescimento de aproximadamente 75% nos últimos anos. A soma das populações destes dois países, que apresentam crescimento econômico acelerado, chega a quase 2,5 bilhões.
Neste contexto, o Brasil também não pode se eximir de suas responsabilidades. Somente para exemplificar: o estado de São Paulo, um dos mais prósperos do hemisfério Sul, representa cerca de um terço da economia brasileira e está situado na 39ª posição como maior emissor global de gases de efeito estufa.
Ainda estamos muito distantes dos Estados Unidos, que rejeitaram assinar o acordo de Kyoto e respondem por 25% do total de gases causadores de efeito estufa do mundo. No entanto, a discussão já abre um precedente quanto a nossa responsabilidade na diminuição da emissão de gases poluentes. Sem, é claro, abrir mão do crescimento econômico.
Este é um passo importante no caminho de retomarmos uma posição de liderança na América Latina. Não só quanto ao desenvolvimento, mas também no que diz respeito à preservação de nossos recursos naturais.
A mudança no conceito é fundamental: é preciso entender que, na verdade, os investimentos na área significam economia. É o caso do álcool de cana-de-açúcar, que substitui com eficiência e com preços competitivos a gasolina. Por ser renovável, esse álcool praticamente não redunda em emissões líquidas de carbono para atmosfera. O mesmo se aplica ao biodiesel, cujas pesquisas vêm avançando significativamente.
O uso do carvão e do gás natural também vêm se constituindo em uma forma “limpa” e econômica de gerar eletricidade. Bons exemplos desta iniciativa vêm de países como China e Índia, que já assumem sua condição e apresentam alternativas para reduzir seus índices de poluição.
Outra opção inteligente, apresentada pelo Brasil durante a Conferência, é de financiamento internacional para reduzir o desmatamento, gerando possíveis créditos negociáveis de redução de emissões de carbono.
De acordo com o protocolo de Kyoto, o comércio de emissões permite que países que poluem muito comprem “créditos” não usados daqueles que “têm direito” a mais emissões do que normalmente geram.
Em suma, não basta utilizar-se de um tema da moda para ser ecologicamente correto ou para estar em consonância com as necessidades do progresso. Para diminuir a distância entre o desenvolvimento e a sustentabilidade é necessário entender as suas vantagens, que vão muito além de discussões em conferências. Envolvem batalhas e atividades do nosso dia-a-dia.
Wellington Fagundes é deputado federal de Mato Grosso pelo Partido Liberal (PL) e membro da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados


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