Entre tanta discussão sobre o futuro das oleaginosas para a produção do biodiesel, uma voz soa dissonante. É o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente do Centro de Energias Alternativas e Meio Ambiente (Cenea), Osvaldo Carioca, quem fala. O professor lembra de quando ele discutiu o tema biodiesel com o então ministro das Minas e Energia, César Cals, lá pelos anos de 1980. ``Mostramos (as tecnologias existentes) e dissemos que nada daquilo tinha economicidade``, aponta Carioca.
Trinta anos depois, apesar de reconhecer um salto de tecnologia na extração de óleo e até mesmo na rentabilidade das oleaginosas, além, é claro, da infinidade de sementes que têm se apresentado como alternativas nesse processo, o professor mantém a opinião. Segundo ele, a oleaginosa definitivamente não é a matéria-prima para o biodiesel. O motivo disso é baixa produtividade das sementes que, por sua vez, é uma questão genética. Ou seja, não há muito o que fazer para mudar esse cenário. Em termos técnicos, essas plantas são chamadas C3, que tem uma produtividade menor que as C4, grupo da cana-de-açúcar e milho, entre outras.
"Essa baixa produtividade leva a um caráter não econômico e leva o Governo a tirar todos os impostos``, destaca. A conclusão é clara: produzir biodiesel no País, com as fontes que se buscam hoje, só é possível com ajuda de Governo. E todo esse esforço compensa? ``Ninguém vai resolver as questões climáticas produzindo biodiesel no Brasil. O problema está lá fora``, responde.
No Brasil, o problema da emissão de gás carbônico (CO2) pode ser resolvido com um controle na queimada das florestas e com o tratamento do lixo que inunda as ruas brasileiras. O grande problema está concentrado nas grandes economias, onde a queima de petróleo é necessária para a obtenção de energia. ``Eles (os países desenvolvidos) não podem deixar de queimar porque, se não, a economia para. Ninguém vai parar a economia para não poluir``, aponta.
Ainda com relação à matéria-prima que vai trazer um bom resultado, o professor observa que a soja continua como a melhor alternativa. Ao mesmo tempo, lança a dúvida: ``O complexo da soja é responsável por quase 25% das receitas do agronegócio. Se eu for deixar de ganhar dinheiro com essa divisa para utilizá-la no biodiesel, é um grande contrassenso``.
Além da soja, o dendê é uma fonte que tem chamado a atenção de pesquisadores. Contra ele, está o fato de a planta ser nativa da floresta e não ser fácil tirá-la de lá. Para ele, investir nas oleaginosas para a produção do biodiesel é perder dinheiro. ``A gente poderia estar exportando oleaginosa. Os óleos vegetais têm grandes campos de aplicação, como o mercado de alimentos e o emprego químico, com a produção de xampus, por exemplo. Você vai substituindo derivados de petróleo por derivados de óleos vegetais. Para que eu vou colocar o mercado de energia aí dentro?``, questiona.
Como possibilidades viáveis, Carioca só vê duas: a biomassa e as microalgas. A primeira exige uma tecnologia de liquefação. A segunda é financeiramente mais rentável e incentivada a partir da liberação de gás carbônico (CO2). ``Existe uma perspectiva muito boa, mas que também ainda está sendo produzida``, observa. (Camille Soares)
Pesquisas no Ceará
O Centro de Energias Alternativas e Meio Ambiente do Ceará (Cenea) está, há seis meses, realizando pesquisas em torno do uso de microalgas para a produção de biocombustíveis. Nos Estados Unidos - onde essas pesquisas estão mais avançadas - e já se obtém produção equivalente a 15 mil litros de óleos vegetais por hectare.
O professor e cientista Osvaldo Carioca, presidente do Cenea e coordenador das pesquisas aqui, afirma que esse resultado viabiliza, economicamente, a produção de biodiesel para os mais diferentes usos.
"Entretanto, vários problemas ainda exigem da pesquisa melhorias visando à redução das áreas utilizadas e a utilização do CO2 como importante insumo do processo foto-sintético", explicou o professor Carioca. Nas pesquisas do Cenea está mobilizada uma equipe de três doutores das áreas correlatas e vários estudantes de pós graduação nos níveis de doutorado e mestrado. Dentro de um ano e meio, o Cenea disporá do conhecimento básico relacionado com os tipos de micro algas mais adequados para a produção em escala para o mercado do Nordeste.
Condições
A região nordestina apresenta-se - na opinião do professor Osvaldo Carioca - como a melhor região do País para a produção de microalgas pela alta insolação e pela disponibilidade de terras não adequadas para a agricultura convencional, fato que tem motivado a Embrapa/Cenpat a envolver-se nessa nova fronteira agrícola regional.
Camille Soares - O Povo - CE e Diário do Nordeste
Trinta anos depois, apesar de reconhecer um salto de tecnologia na extração de óleo e até mesmo na rentabilidade das oleaginosas, além, é claro, da infinidade de sementes que têm se apresentado como alternativas nesse processo, o professor mantém a opinião. Segundo ele, a oleaginosa definitivamente não é a matéria-prima para o biodiesel. O motivo disso é baixa produtividade das sementes que, por sua vez, é uma questão genética. Ou seja, não há muito o que fazer para mudar esse cenário. Em termos técnicos, essas plantas são chamadas C3, que tem uma produtividade menor que as C4, grupo da cana-de-açúcar e milho, entre outras.
"Essa baixa produtividade leva a um caráter não econômico e leva o Governo a tirar todos os impostos``, destaca. A conclusão é clara: produzir biodiesel no País, com as fontes que se buscam hoje, só é possível com ajuda de Governo. E todo esse esforço compensa? ``Ninguém vai resolver as questões climáticas produzindo biodiesel no Brasil. O problema está lá fora``, responde.
No Brasil, o problema da emissão de gás carbônico (CO2) pode ser resolvido com um controle na queimada das florestas e com o tratamento do lixo que inunda as ruas brasileiras. O grande problema está concentrado nas grandes economias, onde a queima de petróleo é necessária para a obtenção de energia. ``Eles (os países desenvolvidos) não podem deixar de queimar porque, se não, a economia para. Ninguém vai parar a economia para não poluir``, aponta.
Ainda com relação à matéria-prima que vai trazer um bom resultado, o professor observa que a soja continua como a melhor alternativa. Ao mesmo tempo, lança a dúvida: ``O complexo da soja é responsável por quase 25% das receitas do agronegócio. Se eu for deixar de ganhar dinheiro com essa divisa para utilizá-la no biodiesel, é um grande contrassenso``.
Além da soja, o dendê é uma fonte que tem chamado a atenção de pesquisadores. Contra ele, está o fato de a planta ser nativa da floresta e não ser fácil tirá-la de lá. Para ele, investir nas oleaginosas para a produção do biodiesel é perder dinheiro. ``A gente poderia estar exportando oleaginosa. Os óleos vegetais têm grandes campos de aplicação, como o mercado de alimentos e o emprego químico, com a produção de xampus, por exemplo. Você vai substituindo derivados de petróleo por derivados de óleos vegetais. Para que eu vou colocar o mercado de energia aí dentro?``, questiona.
Como possibilidades viáveis, Carioca só vê duas: a biomassa e as microalgas. A primeira exige uma tecnologia de liquefação. A segunda é financeiramente mais rentável e incentivada a partir da liberação de gás carbônico (CO2). ``Existe uma perspectiva muito boa, mas que também ainda está sendo produzida``, observa. (Camille Soares)
Pesquisas no Ceará
O Centro de Energias Alternativas e Meio Ambiente do Ceará (Cenea) está, há seis meses, realizando pesquisas em torno do uso de microalgas para a produção de biocombustíveis. Nos Estados Unidos - onde essas pesquisas estão mais avançadas - e já se obtém produção equivalente a 15 mil litros de óleos vegetais por hectare.
O professor e cientista Osvaldo Carioca, presidente do Cenea e coordenador das pesquisas aqui, afirma que esse resultado viabiliza, economicamente, a produção de biodiesel para os mais diferentes usos.
"Entretanto, vários problemas ainda exigem da pesquisa melhorias visando à redução das áreas utilizadas e a utilização do CO2 como importante insumo do processo foto-sintético", explicou o professor Carioca. Nas pesquisas do Cenea está mobilizada uma equipe de três doutores das áreas correlatas e vários estudantes de pós graduação nos níveis de doutorado e mestrado. Dentro de um ano e meio, o Cenea disporá do conhecimento básico relacionado com os tipos de micro algas mais adequados para a produção em escala para o mercado do Nordeste.
Condições
A região nordestina apresenta-se - na opinião do professor Osvaldo Carioca - como a melhor região do País para a produção de microalgas pela alta insolação e pela disponibilidade de terras não adequadas para a agricultura convencional, fato que tem motivado a Embrapa/Cenpat a envolver-se nessa nova fronteira agrícola regional.
Camille Soares - O Povo - CE e Diário do Nordeste