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Perspectivas europeias para os biocombustíveis

Leonardo Zilio conta sobre as discussões que acompanhou na edição mais recente da conferência da Ufop realizada em meados do mês passado em Berlim.
Leonardo Zilio 5 min de leitura
Leonardo Zilio conta sobre as discussões a respeito do mercado de biocombustíveis na União Europeia que teve a oportunidade de acompanhar na edição mais recente da conferência da Ufop. O evento foi realizado em meados do mês passado em Berlim e é organizado pela principal associação do setor de biodiesel da Alemanha.

ZilioPerspectivasEuropeias 0101216Leonardo Zilio conta sobre as discussões a respeito do mercado de biocombustíveis na União Europeia que teve a oportunidade de acompanhar pessoalmente na edição mais recente da conferência da Ufop. O evento foi realizado na segunda quinzena do mês passado em Berlim e é organizado pela principal associação do setor de biodiesel da Alemanha.

Previsibilidade, metas de participação, redução de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), tecnologia de motores. As questões, que soam bastante familiares ao mercado brasileiro de biocombustíveis, foram amplamente discutidas nos últimos dias 18 e 19 de janeiro em Berlim, em conferência sobre o tema na qual tive a oportunidade de participar como atento espectador.

Por um lado, tanto produtores de biodiesel quanto de etanol cobram da Comissão Europeia e dos governos nacionais metas previsíveis de participação dos biocombustíveis nas respectivas matrizes energéticas, em especial para o período pós 2020. Os legisladores, por seu turno, argumentam que o mercado está normatizado, e que se deve, no momento, atentar a questões como o desenvolvimento tecnológico e às adaptações vindouras – estas, em grande parte vinculadas ao processo de eletrificação dos meios de transporte de cargas e passageiros. Ambos – mercado e legisladores – parecem se mostrar afinados quanto a importância dos biocombustíveis em termos ambientais e estratégicos, duas preocupações de ordem prioritária abordadas no evento.

Em termos ambientais, as emissões de GEE lideram a agenda regulatória europeia. Debates quanto a efetiva sustentabilidade da produção de biocombustíveis no mundo vêm sendo travados, sendo o mote principal os chamados efeitos indiretos da mudança de uso do solo (iLUC). Até o final de 2016, segundo representante da Comissão Europeia, uma nova diretiva de energias renováveis (RED) será apresentada ao grande público – a expectativa é que temas como o iLUC possam estar presentes na mesma. Nota-se, ainda, uma tendência para que se amplie o uso de biocombustíveis de segunda geração, como o etanol celulósico, estes também sujeitos a regulação via nova diretiva.

Sob o prisma estratégico, não só europeus, mas também representantes de países asiáticos frisaram que reduzir a dependência externa dos derivados de petróleo mostra-se como caminho a ser seguido. Nesse momento, os “baixos” preços do barril de petróleo atuam em sentido oposto, ou seja, privilegiando aqueles países que importam maior quantidade de diesel e gasolina. Entretanto, a volatilidade dos preços e o alto grau de dependência política dessas flutuações desagradam os compradores, os quais se mostram adeptos à manutenção e/ou ampliação de patamares estáveis de (bio)combustíveis de origem segura em suas matrizes energéticas.

Os posicionamentos referentes às tecnologias dos motores de ciclo Diesel apresentam-se alinhadas com a realidade brasileira. Não obstante, algumas peculiaridades parecem ser dignas de nota: na Alemanha (e na Europa como um todo), algo próximo a 30% da frota de veículos leves é movida a diesel, enquanto a renovação da frota circulante tem apresentado uma taxa próxima a 5% a.a. Motores com mais de 10 anos de uso totalizam algo como 35% desta mesma frota.

No que tange à utilização física de combustíveis líquidos renováveis, as metas dos países membros da União Europeia diferem entre si. Muitos deles têm atrasado suas decisões no aguardo de definições normativas que hoje deixam margem para interpretações, como são casos a incorporação (ou não) do fator iLUC e a compulsoriedade (ou não) de reservas de mercado para biocombustíveis 2G. Fato concreto, os percentuais de uso de biodiesel nos principais mercados europeus (Alemanha e França) giram em torno de 6% e 8%, respectivamente.

Em mais de uma ocasião salientou-se que as definições sobre usos de biocombustíveis são, na atual conjuntura, de cunho político, e que os atuais preços do par fóssil não devem afugentar de forma drástica investimentos em renováveis. Dever-se-ia, sim, prezar pela visão de longo prazo intrínseca às decisões energéticas.

Sob a ótica dos últimos acordos firmados em Paris (COP-21), fica a pergunta: o que está em discussão são metas específicas e restritas para o uso de biocombustíveis ou trata-se de um efetivo movimento para a descarbonização das economias globais? No primeiro caso, as tratativas tenderão a motivar decisões como a manutenção de percentuais de misturas compulsórias, maior ou menor utilização de biocombustíveis de segunda geração, dentre outras. No segundo caso, em conjunto com uma ampliação significativa do uso de biocombustíveis, esperam-se ainda medidas de longo prazo que visem transformar os modelos de transportes ora vigentes, tais como o uso maciço de bicicletas em curtas distâncias, a disponibilização de transportes públicos mais eficientes e a eletrificação dos modais que assim permitirem.

Por fim, nunca é demais recordar: desde sua origem comercial, em 1859, em Titusville, Pensilvânia, o petróleo acumula mais de 150 anos de experiência; os biocombustíveis, por sua vez, fazem parte das matrizes energéticas mundiais há pouco mais de uma década. A caminhada – que demanda dos atores esforço conjunto em desenvolvimento tecnológico, criatividade, inovação, previsibilidade, diálogo e transparência – está apenas começando.
 
Leonardo Zilio é economista e, até outubro passado, foi o responsável pelo acompanhamento do mercado de biodiesel pela Abiove.
 
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