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Petróleo: A questão é mais séria do que parece

Há uma corrente de técnicos, comandada pela Agencia Internacional de Energia, que tenta convencer o mundo que o petróleo existe em abundância e que a sua duração é superior a 100 anos; sendo, portanto, mera commodity, produto que se encontra em grande quantidade e a baixos preços em qualquer mercado: "vocês não precisam se preocupar com seu petróleo".
Fernando Siqueira - Diretor de Comunicações da AEPET 4 min de leitura
A maioria das grandes guerras, após a Segunda Guerra Mundial, teve como motivação principal a luta pelo petróleo. Isto se explica pelo fato do petróleo ser um bem altamente estratégico e finito, tendo a perspectiva de duração de cerca de pouco mais de 40 anos. Há uma corrente de técnicos, comandada pela Agencia Internacional de Energia, que tenta convencer o mundo que o petróleo existe em abundância e que a sua duração é superior a 100 anos; sendo, portanto, mera commodity, produto que se encontra em grande quantidade e a baixos preços em qualquer mercado: "vocês não precisam se preocupar com seu petróleo".

Outra corrente, formada por especialistas isentos e sérios, que tem se mostrado correta em suas avaliações e que é bem mais realista. De acordo com as estimativas destes respeitados geólogos internacionais, como Colin Campbell, Jean Laherére, David Hutton, além do Instituto Francês do Petróleo, Colorado School of Mines, Uppsala University e Preconsultants de Genebra, a produção mundial de petróleo atingirá seu pico por volta de 2010. Hoje a produção mundial de petróleo gira em torno de 80 milhões de barris por dia, enquanto a sua demanda já atinge cerca de 79 milhões diários.

Após este pico, a curva da produção mundial tende a cair drasticamente, enquanto a da demanda segue firme e crescente, acima das expectativas, influenciada que é pelo crescimento da China, Índia e do próprio EUA.

Portanto, mesmo que o petróleo dure mais de 40 anos, a partir de 2010 não haverá atendimento da sua demanda, cada vez maior, com uma oferta decrescente. Isto significa que teremos o inevitável terceiro choque do petróleo, que deverá elevar os seus preços a patamares superiores a US$100 por barril. Esta situação acirrará a disputa pela posse das reservas de óleo e gás que hoje constituem mais de 50% na matriz energética mundial. Segundo o Instituto Francês do Petróleo, não haverá substituto mundial para o petróleo nos próximos 20 anos. O único país que poderia, nesse período, substituir o petróleo por fontes renováveis seria o Brasil. Para isto seria preciso investir maciçamente em outras formas de energia

Como fica o Brasil?


O recente planejamento estratégico da Petrobrás mostra que a empresa deverá produzir cerca de 3 milhões de barris por volta de 2010. Isto representa uma produção anual de 1,1 bilhão de barris. A reserva total brasileira é estimada em 20 bilhões de barris. Isto significa que se não exportarmos petróleo e se não aumentarmos nosso consumo, nossas reservas terão a duração de 18 anos. Porém, a previsão do pico de produção brasileira está prevista para 2011.

Daí surgirem dois problemas sérios: 1) qualquer exportação de petróleo encurta a duração das reservas; 2) a partir de 2011 voltaremos a ser importadores de petróleo com preços cada vez mais elevados. Não vemos como a nossa combalida economia poderá agüentar tamanho impacto. O pior: como a Petrobrás atingirá a auto-suficiência em 2006, a partir daí, toda a produção nacional será exportada. Se o governo brasileiro tivesse visão estratégica deveria limitar ao máximo a produção nacional, guardando o petróleo para a futura escassez e explosão de preços, investindo maciçamente em fontes de energia renováveis. Não só porque temos o maior potencial do planeta (maior índice de insolação e maior volume de água potável, o binômio mágico da biomassa), mas também porque não correríamos o risco de ficar sem energia por falta de recursos para adquiri-la bem como pela sua escassez no mercado.

Conclusão: fazer licitações de áreas onde as empresas estrangeiras se tornam proprietárias do petróleo, podendo exporta-lo para engrossar suas combalidas reservas, pode ser considerada uma temeridade estratégica. Há até os que classificam esse ato como "crime de lesa Pátria". É um caso a pensar, com muito cuidado e responsabilidade.
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