O consultor de administração de risco da FCStone do Brasil, Gonzalo Terracini, diz que a discussão sobre a melhor estratégia para a produção de biodiesel está distorcida. Em vez de se preocupar com a matéria-prima ou as políticas de incentivo fiscal para a produção do biocombustível, os empresários deveriam se empenhar em garantir a viabilidade do negócio por meio do travamento dos preços, para evitar as imprevisibilidades do mercado.
Terracini adverte que pouco se tem falado sobre esse tema. Para ele, o gerenciamento do risco desse negócio que, até agora, pelo menos, tem em uma commodity (o óleo de soja) matéria-prima fundamental é essencial para a garantia de bons resultados. O consultor recomenda travar os preços das matérias-primas e do biodiesel no mercado futuro e, com isso, assegurar os investimentos e garantir as margens de lucro no negócio.
Gazeta Mercantil: Qual é a visão que os principais produtores mundiais de biodiesel têm desse mercado?
Gonzalo Terracini De uma forma geral, está todo mundo na mesma: o objetivo é reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e a emissão de poluentes na atmosfera. Essa é a primeira onda. Mas, há algumas particularidades, dependendo da região produtora. Os europeus, por exemplo, que lideraram todo esse movimento, principalmente a Alemanha, encontram na produção de biodiesel uma forma elegante de encobrir a continuidade do subsídio aos seus produtores. O biodiesel é uma nova demanda para eles, tanto que os preços de girassol e de canola subiram muito fortemente nos últimos dois anos. Nos Estados Unidos, o foco é pôr fim à dependência do petróleo, principalmente pela oferta estar em mãos não confiáveis aos seus olhos, como a Venezuela. No Brasil, o objetivo é dar um boom na agricultura, que é fonte mais forte de geração de riqueza no País.
GZM: De forma geral, quais os riscos de se investir na produção do biodiesel?
Gonzalo Terracini O principal risco está na volatilidade de preço da matéria-prima, no caso, o óleo de soja, além do produto final, o biodiesel e também as oscilações do preço do etanol, que compõem 10% da mistura.
GZM: Como minimizar esses riscos?
Gonzalo Terracini Por meio dos instrumentos de gerenciamento de risco, como hedge, por exemplo. As empresas têm de pensar em termos de administração de risco, para assegurar os investimentos e as margens do seu negócio. O travamento do preço do biodiesel já está sendo feito, por meio dos contratos futuros de diesel. Os dois produtos têm correlação bem grande, ou seja, é completamente viável fazer essa operação nos contratos de diesel. A principal bolsa, com maior liquidez, no mercado é a Bolsa de Nymex, em Nova York. O volume com biodiesel ainda está começando, estão sendo feito os primeiros contratos.
GZM: Mas, esses instrumentos valem para o caso do Brasil? Existem riscos específicos para quem produz biodiesel aqui?
Gonzalo Terracini No caso particular do Brasil, existe o risco cambial, que também pode ser minimizado com uso de ferramentas de contratos futuros, de opções e de derivativos. O mercado brasileiro, como os outros, está engatinhando em gerenciamento de riscos para o biodiesel. Mas, como no Brasil o produto tem como principal cliente o mercado interno, no caso, a Petrobras, não teria correlação perfeita com os preços do óleo diesel na Bolsa de Nymex. O instrumento de hedge funcionaria se o produto final fosse destinado à exportação. No caso do Brasil, o preço é controlado pela Petrobras.
GZM: E que tipo de risco o mercado de biodiesel brasileiro sofre com a presença da Petrobras como único comprador?
Gonzalo Terracini De alguma forma, a Petrobras está absorvendo parte da volatilidade do mercado. E isso é bom, mas deixa de ser um mercado totalmente transparente.
GZM: O uso dessas ferramentas traz que nível de redução de risco?
Gonzalo Terracini Conseguiria minimizar risco em nível de prêmio, ou seja, na diferença entre o preço de mercado interno e o preço na bolsa. Se compra óleo de soja a R$ 700 no Brasil, vende na bolsa a R$ 1.000, seu prêmio (e seu risco) é de R$ 300.
GZM: Do ponto de vista de riscos tributários, pode acontecer com o biodiesel brasileiro o que ocorreu com o óleo de soja, principalmente, diante da concorrência da Argentina?
Gonzalo Terracini Eu acho que sim, partindo da premissa de que o óleo de soja argentino já é mais competitivo que o brasileiro, o biodiesel também será. Mas, o que acontece é que a Argentina tem mercado interno muito pequeno, então, vai destinar mais à exportação. E o Brasil vai destinar o produto mais ao mercado interno, que é um mercado enorme. Para se ter uma idéia, no caso do álcool, que é um programa mais antigo, ainda estamos ainda na fase do mercado interno.
Entrevista à repórter Fabiana Batista