Fabricantes comemorando de um lado, distribuidoras ressabiadas do outro. Posto de forma simples, esse é o resumo da reação ao anúncio desta quarta-feira (14) de que o governo vai mesmo facilitar o uso de misturas de biodiesel maiores do que 7% para consumidores interessados em implementar projetos de uso autorizativo. Desde abril passado, já se sabia que uma medida nesses moldes vinha sendo estudada em Brasília.
Fabricantes comemorando de um lado, distribuidoras ressabiadas do outro. Posto de forma simples, esse é o resumo da reação ao anúncio desta quarta-feira (14) de que o governo vai mesmo facilitar o uso de misturas de biodiesel maiores do que 7% para consumidores interessados em implementar projetos de uso autorizativo. Desde abril passado, já se sabia que uma medida nesses moldes vinha sendo estudada em Brasília.
Não é um liberou geral. No texto aprovado pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) permite o uso autorizativo exclusivamente para clientes profissionais – frotistas, ferrovias, empresas de transportes etc. O varejo de combustíveis vai ter que esperar até que haja “garantia ampla dos fornecedores de veículos, motores, sistemas, máquinas e equipamento” atestando que misturas maiores que B7 sejam seguras para os motores.
Além disso há limites: frotas cativas e grandes consumidores rodoviários podem usar, no máximo, B20; para consumidores agrícolas, industriais e ferrovias o teto é 30%. Acima disso, os interessados terão que se entender com a ANP para aprovar um projeto e uso experimental. Mas nem esse limite está assegurado. O MME vai definir qual o percentual que efetivamente poderá ser mistura. A resolução do CNPE apenas marcou o limite máximo que pode vir a ser estabelecido.
Recepção
Apesar dessas limitações, as três associações que representam os fabricantes de biodiesel – Abiove, Aprobio e Ubrabio – comemoraram o anúncio como um desenvolvimento positivo para o mercado. “É uma possibilidade que a gente não tinha antes”, resume Júlio Minelli, diretor-superintendente da Aprobio. Não que o uso autorizativo estivesse totalmente proibido, mas, antes, havia a exigência de autorizações da ANP para cada projeto. Também, o biodiesel utilizado precisaria vir de um único fornecedor. No novo formato, quem quiser fazer uso de misturas maiores poderá fazer suas compras nos leilões de biodiesel regulares. “Fica mais fácil para quem tem uma grande frota ou ônibus porque permite uma negociação mais direta”, completa o entrevistado.
“Agora temos essa prerrogativa legal de usar mais biocombustíveis”, pontua Leonardo Zilio em nome da Abiove. “Isso abre caminho para que tenhamos um sistema energético mais racional porque, havendo uma convergência de fatores que permita ao consumidor escolher usar mais biodiesel ele vai poder fazê-lo”, prossegue.
Fiscalização?
O Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom) está bem menos entusiasmada com a novidade.
Segundo o diretor da entidade, Luciano Libório, o segmento recebeu a resolução do CNPE “com surpresa”. “O grupo de trabalho que havia sido estabelecido pelo Ministério de Minas e Energia não havia chegado a uma conclusão ou recomendação [a respeito do uso autorizativo]”, reclama acrescentando que, embora a publicação tenha acontecido só essa semana, a assinatura da Resolução 3/2015 data de 21 de setembro. “[A medida] poderia ter sido comunicada aos agentes com antecedência”, arremata.
Para os distribuidores, o principal impacto da medida é que ela cria um ponto cego no mercado de diesel com potencial para ocultar fraudes. Até agora, era relativamente fácil para a ANP fiscalizar se todas as distribuidoras estavam misturando biodiesel na proporção correta – bastava bater os números do biodiesel comprado nos leilões com o volume de diesel fóssil adquirido da Petrobras ou importado no mesmo período. “Agora, [a relação entre biodiesel e diesel] não tem mais uma fórmula exata”, alerta Libório.
Libório também argumenta que o uso autorizativo pode levar a instabilidades no mercado de diesel. Como os compradores de diesel são profissionais e acompanhando o mercado diariamente, ele vê o risco de que o mercado passe a dar guinadas bruscas a cada variação mínima da relação de preço entre o diesel e o biodiesel. “Variações de um centavo já conseguem mudar completamente o padrão de demanda [no mercado de diesel]”, alerta.
Demanda incerta
Ninguém ainda está certo de qual seria o tamanho do mercado que poderá ser aberto pela medida. Mas todos estão fazendo suas contas. Segundo o diretor superintendente da Ubrabio, Donizete Tokarki, a demanda extra poderia equivaler a até um ponto percentual a mais na mistura obrigatória. Mas isso só se houver uma adesão massiva ao uso autorizativo. “Se todas as cidades com mais de 500 mil habitantes passarem a usar o B20 no transporte público e tivermos o uso do B30 pela indústria e agricultura, isso seria equivalente a um aumento da mistura obrigatória para B8”, explica.
Na pratica, não deve chegar a tudo isso. “Vai depender muito. Não achamos que será uma demanda adicional muito grande no começo, porque [o uso opcional] vai ser, acima de tudo, uma decisão econômica e ambiental dos agentes”, pondera Minelli. Acrescenta que alguns mercados – como o ferroviário, por exemplo – não são tão bem mapeados. “Vamos ter que ver como vai evoluir”, completa.
De acordo com Zilio, a demanda deve se concentrar em mercados do interior do país onde o custo logístico de trazer o diesel desde as refinarias – que se concentram no litoral – é maior e mais favorável ao biodiesel. Ela também tenderá apresentar certa sazonalidade, acompanhando o ciclo da produção de soja. “Isso é o interessante do mercado. A prerrogativa [de usar mais biodiesel] está aí, mas não tem como prever de que forma os agentes vão fazer uso dela. O modelo de negócios [do biodiesel autorizativo] ainda vai ser desenvolvido”, analisa.
De qualquer forma, Zilio ressalta que o momento é propício para os fabricantes. “Temos outra safra recorde de soja a caminho, então, lá por volta de março devemos ter uma oportunidade de fazer negócios no mercado autorizativo”, anima-se.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
Fabricantes comemorando de um lado, distribuidoras ressabiadas do outro. Posto de forma simples, esse é o resumo da reação ao anúncio desta quarta-feira (14) de que o governo vai mesmo facilitar o uso de misturas de biodiesel maiores do que 7% para consumidores interessados em implementar projetos de uso autorizativo. Desde abril passado, já se sabia que uma medida nesses moldes vinha sendo estudada em Brasília.
Não é um liberou geral. No texto aprovado pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) permite o uso autorizativo exclusivamente para clientes profissionais – frotistas, ferrovias, empresas de transportes etc. O varejo de combustíveis vai ter que esperar até que haja “garantia ampla dos fornecedores de veículos, motores, sistemas, máquinas e equipamento” atestando que misturas maiores que B7 sejam seguras para os motores.
Além disso há limites: frotas cativas e grandes consumidores rodoviários podem usar, no máximo, B20; para consumidores agrícolas, industriais e ferrovias o teto é 30%. Acima disso, os interessados terão que se entender com a ANP para aprovar um projeto e uso experimental. Mas nem esse limite está assegurado. O MME vai definir qual o percentual que efetivamente poderá ser mistura. A resolução do CNPE apenas marcou o limite máximo que pode vir a ser estabelecido.
Recepção
Apesar dessas limitações, as três associações que representam os fabricantes de biodiesel – Abiove, Aprobio e Ubrabio – comemoraram o anúncio como um desenvolvimento positivo para o mercado. “É uma possibilidade que a gente não tinha antes”, resume Júlio Minelli, diretor-superintendente da Aprobio. Não que o uso autorizativo estivesse totalmente proibido, mas, antes, havia a exigência de autorizações da ANP para cada projeto. Também, o biodiesel utilizado precisaria vir de um único fornecedor. No novo formato, quem quiser fazer uso de misturas maiores poderá fazer suas compras nos leilões de biodiesel regulares. “Fica mais fácil para quem tem uma grande frota ou ônibus porque permite uma negociação mais direta”, completa o entrevistado.
“Agora temos essa prerrogativa legal de usar mais biocombustíveis”, pontua Leonardo Zilio em nome da Abiove. “Isso abre caminho para que tenhamos um sistema energético mais racional porque, havendo uma convergência de fatores que permita ao consumidor escolher usar mais biodiesel ele vai poder fazê-lo”, prossegue.
Fiscalização?
O Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom) está bem menos entusiasmada com a novidade.
Segundo o diretor da entidade, Luciano Libório, o segmento recebeu a resolução do CNPE “com surpresa”. “O grupo de trabalho que havia sido estabelecido pelo Ministério de Minas e Energia não havia chegado a uma conclusão ou recomendação [a respeito do uso autorizativo]”, reclama acrescentando que, embora a publicação tenha acontecido só essa semana, a assinatura da Resolução 3/2015 data de 21 de setembro. “[A medida] poderia ter sido comunicada aos agentes com antecedência”, arremata.
Para os distribuidores, o principal impacto da medida é que ela cria um ponto cego no mercado de diesel com potencial para ocultar fraudes. Até agora, era relativamente fácil para a ANP fiscalizar se todas as distribuidoras estavam misturando biodiesel na proporção correta – bastava bater os números do biodiesel comprado nos leilões com o volume de diesel fóssil adquirido da Petrobras ou importado no mesmo período. “Agora, [a relação entre biodiesel e diesel] não tem mais uma fórmula exata”, alerta Libório.
Libório também argumenta que o uso autorizativo pode levar a instabilidades no mercado de diesel. Como os compradores de diesel são profissionais e acompanhando o mercado diariamente, ele vê o risco de que o mercado passe a dar guinadas bruscas a cada variação mínima da relação de preço entre o diesel e o biodiesel. “Variações de um centavo já conseguem mudar completamente o padrão de demanda [no mercado de diesel]”, alerta.
Demanda incerta
Ninguém ainda está certo de qual seria o tamanho do mercado que poderá ser aberto pela medida. Mas todos estão fazendo suas contas. Segundo o diretor superintendente da Ubrabio, Donizete Tokarki, a demanda extra poderia equivaler a até um ponto percentual a mais na mistura obrigatória. Mas isso só se houver uma adesão massiva ao uso autorizativo. “Se todas as cidades com mais de 500 mil habitantes passarem a usar o B20 no transporte público e tivermos o uso do B30 pela indústria e agricultura, isso seria equivalente a um aumento da mistura obrigatória para B8”, explica.
Na pratica, não deve chegar a tudo isso. “Vai depender muito. Não achamos que será uma demanda adicional muito grande no começo, porque [o uso opcional] vai ser, acima de tudo, uma decisão econômica e ambiental dos agentes”, pondera Minelli. Acrescenta que alguns mercados – como o ferroviário, por exemplo – não são tão bem mapeados. “Vamos ter que ver como vai evoluir”, completa.
De acordo com Zilio, a demanda deve se concentrar em mercados do interior do país onde o custo logístico de trazer o diesel desde as refinarias – que se concentram no litoral – é maior e mais favorável ao biodiesel. Ela também tenderá apresentar certa sazonalidade, acompanhando o ciclo da produção de soja. “Isso é o interessante do mercado. A prerrogativa [de usar mais biodiesel] está aí, mas não tem como prever de que forma os agentes vão fazer uso dela. O modelo de negócios [do biodiesel autorizativo] ainda vai ser desenvolvido”, analisa.
De qualquer forma, Zilio ressalta que o momento é propício para os fabricantes. “Temos outra safra recorde de soja a caminho, então, lá por volta de março devemos ter uma oportunidade de fazer negócios no mercado autorizativo”, anima-se.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com