

Relatório editado pelo Rabobank afirma que as indústrias de biodiesel do Brasil e da Argentina esgotaram seus ciclos de crescimento rápido.

Publicada recentemente, a edição de fevereiro do Rabobank Industry Note faz uma análise das condições da indústria sul-americana de biodiesel – em especial no Brasil e na Argentina. Segundo os técnicos do banco de origem holandesa, embora por motivos bastante distintos, o ciclo de crescimento rápido que a produção de biodiesel experimentou nos dois países em anos recentes está esgotada. Agora a indústria terá que se contentar com ritmos mais orgânicos de crescimento enquanto procura aumentar sua eficiência e se tornar mais competitiva.
Segundo o relatório, o crescimento acelerado do biodiesel na Argentina e Brasil só foi possível por causa da disponibilidade de soja em ambos os países. Juntos, Brasil e Argentina respondem por cerca de 14 milhões de toneladas de óleo de soja por ano o que equivale a aproximadamente um terço da produção global.
Apoiada por políticas de incentivo, a indústria cresceu saiu de praticamente zero em 2003 para uma produção combinada maior que 4,7 milhões de toneladas no ano passado. Pelas contas do banco, em 2012, a Argentina e Brasil foram o terceiro e quarto maiores fabricantes mundiais do produto – com produções de 2,4 e 2,3 milhões de toneladas, respectivamente.
Modelo Brasileiro
O Brasil foi o primeiro a implementar sua política de incentivos ao biodiesel através do estabelecimento do Política Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB) em 2004. A produção brasileira, no entanto, só começou realmente a acelerar quando a adição de biodiesel ao diesel mineral se tornou obrigatória em 2008.
O modelo doméstico levou a uma indústria relativamente pulverizada. Segundo o banco, o país conta com mais de 70 plantas espalhadas por boa parte de seu território. Dessas, apenas 18% são integradas com unidades de esmagamento. De quebra, para evitar a cobrança de ICMS, as usinas precisam ficar nos estados produtores de soja o que levou as usinas a se instalarem principalmente no interior e longe dos portos.
De acordo com o relatório, o governo brasileiro tem se mantido “letárgico” em relação a novos aumentos da mistura de biodiesel por acreditar que o biocombustível ainda está excessivamente caro em relação ao diesel de petróleo e devido à polêmica de “alimentos versus combustíveis”. Apesar disso, o documento aponta que os fabricantes estão confiantes que a adoção do B7 deverá acontecer ainda esse ano o que reduziria os problemas de sobrecapacidade que vêm afligindo a indústria há algum tempo.
Quanto as exportações, o problema é principalmente de custos. A combinação entre uma estrutura fiscal pesada e logística cara tem dificultado a entrada do país no mercado exportador enquanto consumo doméstico vem se mantendo mais ou menos nos mesmos patamares desde a adoção do B5 em 2010. O banco calcula que o produto brasileiro chegaria aos portos europeus 14% mais caro do que o biodiesel argentino.
Modelo Argentino
Já no caso da Argentina, a industria foi toda concebida de olho em oportunidades no mercado europeu em resposta ao boom no mercado de commodities registrado no biênio de 2007/08.
O país tirou partido de sua grande indústria de processamento de soja e agregou um novo elo na cadeia para agregar mais valor ao óleo que já exportava. As usinas ficam concentradas ao redor da cidade de Rosário onde estão a menos de 300 km das principais áreas produtoras de soja e têm acesso facilitado ao transporte naval. Mais de 70% da produção é embarcada para outros países.
Comparada ao Brasil, a indústria de biodiesel argentina é mais recente. Assim como o mercado interno, o governo de Buenos Aires só veio a tornar obrigatória a adição de biodiesel ao diesel de petróleo em 2010. Originalmente, esse mercado interno deveria ser abastecido exclusivamente por usinas de pequeno porte não verticalizadas, mas elas não foram capazes de atender toda a demanda.
Hoje, a principal dificuldade tem sido de ordem política. Há cada vez mais dúvidas sobre se a União Europeia (UE) dará continuidade à sua estratégia de substituição dos combustíveis fósseis por biocombustíveis a medida em que aumentam as críticas sobre se a atual geração de biocombustíveis é realmente eficaz em diminuir as emissões de gases relacionados ao efeito estufa. A UE também vem estudando a possibilidade de impor limites às importações vindas da Argentina e da Indonésia com base em alegações de dumping.
Outro percalço no caminho da indústria da Argentina foi a série de mudanças introduzidas no ano passado. Em agosto, o governo baixou consideravelmente o preço pago pelo biodiesel no mercado interno ao mesmo tempo em que os impostos sobre exportação foram aumentados.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com