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WikiLeaks afirma que pico de petróleo pode estar próximo

É o tipo de notícia que pode estragar o café da manhã de um executivo da indústria do petróleo.
BiodieselBR.com 7 min de leitura
É o tipo de notícia que pode estragar o café da manhã de um executivo da indústria do petróleo.

É o tipo de notícia que pode estragar o café da manhã de um executivo da indústria do petróleo. O The Guardian relatou ontem que uma série de telegramas despachados por diplomatas americanos na Arábia Saudita – divulgados agora pelo WikiLeaks – indicam que as reservas de petróleo daquele país poderiam estar superestimadas em até 40%. Se verdadeira, essa informação teria enormes implicações sobre os preços do petróleo, uma vez que a Arábia Saudita é considerada o segundo maior produtor de petróleo do mundo, com um quinto das reservas comprovadas do planeta, e há muito alega possuir uma capacidade de produção ociosa a que recorrer caso os preços do petróleo cheguem a níveis muito altos. Eis a notícia publicada no Guardian:
 “Sadad al-Husseini, geólogo e ex-chefe de exploração da Saudi Aramco, estatal que detém o monopólio da indústria petrolífera da Arábia Saudita, encontrou-se com o cônsul geral dos Estados Unidos em novembro de 2007, na capital Riad. Na ocasião, al-Husseini disse ao diplomata americano que a capacidade de 12,5 milhões de barris/dia necessária para manter os preços nos níveis atuais não pode ser alcançada. De acordo com os telegramas, enviados entre 2007 e 2009, al-Husseini afirmou que a Arábia Saudita pode vir a alcançar uma produção de 12 milhões de barris por dia em dez anos, mas que antes disso – possivelmente já em 2012 – a produção global de petróleo já terá atingido seu patamar máximo. Este patamar máximo é conhecido como ‘pico de petróleo’ (peak oil).”
A história é contada em um telegrama de dezembro de 2007. Diplomatas americanos em Riad reuniram-se com al-Husseini. Antes do encontro, porém, atuais executivos da Aramco haviam informado aos representantes americanos que as reservas da companhia totalizavam 716 bilhões de barris de petróleo, dos quais apenas pouco mais da metade é considerada recuperável (petróleo “recuperável” é todo aquele cujo valor compensa o custo para extraí-lo do subsolo). Os atuais executivos da Aramco acreditam que em 20 anos a companhia possuirá mais de 900 bilhões de barris em reservas, e que avanços na tecnologia devem tornar 70% desse volume recuperável – uma boa notícia para aqueles que querem evitar um aumento de preços no futuro.

Mas al-Husseini, ex-executivo da Aramco, disse aos diplomatas que seus sucessores estavam sendo demasiado otimistas, e que a Aramco estaria superestimando suas reservas em pelo menos 300 bilhões de barris. Ele acredita que a Arábia Saudita tenha aproximadamente 360 bilhões de barris em reservas comprovadas – ou seja, o total de petróleo que já foi ou pode ser explorado com a tecnologia disponível hoje. Al-Husseini disse ainda que quando 50% das reservas já tiverem sido exploradas, o país chegará a um ponto de inflexão, o que resultará num lento e constante declínio na produção. Ele acredita também que esse ponto de inflexão será atingido dentro de 14 anos no atual ritmo de produção (12 milhões de barris/dia), e que a isto se seguirá um período de estabilidade na produção e então um declínio. O ex-executivo também disse aos diplomatas que há carência de engenheiros e outros recursos na Arábia Saudita para que o nível máximo de produção possa ser implementado.

Outros telegramas divulgados pelo WikiLeaks confirmaram os receios americanos quanto à capacidade da Arábia Saudita em continuar a suprir a demanda mundial de petróleo, acrescentando que, como o país continua a crescer, utilizando mais petróleo para gerar eletricidade, restará menos para ser vendido ao resto do mundo: 
  “A questão que agora aflige nossa missão é em que medida os sauditas podem influenciar substancialmente os mercados de petróleo bruto no longo prazo. Está claro que eles podem provocar uma alta nos preços, mas o que questionamos é se eles ainda têm força para causar uma queda nos preços por muito tempo.”
Para Kevin Drum, do site Mother Jones, os telegramas provam que o pico de petróleo pode estar próximo:
“A capacidade de produção já não está mais crescendo. Há sempre o Iraque, é claro, que certamente tem mais capacidade de produção, desde que tenha condições para desenvolvê-la, mas fica parecendo cada vez mais que a Arábia Saudita já alcançou o seu pico. E se isso for verdade, então provavelmente o pico mundial de produção, que foi retardado em alguns anos pela recessão de 2008, provavelmente não está muito distante. Nosso futuro será cada vez mais um futuro sem petróleo, gostemos disso ou não.
O The Oil Drum, um blog para especialistas em energia que vem frequentemente abordando a questão da possibilidade do pico de petróleo, concorda com esse veredito:
  “É quase certo que os sauditas estão superestimando o seu potencial. As reservas da Arábia Saudita e do resto do Oriente Médio não são auditadas, e o mesmo vale para suas supostas ‘capacidades ociosas de produção’. Eles podem até ter alguma capacidade ociosa, mas não na quantidade que afirmam. Quando o preço do petróleo disparou para US$ 147 o barril, em julho de 2008, a Arábia Saudita e os demais países da região aumentaram um pouco a sua produção, mas não foi um crescimento exponencial, como seria de se esperar dada a sua suposta capacidade ociosa.
O suprimento mundial de petróleo permanece praticamente inalterado desde 2005. Muitos temem que a produção de petróleo comece a cair já nos próximos anos – o que é referido como ‘pico de petróleo’ no telegrama do WikiLeaks.”

Mas há um detalhe: se os telegramas do WikiLeaks fossem realmente a bomba que alguns analistas estão pintando, os preços do petróleo nos mercados globais teriam reagido. No entanto, eles mal oscilaram ao longo do dia de ontem, ficando próximos de US$ 86 o barril ao meio-dia de quarta-feira. O Wall Street Journal supõe saber a razão disso:
“al-Husseini disse que não vê problemas nos números oficiais divulgados pela Aramco a respeito de suas reservas atuais comprovadas, nem na estimativa apresentada por al-Saif, mas que estava apenas ressaltando que, ao descrever “petróleo no local" como reservas, os números do reino saudita estavam sendo inflados em várias centenas de bilhões de barris.
Por esse cálculo, o cenário energético global não parece muito diferente do que parecia ontem, com a Arábia Saudita se mantendo como o maior produtor do mundo ainda por algum tempo.”

O Financial Times observa ainda que al-Husseini sempre foi mais pessimista do que seus colegas em matéria de reservas e produção mundial de petróleo. Pode ser também que ele guarde algum ressentimento em relação à Aramco, como observa um telegrama:
“al-Husseini deixou a empresa em meio a uma disputa entre executivos, que teria começado depois de uma tentativa frustrada de orquestrar sua ascensão ao posto de CEO. Embora ele continue a morar no principal campo da Aramco e seja bastante próximo de altos executivos da empresa, muitas das opiniões de al-Husseini sobre a Aramco são moldadas pela percepção de que a empresa estaria em melhores condições caso ele estivesse no seu comando.” 
Isto dito, será que o mundo está realmente no limiar do pico de petróleo? A verdade é que ainda não sabemos – e a falta de transparência da Arábia Saudita em relação a suas reservas não ajuda em nada nesse sentido. O preço do petróleo tem subido nos últimos meses, em parte devido à forte demanda do mundo em desenvolvimento (especialmente a China), que vem se recuperando da recessão com muito mais rapidez que os Estados Unidos. É difícil prever o futuro dos combustíveis fósseis: novas técnicas de produção, como a perfuração em águas ultraprofundas e a fratura hidráulica para extração de gás natural, podem dar inesperada sobrevida a reservas aparentemente exauridas, mesmo que a um custo ambiental alto. O petróleo não vai desaparecer tão cedo, mas também não parece que vá ficar mais barato do que é hoje.

Fonte: Time Magazine
Tradução: BiodieselBR.com
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