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O nervo exposto da Brasil Ecodiesel: Santa Clara

A idéia era que esta comunidade fosse uma vitrine dos aspectos sociais do PNPB e do uso da mamona como cultura capaz de transformar a realidade nordestina. O próprio presidente Lula esteve por lá em agosto 2005.
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A idéia era que esta comunidade fosse uma vitrine dos aspectos sociais do PNPB e do uso da mamona como cultura capaz de transformar a realidade nordestina. O próprio presidente Lula esteve por lá em agosto 2005.

Em novembro de 2003 em uma área de 53 mil hectares cedida pelo governo estadual foi estabelecido o Núcleo Santa Clara – um assentamento rural de agricultores familiares organizado por iniciativa da própria Brasil Ecodiesel no município piauiense de Canto do Buriti. Este é provavelmente o maior nervo exposto da Brasil Ecodiesel em seu relacionamento com a agricultura familiar.

A idéia era que esta comunidade fosse uma vitrine dos aspectos sociais do PNPB e do uso da mamona como cultura capaz de transformar a realidade nordestina. O próprio presidente Lula esteve por lá em agosto 2005.

Contudo, quase seis anos depois o que se pode efetivamente encontrar é pouco animador. Os volumes dedicados à soja e à mamona da série de relatórios “O Brasil dos Agrocombustíveis”, preparados pelo Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis da ONG Repórter Brasil, pintam a situação do Santa Clara com tintas fortes. De acordo com esses documentos, as 600 famílias estão praticamente entregues à própria sorte – para colocar de forma suave.

A proposta era que cada uma das famílias recebesse uma casa com toda a infra-estrutura, acesso a um posto de saúde e à escola do núcleo e, em troca, fariam o manejo de um lote de 10 hectares de área plantada de mamona consorciada com feijão que seriam plantados pela Brasil Ecodiesel. Da produção de mamona obtida, metade ficaria com a empresa e a outra metade o agricultor poderia vendê-la para a companhia por um preço fixo pago de forma adiantada em 12 parcelas mensais mais bônus por produtividade. Ao final de 10 anos contados da primeira colheita, os agricultores ganhariam a titularidade de 25 ha cada e todas as benfeitorias.

No papel era um grande negócio e, apesar da primeira safra em 2004 ter apresentado resultados promissores (com produção de pouco mais de 3 mil quilos por agricultor), a partir de 2005 começaram a acontecer atrasos no plantio e a produtividade despencou. Além disso, os R$ 160 mensais pagos como adiantamento que cabe aos agricultores não é nenhuma fortuna. “Como o dinheiro não foi o suficiente para o sustento começaram a surgir situações de trabalho infantil. As crianças tapavam buracos nas estradas em troca de donativos”, conta Verena Glass, pesquisadora da ONG e que esteve no Santa Clara em 2008.

A própria empresa admite que o assentamento se tornou um beco sem saída. “Do ponto de vista econômico a coisa não deu muito certo, pois a empresa não teve o retorno que esperava”, admite o diretor financeiro da Brasil Ecodiesel, Eduardo de Come. Ele, no entanto, nega que a empresa esteja em falta com os agricultores. “A escola e o posto de saúde do Santa Clara têm um padrão muito superior ao que se encontra na região, além do mais mantivemos os repasses mensais e as cestas básicas para as famílias. Nossos compromissos foram cumpridos”, assegura o executivo.

Por seu lado, o presidente Mauro Cerchiari admite que a Brasil Ecodiesel cogita acabar com essa parceria. “Continuamos dando suporte aos agricultores, mas existem conversas paralelas com o governo estadual para que ele assuma gradativamente o projeto”, informa.

O envolvimento da Brasil Ecodiesel na agricultura familiar tem um alcance bem maior do que o Santa Clara. Antoninho Rovaris, secretário de Política Agrícola da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) – que vem facilitando contratos entre agricultores familiares e as usinas –, confirma que a Brasil Ecodiesel teve problemas para cumprir os contratos que firmou para a safra 2007/2008. “Com os problemas de caixa, a empresa foi gradativamente retirando seus técnicos e, no final da safra, estava praticamente inoperante”, diz. Apesar de alguns atrasos pontuais, ele conta que não há mais nada pendente com a Brasil Ecodiesel. Na opinião de Rovaris, a Brasil Ecodiesel merece crédito por ter sido a “primeira do setor a se interessar por agricultura familiar”.
 
A dificuldade em viabilizar a mamona, aliás, não é exclusividade da Brasil Ecodiesel, como informa o João Carlos Sampaio Torrens, coordenador da área de Políticas Públicas do Departamento de Estudo Sócio-Econômicos Rurais (Deser), que até pouco tempo esteve envolvido num projeto do MDA de diagnóstico da relação entre agricultores familiares e o biodiesel. O problema, segundo o pesquisador, foi que não havia uma cultura instituída para a produção da mamona. “Faltam pesquisas consolidadas e isso leva alguns anos. A assistência técnica ficava prejudicada porque nem os técnicos sabiam direito que orientação dar”, encerra.

Fábio Rodrigues - BiodieselBR.com
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