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A falta de escala para o biodiesel

As variáveis que interferem com o biodiesel: heterogeneidade, padronização, commodity, controle de qualidade, variabilidade de produção...
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As variáveis que interferem com o biodiesel: heterogeneidade, padronização, commodity, controle de qualidade, variabilidade de produção...
 
Duas semanas atrás, conversei com o professor de química da UFMT, Edinaldo de Castro Silva, doutor em química inorgânica pela USP. Está entre os raros casos da academia brasileira, que alia sofisticação teórica com o chão de fábrica. Entusiasta da questão que dá nome a este artigo, é pauta obrigatória para articulistas de verdade (estou na turma dos aprendizes) e jornalistas do Estado.

Tenho um pé atrás com esta coisa de combustíveis alternativos por conta da falta de escala de todos eles e pela heterogeneidade da sua formação técnica. Fui atrás de quem sabe. Comecei minha argüição sobre as chances do etanol e do biodiesel se tornarem uma commodity. “Claro, desde que o governo tenha um bom ou excelente programa de controle de qualidade sempre é possível. Principalmente para o etanol, uma vez que se trata de uma indústria melhor definida tecnicamente e com menor número de produtores. No caso do Biodiesel, essa possibilidade se torna um pouco mais distante, haja vista que como produto da reação de transesterificacão entre óleos vegetais ou animais com álcoois de cadeia pequena como o etanol ou metanol, tem grande variabilidade de produção” diz ele.

Ainda sobre o biodiesel, o professor explica tecnicamente a dificuldade de padronização. “O problema maior é que o biodiesel tem como origem diversas fontes de oleaginosas ou mesmo gorduras animais. Podemos produzi-lo a partir de óleo de soja, mamona, palmas, pinhão manso, etc, e também de gordura animal como sebo bovino e gordura de galinha e de porco. Enfim, essa multiplicidade de fontes torna o processo um pouco mais complicado para se chegar ao processo que possamos a denominar de commodity”.

A regulação estatal já descobriu este problema. Segundo o professor “a ANP (Agencia Nacional de Petróleo, gás natural e biocombustíveis) já com essa preocupação elaborou a Resolução ANP 42 /2005, que define propriedades comuns a todo e qualquer biodiesel independente da origem dos reagentes iniciais. Claro que para se chegar a commodity, o rigor desse controle de qualidade deve ser aperfeiçoado. Aliado a toda essa dificuldade, há ainda a política nacional para o biodiesel que permite e estimula a instalação de grande número de fabricantes desse produto. Isso seria, com certeza, mais uma agravante no controle de qualidade do produto, apesar de ser um grande ganho social brasileiro. Concluindo, o caminho para tornar o etanol uma commodity está muito mais próximo do que para o biodiesel. Depende das ferramentas de controle de qualidade que o governo desenvolver e aplicar”.

O Brasil chegou à autosuficiência no refino de gasolina ainda na década de 60 e produzimos há muito tempo óleo diesel e ainda temos problemas de padrão. Ele alerta “atualmente o Brasil está começando a ter homogeneidade dos produtos de combustíveis fósseis como a gasolina e óleo diesel. Isto porque nos últimos meses os índices de não conformidade dos produtos estão na casa dos 3 a 4%, como se pode ver no site da ANP. Essas porcentagens de não conformidade, apesar de não serem o ideal, são consideradas como aceitável internacionalmente”.

O professor comprova como cientista o que me preocupa. O biodiesel vai se caracterizando como um produto do mercado competitivo. Não vejo no futuro caminhar para alguma concentração. Isso pode levar para um mercado de subsistência, apesar de ser um produto complementar. Além disso, o excedente da produção destes pequenos produtores pode criar uma concorrência anárquica e impeditiva de homogeneização do produto. Fica a torcida para este produto assumir alguma escala!

* PAULO RONAN é economista
cpmpj@uol.com.br
Diário de Cuiabá
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