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Diesel de cana está chegando - Entrevista: Adilson Liebsch

Em menos de dois anos o diesel de cana de açúcar deve começar a ser produzido em escala comercial
BiodieselBR.com 8 min de leitura
Em menos de dois anos o diesel de cana de açúcar deve começar a ser produzido em escala comercial na usina São Martinho, em Pradópolis (SP). O processo tecnológico desenvolvido pela americana Amyris – que usa biologia sintética para transformar caldo de cana em hidrocarbonetos – está sendo otimizado em escala de demonstração em Campinas (SP).

Em entrevista à BiodieselBR, o gerente de comercialização de produtos da Amyris Brasil S.A, Adilson Liebsch, falou sobre o atual estágio do projeto, a estratégia de comercialização do novo combustível, a disputa por matéria-prima com o setor de etanol e a potencial concorrência com o biodiesel. 

Em menos de dois anos o diesel de cana de açúcar deve começar a ser produzido em escala comercial na usina São Martinho, em Pradópolis (SP). O processo tecnológico desenvolvido pela americana Amyris – que usa biologia sintética para transformar caldo de cana em hidrocarbonetos – está sendo otimizado em escala de demonstração em Campinas (SP). Em entrevista à BiodieselBR, o gerente de comercialização de produtos da Amyris Brasil S.A, Adilson Liebsch, falou sobre o atual estágio do projeto, a estratégia de comercialização do novo combustível, a disputa por matéria-prima com o setor de etanol e a potencial concorrência com o biodiesel. 

Como foi o processo de desenvolvimento tecnológico, quanto tempo isso durou e qual o volume de investimento até agora?
A tecnologia em si começou em 2003 por meio do desenvolvimento de um processo de produção de um medicamento chamado artemisinina [que combate a malária]. Ao longo do caminho se percebeu que esse processo é muito eficiente na produção de hidrocarbonetos de uma forma geral. E por volta de 2006/2007 a Amyris se focou no processo para produção de combustíveis e químicos. Então estamos falando de sete anos de trabalho em cima disso. Com relação ao volume de investimento nós não divulgamos.

Atualmente em que fase está o projeto?
A Amyris está numa fase de produção intermediária entre a escala piloto e a escala industrial, o que chamamos de escala de demonstração. Entre essas duas etapas tem algumas operações intermediárias que precisam ser desenvolvidas. Essa fase de otimização de processo começou em 2009 e estamos trabalhando numa escala cerca de 100 vezes menor que a escala industrial prevista para a usina São Martinho. 

Qual será o preço estimado do diesel de cana?
A gente tem modelos que avaliam quais são as perspectivas de preço. Mas só em 2012, quando estivermos produzindo em escala industrial, é que vamos conseguir refinar esses modelos.  Mas nossa expectativa é de que o processo passe por uma fase de redução de custo e isso vai ser em função principalmente de escala e produtividade da indústria. Quando esses fatores alcançarem a meta, a idéia é que o preço seja competitivo com o diesel fóssil, na mesma forma que hoje o etanol é competitivo com a gasolina. A gente sabe que em combustíveis e commodities, a matéria-prima é determinante como fator de custo. Em qualquer produto, no biodiesel ou no diesel de cana, a matéria-prima representa 70% dos custos. E a cana de açúcar é uma matéria-prima altamente competitiva no Brasil. Então levando em consideração esses fatores a gente tem fundamentos que mostram que, quando estabilizado o processo, o diesel de cana dever ser competitivo com o diesel fóssil e com biodiesel.

  • Adilson Liebsch, gerente de comercialização de produtos da Amyris Brasil S.A durante a Conferência BiodieselBR em outubro de 2010
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O objetivo principal será atuar como produtores ou fazer parceria de tecnologia com as usinas de etanol?
Num primeiro momento vamos atuar como produtores utilizando capital próprio em uma joint venture com o grupo São Martinho. A partir de 2012 vamos replicar esse modelo em outras usinas de grandes grupos, como Guarani e Bunge. Esse é o horizonte próximo. Essa estratégia envolve capital das empresas parceiras para adaptação das usinas, que precisam acoplar um módulo. A Amyris entraria com a tecnologia e a operação de comercialização dos produtos. Por ser um produto novo, as usinas de etanol não têm estrutura para comercializar hidrocarbonetos. E faz mais sentido que isso se concentre na Amyris.

A estratégia da Amyris é consolidar a participação no mercado brasileiro ou primeiro trabalhar com exportação?
O Brasil, sem dúvida, é um mercado bastante interessante em função da logística, porque é mais fácil fornecer um combustível aqui sem ter que depender de transporte marítimo. Nos primeiros anos a nossa escala de produção será bem pequena frente ao mercado brasileiro. Mas evidente que a empresa olha para o mercado global. Existem sim trabalhos nos Estados Unidos e na Europa para tentar enxergar oportunidades de mercado lá para o diesel de cana. Acho que é uma questão de saber quais mercados tem melhores oportunidades. Isso não está definido ainda, mas eu enxergo que as grandes oportunidades estão no Brasil.

Além do Brasil a empresa tem planos de produzir em outros países?
Brasil é primeira opção em função da disponibilidade de matéria-prima, que é o açúcar fermentado proveniente de cana de açúcar. Certamente a Amyris também tem interesse em países que tenham essa disponibilidade. Nos Estados Unidos a cana de açúcar não se adapta muito bem, mas há o sorgo sacarino, uma matéria-prima alternativa que tem muito potencial. Assim que essas fontes forem viáveis e permitirem escala haverá sim interesse.

Quais são hoje os principais desafios técnicos, econômicos e regulatórios para produzir e comercializar o diesel de cana?
Os aspectos tecnológicos já estão bem endereçados para a execução da escala de produção industrial. Sobre os aspectos comerciais, temos um modelo de negócio que faz bastante sentido e que está atraindo investimentos do setor sucroalcooleiro. Esse modelo permite criar uma fonte adicional de faturamento para as usinas e, nesse aspecto, não há grandes desafios. Temos a questão regulatória. Hoje o diesel de cana não faz parte da matriz energética do país e não atende a definição da ANP, embora ele seja compatível com a lei de biodiesel. Mas quando a ANP fecha a definição como sendo éster de ácidos graxos acaba ficando muito restrito. Serão necessárias algumas discussões sobre como especificar e tratar o produto em aspectos regulatórios e como introduzi-lo na matriz energética. O diesel de cana é um hidrocarboneto assim como o diesel. Temos uma série de argumentos que levam a fazer uma revisão dessa definição. Assim como o biodiesel, o diesel de cana é um produto renovável e ajuda a economia brasileira e o meio ambiente de forma significativa e comprovada.

Como você avalia a concorrência do diesel de cana com o biodiesel?
Eu colocaria o diesel de cana como algo complementar ao biodiesel. Ele não vai concorrer, vai coexistir. Existem discussões sobre qual seria o teor máximo de biodiesel para que não houvesse aumento de emissão de NOx, de consumo ou danos nos motores. Por ser um hidrocarboneto, o diesel de cana tem as mesmas propriedades do diesel fóssil, então não há limites para o teor de mistura. Ele é totalmente isento de enxofre, renovável, favorece a agricultura, reduz importações, impulsiona a economia local e reduz os gases de efeito estufa até mais que o próprio etanol. Enfim, tem toda uma similaridade com o biodiesel. Nosso foco de mercado é para o transporte metropolitano, por ser um combustível isento de enxofre. São Paulo está querendo reduzir a utilização de combustíveis fósseis em 10% ao ano até 2018. Isso acaba criando uma oportunidade de mercado onde o diesel de cana não compete com o biodiesel. A demanda mundial de diesel tende a crescer nos próximos anos e não é certo se só o diesel fóssil vai ser suficiente para atender. Então a produção de alternativas que possam complementar esse mercado será sempre bem-vinda. O que vai determinar uma participação maior dos biocombustíveis de primeira e de segunda geração é o mercado. Para isso o preço precisa ser competitivo. 

Como a demanda por cana de açúcar para produzir diesel vai impactar o mercado de etanol?
A escala de produção nos primeiros anos vai ser pequena frente à escala do etanol e do biodiesel. Hoje se produz 600 milhões de toneladas de cana no Brasil. É prevista uma expansão dessa cultura perto de 30% a 40% nos próximos cinco anos. A nossa primeira usina vai consumir 2 milhões de toneladas e os contratos que a gente tem em vista para executar vão elevar essa demanda por matéria-prima  para em torno de 12 milhões toneladas anuais, então não chega a causar impacto.

Adilson AMyris
Adilson Liebsch, gerente de comercialização de produtos da Amyris Brasil S.A durante a Conferência BiodieselBR em outubro de 2010

Alice Duarte - BiodieselBR.com
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