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Biodiesel de óleo de cozinha move frota

Apesar da modesta produção, a unidade possui capacidade de produzir 1.000 litros por dia. O que falta é a matéria-prima.
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Apesar da modesta produção, a unidade possui capacidade de produzir 1.000 litros por dia. O que falta é a matéria-prima.
 
Tecnologia desenvolvida pela Unicamp atrai interesse da iniciativa privada

A Prefeitura de Indaiatuba, distante 102 quilômetros a noroeste de São Paulo, conseguiu uma redução de 44% por litro de combustível utilizado em parte de sua frota, com um projeto-piloto que usa restos de óleo de cozinha de residências e estabelecimentos comerciais do município na produção de biodiesel. O produto é processado em uma usina experimental montada em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O pioneirismo do negócio atraiu o interesse da iniciativa privada.

O primeiro resultado comercial foi a assinatura de um contrato de licenciamento com a BioCamp Indústria e Comércio de Biodiesel Ltda, com sede em Campo Verde, Mato Grosso. Pelo acordo, que não teve os valores divulgados pela Agência de Inovação da Unicamp, a Inova, a empresa poderá explorar comercialmente a tecnologia desenvolvida pela universidade para transformar gordura animal e óleos vegetais em biodiesel pelo prazo de 20 anos.

{sidebar id=13}A usina da Biocamp entra em operação no dia 30, e deve produzir até 60 milhões de litros do biocombustível ao ano. A produção inicial será de 10 mil litros por dia. "Como o contrato não confere exclusividade à BioCamp, a mesma tecnologia deverá ser objeto de novos licenciamentos", diz o professor da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) Antonio José da Silva Maciel.

Pelo projeto, sob sua coordenação, foram produzidas em março deste ano 3,3 mil litros de biodiesel de óleo de cozinha, revertidos, em parte, para abastecer veículos utilizados pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) do município. Dois utilitários rodam com 100% do biodiesel produzido no município. O sucesso do projeto pode ser medido pela sua ampliação.

Desde o início deste mês, outros oito caminhões da autarquia começaram a utilizar o produto, numa mistura inicial de 25% de biodiesel a outros 75% de diesel. A meta é elevar a mistura até atingir 100%, mas a mudança dependerá de testes de desempenho do novo combustível no motor dos veículos. Até o final do ano que vem toda a frota deve adotar o biodieser, o que proporcionará economia de até R$ 1 milhão por ano aos cofres municipais.

O litro do diesel adquirido pela Prefeitura de Indaiatuba sai por R$ 1,80. A produção de cada litro do biodiesel feito com dejetos de óleo de cozinha sai por R$ 1,00 e deve cair ainda mais, segundo a administração. Por enquanto apenas duas pessoas trabalham na planta montada no município. Os equipametos instalados são da Feagri.

Apesar da modesta produção, a unidade possui capacidade de produzir 1.000 litros por dia. O que falta é a matéria-prima. Por hora, os comerciantes do município são os maiores doadores do produto. Em março 50 deles destinaram 3,2 mil litros de óleo de cozinha. Moradores de 100 residências contribuíram com outros 744 litros, perfazendo 3.948 litros doados no mês passado.

A tecnologia desenvolvida pela Unicamp e empregada na usina possibilitou a produção de 3,3 mil litros de biodiesel (75%), e 592 litros (15%) de glicerina, que no futuro se transformará em sabão. O potencial de crescimento, porém, é grande. Como o município possui 172 mil habitantes, com 55 mil residências e 2 mil estabelecimentos comerciais, potencialmente poderiam ser coletados 100 mil litros de óleos de cozinha ao mês. Se transformados em biodiesel, eles seriam suficientes para atender toda demanda de combustível de veículos da frota municipal - cerca de 50 mil litros no mesmo período - e ainda sobraria para eventual comercialização.

Segundo Maciel, a mistura obtida a partir do óleo de cozinha tem índice de limpeza superior a 95% e emissão de poluentes próxima a zero. Para obter o combustível o óleo é peneirado, decantado várias vezes e depois misturado ao etanol. Os pesquisadores do Feagri desenvolveram o catalisador, que dá origem ao biodisel. "Essa técnica também é possível para gordura animal, mas ainda não estamos desenvolvendo na usina por uma questão de logística", afirma.

Para conseguir as doações, a Prefeitura de Indaiatuba realiza desde o começo deste ano uma campanha publicitária para incentivar os moradores a não jogarem fora o óleo de cozinha usado e sim armazená-los em garrafas pets. Também são feitas campanhas nas escolas - que distribuirá aparelhos de MP3 aos alunos vencedores -, além de palestras. No caso do comércio, a administração sede galões com capacidade para até 50 litros para armazenamento. A coleta é feita em pontos pré-determinados.

A Biocamp não é a única a demonstrar interesse. A iniciativa despertou a atenção da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O Conselho de Meio Ambiente da Federação recebeu no início deste mês o professor Maciel e sua equipe para conhecer os primeiros resultados do projeto. Depois da exposição, o grupo já foi convidado a divulgar a iniciativa em Salvador, Recife, Belo Horizonte e Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.

Segundo Maciel, a iniciativa não se restringe apenas a produção do combustível. Uma lei aprovada pela Câmara de Vereadores de Indaiatuba prevê um projeto de responsabilidade sustentável. A proposta é ampliar a usina experimental e investir R$ 700 mil em uma planta semi-industrial para elevar a produção. A verba foi solicitada ao Ministério Desenvolvimento Social e Combate a Fome e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), mas a administração ainda não obteve resposta. Maciel explica que a logística que hoje é feita pela Prefeitura seria transferida a cooperativas de trabalhadores com o intuito de gerar renda e emprego. A receita para pagamento dessa mão-de-obra viria da venda do excedente da produção.

CLAYTON FREITAS
DO JORNAL DO COMMERCIO
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