BiodieselBR
Publicidade

Noble/Cofco: Desafio de fazer o Selo no Nordeste

Como parte de um esforço de diversificação de seu Selo Social, a Noble/Cofco mantem um projeto piloto de plantio de amendoim em Pernambuco.
BiodieselBR.com 6 min de leitura

“O Selo [Social] não foi feito para o Sul. A soja lá existe mesmo sem o Selo”, desabafa o engenheiro agrônomo e gerente comercial da Noble/Cofco (em maio a empresa de mudou de nome), Daniel Goulart, ao explicar porque a trading de chinesa mantém um projeto de fomento ao focado em pequenos produtores nos municípios pernambucanos de Petrolândia e Tacaratu desde 2012.

Essa é a segunda parte de nossa série de cinco reportagens especiais sobre o Selo Social.

“O Selo [Social] não foi feito para o Sul. A soja lá existe mesmo sem o Selo”, desabafa o engenheiro agrônomo e gerente comercial da Noble/Cofco (em maio a empresa de mudou de nome), Daniel Goulart, ao explicar porque a trading de chinesa mantém um projeto de fomento ao focado em pequenos produtores nos municípios pernambucanos de Petrolândia e Tacaratu desde 2012.



O projeto é pequeno – apenas 10 famílias – uma vez que seria inviável começar a pleno vapor. “A gente queria fazer algo no Nordeste que tivesse impacto real. Mas não tem como começar um projeto desses com, digamos, 200 famílias porque você teria que montar tudo de cima para baixo e, aí, não teria como dar certo”, explica. “Fomos entender que tipo de apoio eles precisam da gente”, complementa o agrônomo.

A situação que encontraram foi desafiadora, para dizer o mínimo. “Eles não têm qualquer tipo de organização em cooperativas ou associações e têm lotes realmente pequenos de oito hectares no máximo. Um perfil muito diferente do que encontramos no Sul”, descreve a coordenadora do Selo Social da empresa, Kallienny Resende, acrescentando que muitos sequer contam com o título definitivo das próprias terras e, portanto, não podem pegar financiamentos para investir na produção. “É uma região extremamente pobre e que não tem assistência para nada”, diz informando que se trata de um assentamento de agricultores que foram realocados na época construção da Barragem de Paulo Afonso.

De tão carentes, muitos desses agricultores tinham simplesmente desistido de cultivar seus lotes e os arrendava por uma bagatela – ganhando algo entre R$ 300 a R$ 400. “Mesmo que aquela terra seja a única coisa que eles têm na vida que e eles fossem ganhar mais cultivando, eles preferiam [arrendar] porque não tinham como mobilizar os recursos necessários para produzir”, prossegue Kallienny.

Amendoim

Em substituição à desacreditada mamona, a Noble/Cofco optou por trabalhar com amendoim porque esta era uma opção que conciliava uma série de vantagens tanto do ponto de vista agronômico quanto comercial. “É uma oleaginosa que, teoricamente, se sai relativamente bem em climas mais secos. Além disso, comercialmente também é interessante porque, embora a produção esteja muito concentrada em São Paulo, a maior demanda está no Nordeste”, enumera Goulart. Dos 121 mil hectares de amendoim que o país deverá plantar na safra 2015/16 segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), pouco mais de 109 mil – 90,5% – estão em São Paulo.


Apesar desse potencial, os – raros – cultivos de amendoim preexistentes à chegada da Noble/Cofco na região eram completamente rudimentares. “Quando a gente chegou, era tudo plantado e colhido manualmente sem equipamento nenhum”, destaca Goulart. Refinar um novo sistema produtivo focado nas particularidades da região foi o principal foco desses primeiros quatro anos de trabalho. Para tanto, a Noble/Cofco vem atuando em conjunto com um grupo de pesquisadores da Embrapa Algodão.

Inicialmente os pesquisadores da Embrapa deveriam apenas avaliar qual seria a melhor variedade de amendoim a ser plantada pelos parceiros da Noble/Cofco. Com o tempo, no entanto, a relação evoluiu para uma parceria que inclui também pesquisas a respeito do uso de fertilizantes e práticas de manejo mais indicadas e, também, o desenvolvimento de maquinário que permite mecanizar, ao menos parcialmente, a colheita das lavouras. “O custo da colheita é alto porque você tem que contratar mão-de-obra. Essa é a maior limitação hoje”, explica o engenheiro agrônomo da Embrapa Algodão, Raul Porfírio de Almeida, que coordena o esforço.

Mesmo nesse estágio embrionário, já há resultados positivos sendo colhidos. O pesquisador da Embrapa conta que a região é uma das “campeãs nacionais” no nada meritório ranking do uso de agrotóxicos com resultados nefastos para a saúde dos próprios trabalhadores e para o meio ambiente. Na verdade, segundo Almeida, o abuso era tamanho que “pragas nem respondem mais” ao uso de defensivos levando os produtores a aumentarem ainda mais as aplicações ficando presos num ciclo vicioso. “Em nossas áreas a gente faz manejo integrado com o objetivo de aplicar o mínimo possível de defensivo. Os agricultores veem isso o que tem sido muito positivo”, descreve.

É algo que, segundo Kallienny, vem atraindo muita expectativa por parte dos agricultores. “Os agricultores têm se aproximado sempre que promovemos uma atividade e se mostram muito interessados quando veem que, a forma como manejamos, é menos danosa e menos trabalhosa”, anima-se.

A esse respeito, Pavarino, do MDA, ressalta ainda que já há relatos dos próprios agricultores apontando o potencial que o projeto da Noble/Cofco tem para impactar as vidas dessas pessoas. “O plantio de amendoim em Pernambuco era todo manual e fisicamente duro. Quando o trabalho fica menos penoso, aumenta a chance para que esses agricultores e seus filhos possam ir buscar outros tipos de qualificação”, garante.

Apesar disso e de ter sido criado mirando o Selo Social, o investimento ainda passa abaixo do radar e não conta com qualquer apoio do MDA. “A atual Portaria [do Selo] não incentiva projetos experimentais como o nosso. Você pode só declarar gastos com a aquisição de matérias-primas e, atualmente, a gente usa todo o amendoim colhido como semente”, pontua Kallienny. Ainda assim ela considera esse um investimento que vale o risco. “O nosso objetivo está no futuro. Depois que tivermos um modelo de produção desenvolvido você pode reproduzir. Só nessa região temos duas mil famílias de agricultores e tem vários outros perímetros nos quais poderíamos atuar”, adianta.

Esse salto pode estará relativamente perto. Segundo Goulart a Noble/Cofco considera que o projeto está maduro para começar a ser expandido. “A gente já resolveu os desafios no campo”, resume. No momento, o grande fantasma é a grave seca que vem afligindo o Nordeste há praticamente quatro anos. Mesmo nas regiões de agricultura irrigada nas margens do Rio São Francisco – caso da região trabalhada pela Noble/Cofco – a oferta hídrica vem sem sendo drasticamente reduzida. “Claro que a gente espera que a seca não dure para sempre, mas e se a água acabar? Esse é o gargalo mais importante hoje”, preocupa-se.

Esta é uma série em cinco reportagens. O capítulo anterior pode ser acessado aqui e, depois de publicados, todos os capítulos estarão disponíveis aqui. Amanhã leia sobre o projeto da ADM para o fomento do plantio de palma-de-óleo por agricultores familiares de Pará que está entrando em sua fase produtiva. 

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com

Compartilhar: