Entre os dias 26 e 28 de março, realizou-se em Wageningen, Holanda, um Seminário Internacional sobre Pinhão Manso, organizado pela ONG FACT Foundation. O evento teve cerca de 60 participantes, representando 26 países de todos os continentes e teve o objetivo principal de juntar envolvidos com o desenvolvimento de tecnologia e implantação de projetos em todo o mundo para nivelar o conhecimento que se tem sobre essa oleaginosa e criar uma rede mundial de pesquisa. Os participantes eram na maioria pesquisadores em seus países, mas também estavam presentes diretores de empresas, estudantes, agricultores, investidores, representantes de comunidades, jornalistas e interessados na cultura.
...nós do Brasil precisamos aceitar a realidade e encarar este problema de frente. Se continuarmos promovendo o pinhão manso com uma expectativa tão alta e descolada da realidade, vamos colher grande decepção em no máximo dois anos...
Alguns participantes foram referências importantes para o evento, como o Dr. Nikolaus Foidl e Dr. Joachim Heller. O primeiro é austríaco e coordenou o projeto de plantio de pinhão manso para biodiesel na Nicarágua na década de 90 e o segundo é o autor do texto publicado em 1996, fruto de sua tese de PhD, que até hoje é a principal fonte de informações sobre a planta (Physic Nut - Jatropha curcas - Promoting the conservation and use of underutilized and neglected crops).
Embora os organizadores do evento tenham tentado dar ao Seminário um caráter científico, não foi possível atingir este objetivo a contento, pois ainda há pouca pesquisa sendo feita de forma técnica. Numa das sessões que participei sobre o tema produtividade, por exemplo, ainda permaneceu a ausência de levantamentos minimamente confiáveis sobre o real potencial produtivo da planta. Os poucos relatos existentes continuam sendo de plantas isoladas em condições ótimas, a partir das quais se extrapola para um campo de produção com muitas plantas e se estima uma alta produtividade.
O Dr. Nikolaus Foidl, que era praticamente o único presente que tinha real experiência com pinhão manso a campo e em longo prazo, atualmente é um ferrenho opositor do plantio de pinhão manso e está trabalhando na Bolívia com outra espécie (Moringa). Para não ficar dúvida ou mal entendido, eu perguntei diretamente a ele porque sua posição contra o pinhão manso. Ele respondeu categoricamente que o pinhão manso tem baixa produtividade, tem custo de produção alto, é muito atacado por fungos e pragas e ainda é tóxico. Anteriormente, ele também havia informado que após o quinto ano, a produtividade tende a diminuir a cada ano devido ao ataque de doenças e insetos e morte de parte das plantas.
Até hoje, eu só consegui encontrar e conversar com duas pessoas que já plantaram pinhão manso por um longo período em lavouras comerciais. Estes foram o Dr. Nikolaus Foidl e o Sr. Vinayak Patil que coordenava uma cooperativa com 8.000 ha de pinhão manso no Estado de Maharashtra na Índia. Destes dois a experiência é real e por isso tem maior validade, mas contradizendo as demais experiências teóricas que escutamos diariamente, os dois são céticos quando à viabilidade do pinhão manso devido à baixa produtividade e alto custo de produção.
Confirmou-se em relatos de diversos países a ocorrência de pragas e doenças, a sensibilidade ao encharcamento e acidez ou alcalinidade do solo e a inviabilidade de cultivo em locais de alta precipitação pluviométrica (aumenta problemas com doenças e encharcamento).
Causou grande apreensão que países pobres como o Senegal e a Indonésia estejam promovendo programas de plantio de pinhão manso em larga escala (milhões de hectares) baseados na expectativa de produções elevadas, como 7.500 kg/ha no Senegal ou de 10.000 kg/ha na Indonésia. Ficou claro durante as discussões que essa expectativa era irreal e não estava suportada por nenhuma observação fundamentada ou em qualquer relato confiável. Assim como era irreal a expectativa de que o pinhão manso pudesse produzir satisfatoriamente em solos degradados (sem nutrientes) e sob baixa disponibilidade hídrica como na região árida do Estado de Rajahstan na Índia onde as chuvas anuais são de apenas 200mm.
Preocupados com este cenário, numa das sessões dedicadas a Pesquisa & Desenvolvimento se conclui que a comunidade científica não podia ficar indiferente ao que estava se passando no mundo, referindo-se à expectativa irreal sobre o pinhão manso. Ao final do evento, numa votação entre os participantes, foi quase unânime que se deveria lançar um manifesto (pelo FACT Foundation e Universidade de Wageningen) alertando todos os técnicos e produtores do mundo sobre os riscos da expectativa irreal sobre Jatropha curcas, à semelhança do manifesto que já havia sido feito pela Embrapa e Epamig no Brasil.
Nós do Brasil precisamos aceitar a realidade e encarar este problema de frente. Se continuarmos promovendo o pinhão manso com uma expectativa tão alta e descolada da realidade, vamos colher grande decepção em no máximo dois anos. O pinhão manso tem potencial para ser uma importante oleaginosa, mas antes de promover seu plantio é preciso lhe conhecer melhor e desenvolver tecnologia agrícola, pois ele ainda é uma planta asselvajada cujo potencial não pode ser explorado no momento. Infelizmente este processo de desenvolvimento tecnológico leva tempo, talvez uma década por ele ser uma planta perene. Mas começar o plantio agora sem nenhuma tecnologia é um erro que põe em risco os agricultores e pode gerar um descrédito em relação à planta.
P.S.: Os trabalhos apresentados no Seminário, as apresentações e as conclusões do evento serão disponibilizadas em breve no site www.fact-fuels.org
Liv Soares Severino, colunista BiodieselBR.com, engenheiro agrônomo pela Universidade Federal do Ceará, mestre em fitotecnia pela Universidade Federal de Viçosa, pesquisador em sistemas de produção na Embrapa.
E-mail: liv@cnpa.embrapa.br
...nós do Brasil precisamos aceitar a realidade e encarar este problema de frente. Se continuarmos promovendo o pinhão manso com uma expectativa tão alta e descolada da realidade, vamos colher grande decepção em no máximo dois anos...
Alguns participantes foram referências importantes para o evento, como o Dr. Nikolaus Foidl e Dr. Joachim Heller. O primeiro é austríaco e coordenou o projeto de plantio de pinhão manso para biodiesel na Nicarágua na década de 90 e o segundo é o autor do texto publicado em 1996, fruto de sua tese de PhD, que até hoje é a principal fonte de informações sobre a planta (Physic Nut - Jatropha curcas - Promoting the conservation and use of underutilized and neglected crops).
Embora os organizadores do evento tenham tentado dar ao Seminário um caráter científico, não foi possível atingir este objetivo a contento, pois ainda há pouca pesquisa sendo feita de forma técnica. Numa das sessões que participei sobre o tema produtividade, por exemplo, ainda permaneceu a ausência de levantamentos minimamente confiáveis sobre o real potencial produtivo da planta. Os poucos relatos existentes continuam sendo de plantas isoladas em condições ótimas, a partir das quais se extrapola para um campo de produção com muitas plantas e se estima uma alta produtividade.
O Dr. Nikolaus Foidl, que era praticamente o único presente que tinha real experiência com pinhão manso a campo e em longo prazo, atualmente é um ferrenho opositor do plantio de pinhão manso e está trabalhando na Bolívia com outra espécie (Moringa). Para não ficar dúvida ou mal entendido, eu perguntei diretamente a ele porque sua posição contra o pinhão manso. Ele respondeu categoricamente que o pinhão manso tem baixa produtividade, tem custo de produção alto, é muito atacado por fungos e pragas e ainda é tóxico. Anteriormente, ele também havia informado que após o quinto ano, a produtividade tende a diminuir a cada ano devido ao ataque de doenças e insetos e morte de parte das plantas.
Até hoje, eu só consegui encontrar e conversar com duas pessoas que já plantaram pinhão manso por um longo período em lavouras comerciais. Estes foram o Dr. Nikolaus Foidl e o Sr. Vinayak Patil que coordenava uma cooperativa com 8.000 ha de pinhão manso no Estado de Maharashtra na Índia. Destes dois a experiência é real e por isso tem maior validade, mas contradizendo as demais experiências teóricas que escutamos diariamente, os dois são céticos quando à viabilidade do pinhão manso devido à baixa produtividade e alto custo de produção.
Confirmou-se em relatos de diversos países a ocorrência de pragas e doenças, a sensibilidade ao encharcamento e acidez ou alcalinidade do solo e a inviabilidade de cultivo em locais de alta precipitação pluviométrica (aumenta problemas com doenças e encharcamento).
Causou grande apreensão que países pobres como o Senegal e a Indonésia estejam promovendo programas de plantio de pinhão manso em larga escala (milhões de hectares) baseados na expectativa de produções elevadas, como 7.500 kg/ha no Senegal ou de 10.000 kg/ha na Indonésia. Ficou claro durante as discussões que essa expectativa era irreal e não estava suportada por nenhuma observação fundamentada ou em qualquer relato confiável. Assim como era irreal a expectativa de que o pinhão manso pudesse produzir satisfatoriamente em solos degradados (sem nutrientes) e sob baixa disponibilidade hídrica como na região árida do Estado de Rajahstan na Índia onde as chuvas anuais são de apenas 200mm.
Preocupados com este cenário, numa das sessões dedicadas a Pesquisa & Desenvolvimento se conclui que a comunidade científica não podia ficar indiferente ao que estava se passando no mundo, referindo-se à expectativa irreal sobre o pinhão manso. Ao final do evento, numa votação entre os participantes, foi quase unânime que se deveria lançar um manifesto (pelo FACT Foundation e Universidade de Wageningen) alertando todos os técnicos e produtores do mundo sobre os riscos da expectativa irreal sobre Jatropha curcas, à semelhança do manifesto que já havia sido feito pela Embrapa e Epamig no Brasil.
Nós do Brasil precisamos aceitar a realidade e encarar este problema de frente. Se continuarmos promovendo o pinhão manso com uma expectativa tão alta e descolada da realidade, vamos colher grande decepção em no máximo dois anos. O pinhão manso tem potencial para ser uma importante oleaginosa, mas antes de promover seu plantio é preciso lhe conhecer melhor e desenvolver tecnologia agrícola, pois ele ainda é uma planta asselvajada cujo potencial não pode ser explorado no momento. Infelizmente este processo de desenvolvimento tecnológico leva tempo, talvez uma década por ele ser uma planta perene. Mas começar o plantio agora sem nenhuma tecnologia é um erro que põe em risco os agricultores e pode gerar um descrédito em relação à planta.
P.S.: Os trabalhos apresentados no Seminário, as apresentações e as conclusões do evento serão disponibilizadas em breve no site www.fact-fuels.org
Liv Soares Severino, colunista BiodieselBR.com, engenheiro agrônomo pela Universidade Federal do Ceará, mestre em fitotecnia pela Universidade Federal de Viçosa, pesquisador em sistemas de produção na Embrapa.
E-mail: liv@cnpa.embrapa.br