A inacreditável megausina de biodiesel em Araquari (SC)

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Na semana passada uma notícia discretamente publicada no Jornal de Santa Catarina, do grupo RBS, causou espanto entre aqueles que conhecem um pouco mais do setor de biodiesel.

O jornal publicou que um grupo empresarial chileno de nome Mater LNG estaria pensando em investir na construção de uma usina de biodiesel em Araquari, uma pacata cidadezinha catarinense de 25 mil habitantes. O grupo empresarial até já teria firmado um termo de compromisso com a Prefeitura de Araquari. A notícia também informou que a empresa chilena estaria negociando a compra de um terreno que hoje pertence ao Grupo Beto Carreiro por R$ 200 milhões.

Até aí, nada demais. Acontece que a empresa estaria pensando em investir inacreditáveis 1,4 bilhão de Euros, o equivalente a R$ 3,4 bilhões pela cotação atual. Um valor absolutamente impensável para qualquer empresa do ramo. Para ter ideia do quanto a cifra é exagerada, vale lembrar que o maior fabricante de biodiesel dos Estados Unidos, o Renewable Enegy Group (REG), enquanto estava preparando seu IPO, imaginava que seu valor de mercado seria de US$ 400 milhões, mas, quando as negociações foram abertas em janeiro, o valor pago pelo mercado ficou bem abaixo disso.

Talvez o tamanho do investimento se justifique pelo porte da usina que os chilenos desejam construir. Segundo documentos disponíveis no site oficial da empresa, a fábrica teria capacidade de produzir incríveis 8,9 milhões de toneladas por ano. Convertendo isso para litros, estamos falando de uma usina com capacidade para 9,5 bilhões de litros. Ela sozinha superaria os 6,9 bilhões de litros de capacidade instalada de todas as 65 usinas brasileiras somadas. Chega a ser difícil imaginar onde é que eles pretendem vender esse biodiesel todo.

Mas o porte do investimento e o tamanho da usina não é a única coisa curiosa a respeito do projeto. A matéria-prima escolhida também é uma surpresa: 70% seria óleo de palma importado – em tese, Araquari foi escolhida por sua proximidade com o mar – e 30% viria de microalgas cultivadas localmente. Sem entrar no mérito da competitividade de trazer óleo de palma do exterior e considerando apenas o atual estágio de desenvolvimento tecnológico das algas essa é uma aposta de risco.

As pessoas envolvidas na negociação dizem que o projeto vazou de forma prematura, embora todas essas informações tenham vindo de documentos publicamente disponíveis no próprio website da Mater LNG. O vereador Clenilton Carlos Pereira, ex-secretário de Desenvolvimento Econômico de Araquari, que se afastou recentemente do cargo para disputar as eleições municipais deste ano, foi um dos principais articuladores do acordo assinado em fevereiro passado entre a prefeitura catarinense e os chilenos. “O projeto ainda é muito embrionário, ele não é da forma como foi colocado”, explica o vereador.

Numa breve conversa com BiodieselBR, o representante da Mater LNG no Brasil, Carlos Cervantes Starke, também ressaltou que seria prematuro entrar em detalhes nesse ponto uma vez que o projeto seria realizado num prazo de cinco anos. Apesar disso o site da empresa apresenta na íntegra o memorando de entendimento assinado com a prefeitura e faz uma apresentação do projeto.

Há um pormenor que merece registro por seu simbolismo. No termo de compromisso assinado entre o grupo chileno e a prefeitura de Araquari, há os contatos oficiais da Mater LNG no Brasil. O telefone listado, contudo, é da Unidade de Itupeva da Coife Odonto, uma rede de clínicas odontológicas. Opção curiosa para uma empresa que pretende investir bilhões de reais no mercado de biodiesel.
 
Fábio Rodrigues - BiodieselBR.com