Vale: biodiesel moderniza velhas locomotivas

O velho transporte ferroviário ganha ares de modernidade nas locomotivas da Companhia Vale do Rio Doce. As máquinas estão mais econômicas emissão de poluentes com a adição do biodiesel ao diesel comum e deixam de lançar toneladas de dióxido de carbono por ano.

Desde maio, a mistura de 20% de biodiesel e 80% de diesel comum, chamada de B20, vem sendo usada para abastecer as locomotivas da EFC (Estrada de Ferro Carajás) e, em junho, começou a ser utilizada também nas composições da EFVM (Estrada de Ferro Vitória a Minas).

Até o final de 2007, todas as 511 locomotivas da CVRD vão rodar com B20. De acordo com a engenheira Flaviana Coelho, responsável pela pesquisa e implantação do novo combustível, com essa medida, mais de 224 mil toneladas de CO2 equivalentes deixarão de ser lançadas na atmosfera até o final do ano. "Esse volume é igual à emissão anual de uma cidade de 27 mil habitantes. Para absorver essa quantidade de gás carbônico, seria necessário plantar anualmente uma área de mata nativa equivalente a 369 estádios do Maracanã", explica a engenheira.

Em 2008, quando o uso do B20 já estará totalmente implementado nas duas ferrovias e será levado também à Ferrovia Centro-Atlântica, a previsão é de que deixarão de ser emitidas 336 mil toneladas de CO2 na atmosfera, quantidade que seria absorvida por uma área de floresta do tamanho de 552 estádios como o Maracanã.

Segundo a engenheira, a utilização do B20 reduz ainda em 20% a emissão de SO2, gás responsável pela formação da chuva ácida.

Locomotiva  BRDEO uso do B20 começou a ser pesquisado na CVRD no ano passado. Foram meses de testes em laboratório. Por exigência legal, as análises foram feitas por uma instituição independente, no caso, a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois dos resultados positivos, começaram as experiências de bancada e os testes com as primeiras locomotivas.

O diretor-executivo da Logística da CVRD, Eduardo Bartolomeo, ressalta o caráter pioneiro do uso de B20 na empresa. "Nossas ferrovias, que já apresentam índices de produtividade comparados às melhores do mundo, dão um passo pioneiro e responsável na implantação do B20, gerando empregos e divisas para o nosso país", afirma Bartolomeo.

A implantação do B20 é resultado de uma parceria entre a CVRD e a BR Distribuidora, responsável pela distribuição do combustível ao longo das rodovias. Até dezembro, o consumo do biodiesel deve chegar a 33 milhões de litros por mês nas duas ferrovias.

Com a adoção B20, a CVRD se antecipa a uma tendência mundial, que é a substituição parcial e progressiva dos combustíveis fósseis. A Lei Federal 11.907/05 determina que, a partir de 2008, o uso de diesel B2 (98% diesel comum com 2% de biodiesel) seja obrigatório em todo o território nacional. Na CVRD, o B2 é usado desde janeiro no abastecimento de caminhões e na geração de energia elétrica.

Custos e eficiência
A mudança não influenciou os custos da empresa. De acordo com a Vale, o biodiesel ainda custa um pouco mais caro que o diesel comum, mas as informações sobre o valor cobrado pela BR Distribuidora são consideradas estratégicas pela CVRD. A empresa diz que não ganha nem perde com a adoção do biodisel.

O consumo não foi alterado, porque o rendimento energético do diesel comum e do B20 é muito próximo, com variações mínimas. Nos testes realizados pela Vale a proporção (20%) de biodiesel não afeta os motores, apesar de ser mais ácido.

Impacto social
De acordo com a CVRD, a utilização combinada de B20 e B2 tem potencial para gerar empregos para até 80,5 mil famílias/ano no campo, caso a cultura na produção de biodiesel seja a da mamona. O número de empregos gerados depende da oleaginosa utilizada para produzir o biodiesel. A estimativa é feita com base em um estudo da Câmara dos Deputados, de março de 2004, que aponta uma produtividade de 0,47 toneladas de óleo por hectare por ano no cultivo de mamona.

Alex Cavalcanti