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Entrevista Expedito Parente: sol é a energia do futuro

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quarta, 27 junho 2007 . SRZD - Sidney Rezende   
Revista BiodieselBR
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Depois de sua palestra em Belo Horizonte, Minas Gerais, sobre a importância dos biocombustíveis para um planeta doente como a Terra, o engenheiro químico Expedito Parente foi abordado por uma criança. Milene Araújo, de 11 anos, entregou ao orador um desenho em que o globo terrestre pingava de suor. Abaixo, lia-se em letras infantis: “A Terra está com febre, use biodiesel”. Bastou isso para que o brasileiro de 66 anos caísse em lágrimas. Criador do combustível alternativo que está ganhando o mundo, Parente esperou mais de 20 anos para ver seu projeto ganhar visibilidade.

Ao criar e patentear o biodiesel e bioquerosene – para aviões – no início da década de 80, o ex-professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) viu seu produto ser preterido pelo álcool durante o final do regime militar. O tempo passou, o petróleo voltou ao posto de queridinho da indústria energética e sua queima foi trazendo malefícios sem precedentes ao mundo. Hoje, com a urgente necessidade de se buscar energias limpas, o engenheiro viu seu invento chegar à pauta do dia. Apesar de seu biocombustível – criado em terras brasileiras – ter se tornado de domínio público por ficar muito tempo sem caráter comercial, Parente é referência mundial no assunto.

Fundador da empresa Tecbio, de combustíveis alternativos, o pesquisador tem a ambição de ver o mundo abastecido pelo biodiesel, um desejo que vai além das fronteiras econômicas: “O biodiesel é, antes de tudo, um remédio social”. Em entrevista ao SRZD, Parente fala sobre o importante papel do Brasil nesse contexto energético em que o mundo está entrando. “O desafio é valorizar o que é nosso”, disse.

SRZD - Seu projeto do biodiesel, proposto na década de 80, foi engavetado pelo governo e o Brasil só foi apostar nesse combustível há poucos anos. Saímos perdendo ao adiar essa escolha?
Expedito Parente - Sem dúvida, e com alguns prejuízos irrecuperáveis. Retardar qualquer programa que tenha grande importância econômica e ambiental gera prejuízos. Uma questão muito interessante discutida é quanto custa não produzir o biodiesel. Se esse programa tivesse sido instalado há 20 anos, a Terra estaria um pouco menos aquecida e existiria menos desemprego no campo.

SRZD - Por que a idéia só foi retomada com força na década de 90?

EP - Os países mais avançados tiveram consciência da finitude do petróleo e enxergaram os danos causados por sua queima. Efeito estufa, poluição, doenças pulmonares... A poluição é a grande responsável. Energias limpas hoje têm mais visibilidade. No momento que o biodiesel foi ressuscitado na Alemanha e Áustria (1991), passou a ser referência para os países em desenvolvimento, como o Brasil. A outra razão é política: Lula comprou a idéia do biodiesel. Razão forte que fez o programa ser reiniciado aqui.

SRZD - Com os danos ambientais e a perspectiva de esgotamento do petróleo, a tendência é que haja uma substituição gradual e completa dele por combustíveis alternativos?

EP - Sim. Essa substituição vai acontecer de qualquer jeito. A demanda pelo petróleo vem crescendo exponencialmente. A média de consumo mundial no semestre passado foi de mil barris por segundo, um número que a atmosfera não agüenta. Os biocombustíveis vão ser uma alternativa importante, não para solução definitiva, mas para diminuir traumas do consumo de energia pela humanidade. A energia solar será, a meu ver, a grande energia do futuro.

SRZD - O bioquerosene impediria a alta emissão de gases poluentes pelos aviões comerciais. Quais os obstáculos para que a aviação utilize essa tecnologia?

EP - Não há. O que tem que acontecer é a homologação desses combustíveis, que pode levar de dois a três anos, talvez. Eles já estão sendo testados pela Boeing (fabricante norte-americana de aviões) e a Nasa (agência espacial dos Estados Unidos), para nos próximos anos conseguirmos a homologação. Depois, irá se iniciar uma nova era de desenvolvimento comercial, mas aí é outro passo.

SRZD - Por que a demora para implementar de vez o biocombustível por aqui?


EP - É um programa muito grande. Estamos vencendo a inércia, que é normal no começo de um programa dessa grandeza. O próprio Pro-Álcool, na época, teve muitos problemas. Imagina um programa com combustível novo! Está sendo até mais rápido do que eu esperava. O comecinho já resultou em mais de 600 mil empregos no campo, por exemplo. Estamos participando de eventos, fóruns que possam promover e educar sobre a questão do biodiesel, para ir aperfeiçoando o programa.

SRZD – Mas que falhas o senhor vê no programa brasileiro de biocombustível?

EP - Tem que ser aperfeiçoado. Uma das maiores lacunas é na cadeia produtiva. Tem que valorizar a produção agrícola, organizar mais. Muita gente quer investir em biodiesel, há uma moda. Mas tem que atuar em toda a cadeia, não só no que é mais cômodo.

SRZD - O senhor acredita que a conturbação gerada no Ministério de Minas e Energia com os escândalos envolvendo o ex-ministro Silas Rondeau e a demora para indicar um substituto pode prejudicar o projeto?


EP - Isso afeta todo o país, mas no caso do biodiesel acho que pode ter apenas um pequeno arranhão. O envolvimento do ministério é pequeno em relação à vontade do presidente. Lula está muito acima na hierarquia e está incentivando muito.

SRZD - A princípio, a agricultura familiar sairia ganhando com a propagação do biocombustível. A mecanização pode abafar a participação dos pequenos agricultores?

EP - No Brasil, estabeleceu-se um antagonismo de maneira perpétua entre agricultura familiar e mecanizada. Isso não deveria existir. O mercado para esse produto é muito grande e o Brasil tem terras suficientes para a conivência entre as duas modalidades. Mas isso depende das políticas públicas, que podem fortalecer a agricultura familiar na produção do biocombustível. Ela deve ser estimulada.

SRZD - Qual será o papel da Amazônia no programa do biodiesel?

EP - Em algumas comunidades isoladas de lá existe até o escambo: eles trocam um botijão de 20 litros de óleo diesel por um saco de 60 quilos de feijão. É cruel. Nesses locais há uma oportunidade de produzir o biodiesel pelo extrativismo. Por outro lado, a floresta amazônica tem mais de 80 milhões de hectares em degradação. Tem que fazer o reflorestamento energético. Isso seria extremamente importante para o combate do efeito estufa, além de ser fonte de matéria-prima para obter grandes quantidades de biodiesel. Há mais de cem espécies potencialmente capazes de fazer biodiesel na região. Só a Amazônia poderia abastecer completamente a Europa.

SRZD - O Brasil tem condições de se tornar o grande fornecedor mundial de biocombustível? O país será privilegiado?

EP - Os Estados Unidos mesmo afirmaram, certa vez, que o Brasil seria capaz de suprir cerca de 65% da demanda mundial do diesel com o biodiesel. O desafio é valorizar o que é nosso.

SRZD - Há diversas matérias-primas para a produção do biodiesel, como soja, mamona e girassol. Qual é a mais eficiente?


EP - O sucesso vai depender de uma política que associe as vocações agrícolas regionais. O Nordeste tem como motivação a inclusão social e o combate à miséria no campo. Então, haveria culturas que sobrevivessem ao semi-árido e que privilegiassem a agricultura familiar. A mamona é uma das opções. Na Amazônia, a motivação é incluir socialmente os povoamentos isolados e fazer a integração nacional dessas comunidades. As vocações lá são o extrativismo florestal e o combate ao efeito estufa através do reflorestamento energético. No sul, centro-sul e centro-oeste, as motivações são a poluição e geração de riqueza. Não existe isso que soja seja melhor do que a mamona.

SRZD – Em abril, foi noticiado que o primeiro vôo com bioquerosene na América do Sul tinha acabado de ser realizado na Argentina. Porém, há registros de que em 1984 ocorreu a primeira decolagem como testes da sua criação, no Brasil. O senhor acha que tentaram encobrir o evento de 84 ou simplesmente não foi devidamente divulgado?

EP - O primeiro vôo do mundo deste tipo foi em 1984, em São José dos Campos. O avião era movido a um combustível sem uma gota de petróleo. É possível que haja encobrimento, assim como no caso dos irmãos Wright, em que encobriram o pioneirismo de Santos Dumont na aviação. Se eles voaram, meus parabéns pra eles. Concebemos e propusemos a primeira proposta de biodiesel, com a primeira patente mundial.

Bernardo Camara

Revista BiodieselBR
Comentarios (9)add comment

Telmo Heinen - Formosa, Goiás :

Queria saber a fonte desta publicacao
O que ele patenteou é uma antiga fórmula de sabão, modificada...
Biodiesel, feito com METANOL já existiu durante a segunda Guerra mundial
 
27.06.2007 - 22:14
Votos: +0

SILVA FILHO :

EXPEDITO PARENTE : GÊNIO CEARENSE DO BIODIESEL !
Maravilhosa a entrevista com o Professor Expedito Parente, um dos "orgulhos" do Estado do Ceará ! E a própósito, nossa ONG, foi criada com bases nos conhecimentos do Professor Parente ! Estamos hoje, em Guarapari, Espírito Santo, fazendo reuniões com autoridades locais, visando implementar o BIODIESEL URBANO, através do óleo de fritura e o BIODIESEL MUNICIPAL, que trata da produção de biodiesel para uso na frota de veículos dessas prefeituras. São duas das idéias do professor Parente que estamos abordando em nossas palestras!

Seguramente, veremos, e não demora muito - nossos pequenos agricultores e agricultores familiares - inseridos em COOPERATIVAS, gerindo seu próprio negócio, e, quiça, produzindo em escala, como fazem os grandes produtores, e, diga-se de passagem, colheta mecanizada, o que fatalmente acontecerá num futuro não muito distante !

No nosso caso, o Governo do Estado do Ceará, tem se empenhado muito em se alinhar com as Diretrizes do PNPB, promovendo incentivos e assistência técnica em toda cadeia produtiva !

Aos amigos que acreditam no Projeto do Biodiesel, lembro que além do Professor Expedito Parente, que é fantástico nessa área; nosso CEARÁ, detém tecnologia inovadora em biocombustiveis, bem como industrializa plantas de usinas de biodiesel com grande competência técnica ! Como vêem, nosso CEARÁ, além do exuberante turismo, culinária deliciosa e um povo hospitaleiro; ainda tem tecnologia de ponta no Projeto BIODIESEL ! Maravilha!

Professor Parente, nossa ONG, se sente honrada em falar do seu nome com tamanha empolgação ! ILUMINADO - esse é o adjetivo que se enquadra perfeitamente no seu perfil ! Parabéns !
SILVA FILHO - Diretor da ONG Limoeiro do Norte-CE
 
28.06.2007 - 12:17
Votos: +0

Gabriel Bertolim :

Biodiesel pela reciclagem de óleo vegetal
É válido lembrar que o biodiesel também pode ser obtido através da reciclagem de óleo vegetal usado e gordura animal. 1 litro de óleo usado rende 800ml de biodiesel. Qual seria o custo de uma campanha nacional para a reciclagem desse óleo tão usado em cozinhas, empresas e restaurantes? Não só aumentaria a produção de biodiesel de forma barata como também impediria a poluição de nossas reservars de água ao impedir o despejo do óleo em lugares impróprios.

Obrigado!
 
28.06.2007 - 13:19
Votos: +0

helio barbosa tp junior :

viabilidade do biodiesel em relação a ciclos naturais
Estou muito preocupado pois não tenho lido nenhum comentario sobre o que eu vou falar.

Tem-se associado muito o biodiesel com o ciclo do gás carbonico e seus efeitos ecológicos. Otimo , ele , teoricamente diminuiria o efeito estufa. O ciclo da água tambem não há problemas , pois saira no motor se evaporando .O ciclo do nitrogênio podera ser compensado pelo processo industrial , retirando da matéria prima para depois retornar ao meio ambiente caso tenha-se uma política de reciclagem adequada , é claro...
No entanto , não se tem falado nada sobre o ciclo de minerais... .sabe-se que existe um número finito de minerais e oligoelementos no solo , como: sodio , potassio , magnésio manganês, càlcio e outros mais raros como: cobalto,molibdênio, cromo, selênio etc... tambem importantes para o metabolismo humano. Aonde ficará esses elementos?no motor do carro?na fumaça?na indústria ?como voltará ao meio ambiente? Temos que pensar nisso,pois estaremos usando matéria orgânica do solo em escala muito maior do que a usada por organismos vivos...
Proponho um pouco mais de atenção sobre o assunto.
 
4.07.2007 - 14:44
Votos: +0

Telmo Heinen - Formosa - GO :

É evidente...
É evidente que além de degomado, o padrão do óleo tem parâmetros aceitáveis ou não.
Informe-se (http://www.anp.gov.br)
De antemão vou lhe informando que os dois metais mais funestos, presentes nos óleos vegetais, especialmente nos de soja são o I (Iodo) e o P (Fósforo).

 
4.07.2007 - 15:29
Votos: +0

Francisco Carlos da Silva Santos :

Qualidade do biodiesel - Mamona X pinhão manso
Existem comentários que falam que os resíduos resultantes da queima do biodiesel, oriundo da mamona, provocam problema nos motores de veículos e que em função desses problemas a Petrobrás tenha optado em produzir o biodiesel (H-bio) do pinhão manso. Até que ponto esses comentários tem fundamentos?
 
12.07.2007 - 09:05
Votos: +0

Afonso Francener :

biodiesel produzido em propriedades autossustentáveis
Por que no Brasil logo grandes grupos, a própria Petrobrás, querem o monopólio das matrizes energéticas ?
porque não popularizar e tronar viável pequenos projetos para consumo próprio nas propriedades agrícolas, produzindo seu próprio combustivel, ou ainda sua energia elétrica gerada pelo biocombustível???
Onde está o interesse? Nos Impostos q o Governo não abre mão?
Num País em q se fala tanto em reforma agrária- desde 1940- e nada se resolve, para continuar o uso da massa de manobra, o MST, enquanto a pequena propriedade continua inviável, e num modelo globalizado, muito da porteira pra fora e pouco da porteira pra dentro.
Será que o biodiesel não é apenas mais um fiásco para espulsar o homem do campo para dar lugar a grandes empreendimentos de grupos multinacionais?
Isso já acontece coma cana, com a soja e o milho.
Infelizmente o governo se dobra a esses grandes interesses, como os lucros estratosféricos dos Bancos e dos grandes especuladores
 
12.07.2007 - 11:30
Votos: +0

george luiz :

oiticica
poderiamos estudar mais sobre essa oleaginosa, e insentivar essa cultura para o biodiesel
 
20.07.2007 - 22:09
Votos: +0

Higor Koch :

...
Iodo e fósforo não são nem semi-metais...muito menos metais.
 
8.08.2007 - 14:36
Votos: +0

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