


Alexandro Kurovski, de Curitiba
Apesar dos cuidados que são tomados na produção e no transporte, o biodiesel que sai das usinas não está totalmente imune de sofrer algum tipo de contaminação que comprometa sua qualidade antes de chegar às bombas dos postos. Só entre outubro de 2013 e outubro de 2014 foram registradas pela Petrobras 87 cargas problemáticas, das quais 40 acabaram devolvidas aos produtores por não atenderem as especificações mínimas. (Vale ressaltar que essas falhas são naturais do processo de produção e transporte e não estão relacionadas a possíveis fraudes.) Mas esse volume seria muito maior se não fossem pelos esforços da estatal para tornar mais eficiente o processo de checagem e atendimento às reclamações, bem como pelos investimentos feitos por usinas e distribuidoras em controle de qualidade.
Todos esses dados foram revelados na última Conferência BiodieselBR pelo gerente de movimentação de biocombustíveis da Petrobras, Carlos Pelizaro, e jogaram um pouco mais de luz sobre esse bastidor que dá suporte aos trâmites que garantem a qualidade dos milhares de cargas de biodiesel que rodam anualmente pelo país. Por isso, BiodieselBR esmiuçou esse processo e verificou quais têm sido os aprimoramentos implementados ao longo desses últimos anos.
No caso do biodiesel, além do teor de água, destacam-se o aspecto e a contaminação total dentre os principais motivos identificados para problemas de qualidade. Claro que não basta uma parte dizer que há um problema e mandar a outra se virar para resolvê-lo. Para que o sistema de comercialização de biodiesel funcionasse sem grandes sustos, a Petrobras teve que desenhar um processo sofisticado de resolução de conflitos entre usinas e distribuidoras.
Funciona mais ou menos assim: sempre que uma distribuidora suspeita que a carga de biodiesel recebida está fora do padrão, ela pode realizar testes preliminares e comunicar a ocorrência tanto à Petrobras quanto ao fabricante do produto. Quando isso acontece, o caminhão é lacrado e as chamadas amostras-testemunho são analisadas em laboratórios credenciados pela Petrobras para determinar quem, afinal de contas, é o responsável pelo problema e deverá arcar com eventuais despesas.
A bem da verdade, cada carga de biodiesel gera três dessas amostras, duas das quais permanecem com a usina e outra que acompanha o veículo. Em caso de suspeita, é com base nessa última amostra que a distribuidora pode fazer suas análises, sendo que a usina pode usar uma das amostras que ficou com ela para verificar os resultados. A terceira amostra é utilizada a título de contraprova, caso necessário.
Se for mesmo comprovado que o volume de biodiesel está irregular, a Petrobras autoriza a devolução do produto. Até meados de 2014 todo o processo levava cerca de dez dias para ser concluído, mas após a publicação da Resolução ANP 45/2014, com a nova especificação do biodiesel, foi implantado um novo método para simplificar o processo, reduzindo o tempo médio de resposta pela metade. “Em alguns casos conseguimos resolver no mesmo dia”, destaca Pelizaro.
No passado, a Zema sofreu com a morosidade do processo. Em pelo menos um caso, uma carga ficou retida por 15 dias até que o processo de provas e contraprovas seguisse até a última instância e o fabricante do biodiesel finalmente aceitasse a devolução e reembolsasse os custos adicionais, como das diárias do caminhão-tanque que precisou ficar parado. “Tal fato é um direito legítimo das partes e está previsto em contrato, mas trouxe o inconveniente de deixar um veículo e um motorista parados por um período excessivamente longo, causando prejuízo financeiro”, pondera Costa, alertando que poderia ser bem pior – não é incomum que uma carga de biodiesel seja composta por mais de um caminhão-tanque, o que, naturalmente, multiplicaria os custos na eventualidade de uma devolução mais demorada.
Os problemas mais frequentemente identificados no transporte por caminhões estão relacionados ao teor de água na carga. Para evitar tais ocorrências, o mais importante é que todos os envolvidos atuem no sentido de garantir a ausência de água e outros contaminantes antes do carregamento.
O caminhão, nesse caso, é o elo fraco da cadeia e exige cuidados redobrados. A inspeção rigorosa do veículo é um dos fatores críticos para evitar problemas de qualidade no biodiesel transportado, assim como a lavagem e a drenagem total de qualquer produto remanescente da última operação nos tanques. Em setembro do ano passado, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) atualizou a NBR 15.512:2014, que é, hoje, a principal referência sobre cuidados no manuseio e movimentação de biodiesel.
Antes o biocombustível ficava parado em tanques da Petrobras por longos períodos de tempo, o que criava condições ideais para que o produto acabasse deteriorando. Eventualmente, esse volume tinha que retornar às usinas para ser reprocessado. Com a mudança da modalidade de aquisição para opção de compra – na qual o estoque existe apenas na forma de um contrato de gaveta, que só é exercido conforme necessário – a situação melhorou bastante. “Essa medida alterou consideravelmente o ‘perfil da frota’ para melhor atender às necessidades de cada envolvido”, diz Pelizaro explicando que, entre outros inconvenientes, os estoques físicos multiplicavam a necessidade de deslocamentos físicos do mesmo volume de biodiesel – da usina para o estoque e daí para a distribuidora, sem contar eventuais retornos à usina para reprocessamento –, o que aumentava o risco de problemas.
A nova especificação e a padronização de procedimentos em 2014 ajudou até mesmo a diminuir o volume devolvido. A Resolução ANP 45/2014 tornou o processo de devolução de biodiesel mais eficiente na medida em que determinou que uma devolução de produto em virtude de aspecto – um dos critérios mais subjetivos do sistema de qualidade – somente seja efetivada no caso de ensaios adicionais de qualidade apresentarem-se fora dos limites estabelecidos.
Entre outubro de 2013 e outubro de 2014 a Petrobras registrou reclamações sobre a adequação de 87 carregamentos de biodiesel, totalizando pouco mais de 3,8 milhões de litros. Desse montante, quase metade (1,7 milhões de litros) acabou devolvida às usinas. Volume bem mais baixo que o de 2013, quando 2,8 milhões de litros foram rejeitados por não atenderem as especificações.
Diante do volume de biodiesel comercializado no país, o percentual de cargas problemáticas não chega a ser preocupante. O montante analisado entre outubro de 2013 e outubro de 2014 representa 0,12% do total faturado pela Petrobras, e menos da metade resultou em devolução do produto.
Investimentos que usinas e distribuidoras fizeram para a adequação de seus laboratórios, com melhores equipamentos e melhoria dos métodos de controle e análise, também contribuíram para esse avanço. “A realização de ensaios locais pelas distribuidoras permite um diagnóstico mais preciso das causas que impactam na qualidade do produto, permitindo atuar de forma mais objetiva”, explica Pelizaro. Para o executivo da Petrobras, a maior rapidez na divulgação dos resultados é benéfica para todos os envolvidos, na medida em que permite reduzir as ineficiências do processo de controle de qualidade do biodiesel.
A Zema Petróleo acredita que o menor número de devoluções representa tanto uma evolução no controle e mediação de conflitos por parte da Petrobras, como um melhor entendimento e análise do produto por parte das usinas e distribuidoras. “Ao longo destes anos, todo o setor vem se adequando tecnologicamente para atender às exigências de qualidade da ANP”, destaca o assessor de controle e estratégia da distribuidora, Hélio Henrique da Costa.
Mesmo assim, Costa considera que o processo de devolução implantado é bom e funciona. “Entendemos que por se tratar de algo novo é necessário um prazo de maturação.” Para o representante da Zema, o fato de a distribuidora ter efetuado apenas quatro devoluções nos últimos anos é uma prova de que o processo flui bem.
A Petrobras concorda que ajustes são sempre necessários e entende que há espaço para evoluir a partir do aprimoramento coordenado das ações por parte de cada agente de mercado, com destaque especial para a padronização de procedimentos envolvendo as amostras- -testemunho. “Nos últimos anos, verificamos uma melhora sensível no relacionamento entre as partes envolvidas, o que permitiu ao setor evoluir com a implementação de ações de melhoria”, analisa Pelizaro. “Sempre recebemos sugestões dos clientes para melhoria do processo, que são continuamente analisadas”, conclui.
Todos esses dados foram revelados na última Conferência BiodieselBR pelo gerente de movimentação de biocombustíveis da Petrobras, Carlos Pelizaro, e jogaram um pouco mais de luz sobre esse bastidor que dá suporte aos trâmites que garantem a qualidade dos milhares de cargas de biodiesel que rodam anualmente pelo país. Por isso, BiodieselBR esmiuçou esse processo e verificou quais têm sido os aprimoramentos implementados ao longo desses últimos anos.
Processo
O biodiesel representa 7% do óleo diesel ofertado ao consumidor final, o qual também está sujeito a um controle rigoroso de qualidade. A Petrobras, na década de 90, implantou um sistema de garantia da qualidade com o intuito de assegurar que o consumidor final receba um combustível conforme as especificações mínimas exigidas.No caso do biodiesel, além do teor de água, destacam-se o aspecto e a contaminação total dentre os principais motivos identificados para problemas de qualidade. Claro que não basta uma parte dizer que há um problema e mandar a outra se virar para resolvê-lo. Para que o sistema de comercialização de biodiesel funcionasse sem grandes sustos, a Petrobras teve que desenhar um processo sofisticado de resolução de conflitos entre usinas e distribuidoras.
Funciona mais ou menos assim: sempre que uma distribuidora suspeita que a carga de biodiesel recebida está fora do padrão, ela pode realizar testes preliminares e comunicar a ocorrência tanto à Petrobras quanto ao fabricante do produto. Quando isso acontece, o caminhão é lacrado e as chamadas amostras-testemunho são analisadas em laboratórios credenciados pela Petrobras para determinar quem, afinal de contas, é o responsável pelo problema e deverá arcar com eventuais despesas.
Testemunha confiável
Na base desse processo todo estão as chamadas amostras-testemunho, uma pequena quantidade de biodiesel que é colhida pelo próprio motorista do caminhão-tanque no ato do carregamento do produto. Se a coleta for feita como deve, essa amostra pode dirimir dúvidas sobre a responsabilidade pela contaminação do produto. Mas em casos onde seja confirmada sua violação, ela acaba se tornando inútil para efeitos de controle de qualidade.A bem da verdade, cada carga de biodiesel gera três dessas amostras, duas das quais permanecem com a usina e outra que acompanha o veículo. Em caso de suspeita, é com base nessa última amostra que a distribuidora pode fazer suas análises, sendo que a usina pode usar uma das amostras que ficou com ela para verificar os resultados. A terceira amostra é utilizada a título de contraprova, caso necessário.
Se for mesmo comprovado que o volume de biodiesel está irregular, a Petrobras autoriza a devolução do produto. Até meados de 2014 todo o processo levava cerca de dez dias para ser concluído, mas após a publicação da Resolução ANP 45/2014, com a nova especificação do biodiesel, foi implantado um novo método para simplificar o processo, reduzindo o tempo médio de resposta pela metade. “Em alguns casos conseguimos resolver no mesmo dia”, destaca Pelizaro.
Melhora
A melhora no processo é confirmada pelos distribuidores. O assessor de controle e estratégia da Zema Petróleo, Hélio Henrique da Costa, relata que após a implantação do novo método com um formulário único e padronizado, a resposta às reclamações realmente ficou mais ágil. “Acreditamos que o trabalho está bem direcionado, uma vez que a Petrobras, desde a oferta de estoques até o próprio leilão, vem se aprimorando constantemente”, elogia.No passado, a Zema sofreu com a morosidade do processo. Em pelo menos um caso, uma carga ficou retida por 15 dias até que o processo de provas e contraprovas seguisse até a última instância e o fabricante do biodiesel finalmente aceitasse a devolução e reembolsasse os custos adicionais, como das diárias do caminhão-tanque que precisou ficar parado. “Tal fato é um direito legítimo das partes e está previsto em contrato, mas trouxe o inconveniente de deixar um veículo e um motorista parados por um período excessivamente longo, causando prejuízo financeiro”, pondera Costa, alertando que poderia ser bem pior – não é incomum que uma carga de biodiesel seja composta por mais de um caminhão-tanque, o que, naturalmente, multiplicaria os custos na eventualidade de uma devolução mais demorada.
Os problemas mais frequentemente identificados no transporte por caminhões estão relacionados ao teor de água na carga. Para evitar tais ocorrências, o mais importante é que todos os envolvidos atuem no sentido de garantir a ausência de água e outros contaminantes antes do carregamento.
O caminhão, nesse caso, é o elo fraco da cadeia e exige cuidados redobrados. A inspeção rigorosa do veículo é um dos fatores críticos para evitar problemas de qualidade no biodiesel transportado, assim como a lavagem e a drenagem total de qualquer produto remanescente da última operação nos tanques. Em setembro do ano passado, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) atualizou a NBR 15.512:2014, que é, hoje, a principal referência sobre cuidados no manuseio e movimentação de biodiesel.
Evolução
O fim dos estoques reguladores de biodiesel em formato físico – que chegaram a manter 112 milhões de litros de prontidão – no início de 2013 foi outra das medidas que contribuíram significativamente para a redução do número de devoluções.Antes o biocombustível ficava parado em tanques da Petrobras por longos períodos de tempo, o que criava condições ideais para que o produto acabasse deteriorando. Eventualmente, esse volume tinha que retornar às usinas para ser reprocessado. Com a mudança da modalidade de aquisição para opção de compra – na qual o estoque existe apenas na forma de um contrato de gaveta, que só é exercido conforme necessário – a situação melhorou bastante. “Essa medida alterou consideravelmente o ‘perfil da frota’ para melhor atender às necessidades de cada envolvido”, diz Pelizaro explicando que, entre outros inconvenientes, os estoques físicos multiplicavam a necessidade de deslocamentos físicos do mesmo volume de biodiesel – da usina para o estoque e daí para a distribuidora, sem contar eventuais retornos à usina para reprocessamento –, o que aumentava o risco de problemas.
A nova especificação e a padronização de procedimentos em 2014 ajudou até mesmo a diminuir o volume devolvido. A Resolução ANP 45/2014 tornou o processo de devolução de biodiesel mais eficiente na medida em que determinou que uma devolução de produto em virtude de aspecto – um dos critérios mais subjetivos do sistema de qualidade – somente seja efetivada no caso de ensaios adicionais de qualidade apresentarem-se fora dos limites estabelecidos.
Entre outubro de 2013 e outubro de 2014 a Petrobras registrou reclamações sobre a adequação de 87 carregamentos de biodiesel, totalizando pouco mais de 3,8 milhões de litros. Desse montante, quase metade (1,7 milhões de litros) acabou devolvida às usinas. Volume bem mais baixo que o de 2013, quando 2,8 milhões de litros foram rejeitados por não atenderem as especificações.
Diante do volume de biodiesel comercializado no país, o percentual de cargas problemáticas não chega a ser preocupante. O montante analisado entre outubro de 2013 e outubro de 2014 representa 0,12% do total faturado pela Petrobras, e menos da metade resultou em devolução do produto.
Investimentos que usinas e distribuidoras fizeram para a adequação de seus laboratórios, com melhores equipamentos e melhoria dos métodos de controle e análise, também contribuíram para esse avanço. “A realização de ensaios locais pelas distribuidoras permite um diagnóstico mais preciso das causas que impactam na qualidade do produto, permitindo atuar de forma mais objetiva”, explica Pelizaro. Para o executivo da Petrobras, a maior rapidez na divulgação dos resultados é benéfica para todos os envolvidos, na medida em que permite reduzir as ineficiências do processo de controle de qualidade do biodiesel.
A Zema Petróleo acredita que o menor número de devoluções representa tanto uma evolução no controle e mediação de conflitos por parte da Petrobras, como um melhor entendimento e análise do produto por parte das usinas e distribuidoras. “Ao longo destes anos, todo o setor vem se adequando tecnologicamente para atender às exigências de qualidade da ANP”, destaca o assessor de controle e estratégia da distribuidora, Hélio Henrique da Costa.
Futuro
Embora não tenham reclamações sobre o atual sistema, as distribuidoras reconhecem que ainda há pontos que podem ser aprimorados. Uma das principais dificuldades é a necessidade de emitir notas fiscais para a devolução. “O prazo de pagamento da Petrobras é curto e o processo para fazer a devolução, demorado”, critica Costa. As distribuidoras acabam tendo que recolher os impostos sobre a nota emitida, que acaba ficando como um crédito a ser restituído.Mesmo assim, Costa considera que o processo de devolução implantado é bom e funciona. “Entendemos que por se tratar de algo novo é necessário um prazo de maturação.” Para o representante da Zema, o fato de a distribuidora ter efetuado apenas quatro devoluções nos últimos anos é uma prova de que o processo flui bem.
A Petrobras concorda que ajustes são sempre necessários e entende que há espaço para evoluir a partir do aprimoramento coordenado das ações por parte de cada agente de mercado, com destaque especial para a padronização de procedimentos envolvendo as amostras- -testemunho. “Nos últimos anos, verificamos uma melhora sensível no relacionamento entre as partes envolvidas, o que permitiu ao setor evoluir com a implementação de ações de melhoria”, analisa Pelizaro. “Sempre recebemos sugestões dos clientes para melhoria do processo, que são continuamente analisadas”, conclui.