


Fábio Rodrigues, de São Paulo
Por essa, ninguém esperava: depois de vários anos de preços acima da marca dos US$ 100 o barril, as cotações do petróleo derreteram. No final de janeiro, todas as principais referências do mercado – WTI, Dubai e Brent – haviam convergido para inacreditáveis US$ 45. A última vez que os preços estiveram tão baixos foi entre maio de 2008 e março de 2009 – fase aguda da crise financeira global deflagrada pela bancarrota do mercado imobiliário nos Estados Unidos. Antes disso, os preços só estiveram tão baixos por volta do final de 2004.
Esta é a primeira vez, desde que o petróleo iniciou sua lenta escalada de preços por volta dos anos 2000, que vemos uma baixa tão expressiva sem que haja um evento global que a justifique.
Os preços já vinham em queda livre desde, mais ou menos, meados do ano passado [veja infográfico]. Na última semana de junho, o barril do petróleo Brent estava sendo negociado a US$ 113,10, enquanto na última semana de janeiro o preço era de US$ 46,75 – a desvalorização acumulada em um semestre foi pouco menor que 60%.
No fundo, o que está acontecendo – segundo as fontes ouvidas por esta reportagem – é que não estamos mais dando conta de consumir todo o petróleo que estamos produzindo. “Vivemos um momento de superoferta em que estamos com muito petróleo no mercado e não temos tido a demanda necessária”, explica a diretora acadêmica do Center for Global Affairs na Universidade de Nova York (UNY), Carolyn Kissane.
Some a isso uma economia global que vem engasgando ao longo dos últimos meses e está dado o cenário perfeito para que haja uma queda consistente nos preços. “Temos tido alguns resultados ruins na Europa e uma desaceleração do crescimento na economia chinesa, que hoje é o grande agregador de demanda”, resume Walter de Vitto, que acompanha as idas e vindas do mercado há sete anos pela consultoria Tendências.
Fator Opep
Contudo, o que realmente jogou – ainda mais – gasolina nesse fogo foi a controversa decisão tomada pela Organização do Países Exportadores de Petróleo (Opep) em novembro passado de manter os níveis de produção de petróleo – atualmente em 30 milhões de barris por dia. Foi o empurrão que faltava.
A decisão pegou muita gente de surpresa. “As pessoas consideram a Opep como um cartel que ‘faz o mercado’. Se o preço está baixo, eles cortam a produção; se está alto, aumentam a produção. A decisão de novembro é, de certa forma, uma anomalia”, opina Carolyn.
O que deixou muita gente atônita é o fato de que a Opep é comandada por gente notoriamente avessa a perder dinheiro. Além do que, pelo menos dois membros do cartel, a Venezuela e o Irã, vêm enfrentando dificuldades econômicas que poderiam ser amenizadas com o petróleo mais caro. Por isso, mais de um analista viu indícios de que o organismo poderia estar exercendo sua musculatura para colher resultados um pouco mais adiante.
“Se você controla o mercado, você pode usar esse artifício de baixar o preço para quebrar a concorrência”, opina o engenheiro químico Maurício Jaroski, que atua como líder da área de química sustentável e energia da MaxiQuim.
Freada forçada
O que os sauditas e seus parceiros na Opep parecem estar querendo é colocar um freio num processo que vem rearrumando radicalmente as peças do tabuleiro do mercado global do petróleo. E o que vem alimentando essa mudança são, precisamente, os preços elevados do produto.
Em 10 de dezembro de 1998 a era do petróleo barato chegou a seu fim. Foi naquele dia que o barril do tipo Brent foi negociado a US$ 9,10 (o menor preço registrado no histórico que a Administração de Informação em Energia dos Estados Unidos mantém desde janeiro de 1986). De lá para cá os preços só fizeram subir [veja infográfico]. Mesmo a crise global de 2008 não passou de um solavanco. Em dezembro daquele mesmo ano as cotações já estavam dando sinais de recuperação e, pouco mais de um ano depois, voltavam à marca dos US$ 100 por barril.
Encorajadas, as petroleiras aproveitaram a temporada de vacas gordas para embarcar numa onda de investimentos que levou as reservas mundiais a saltarem 61% desde o começo do milênio. Se não encontrarmos mais uma única gota de petróleo, as reservas que temos hoje bastam para sustentar os níveis atuais de produção por quase 50 anos. No ano 2000, as reservas davam para menos de 37 anos.
Boa parte dessa nova fronteira está nas chamadas fontes não convencionais – um grupo de reser-vas difíceis de explorar que, grosso modo, agrega óleos extrapesados, areias betuminosas, campos em águas ultraprofundas e outros similares [leia mais sobre o assunto na reportagem “Futuro do pretérito”, publicada na edição 36 de BiodieselBR]. “Quando o preço [do barril] subiu, viabilizou projetos de [petróleo] não convencional. Esses projetos vêm maturando”, opina o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires.
A transformação mais significativa nessa leva, certamente, é a que está acontecendo nos Estados Unidos. O país é o maior consumidor individual de petróleo, absorvendo quase 21% da produção. Acontece que, desde 2013, ele também é o maior produtor, com um share de 13,6% – ultrapassando a Arábia Saudita, que tem 12,9%.
Não quer dizer que os EUA tenham deixado de importar. Longe disso. Para fazer frente às necessidades, o país ainda tem que trazer de fora 6,6 milhões de barris por dia, o que faz dele o maior importador do globo. Mesmo assim, isso já representa uma queda superior a 30% em relação ao volume importado há cinco anos.
Fundação frágil
O grande porém está no fato de esta ser uma revolução com pés de barro. A exploração de boa parte dessas novas fontes sai muito mais caro que a de campos convencionais. Derrubar os preços do barril, portanto, pode obrigar muitas empresas a engavetar novos projetos.
Já há indícios de que isso esteja acontecendo. Walter de Vitto aponta que nos Estados Unidos houve uma redução de 12% na quantidade de novos poços perfurados entre a última semana de outubro e a segunda semana de janeiro. “No curto prazo, o efeito não é tão intenso porque os investimentos já estão sendo feitos. Tem um delay entre achar o petróleo e começar a produção. Olhando para o médio prazo, temos um desincentivo para que a expansão continue”, avalia. Não quer dizer que o mercado secará de uma hora para outra. Na opinião do entrevistado, teremos um mercado “relativamente folgado” ainda por mais alguns anos.
Nenhum dos entrevistados desta reportagem acredita que o barril a US$ 40 tenha vindo para ficar. Na média, eles esperam que os preços voltem a apontar para cima a partir dos próximos meses, com uma retomada mais pronunciada a partir do segundo semestre. “Na minha opinião, os preços atuais não correspondem ao balanço entre oferta e demanda. Acho que algo entre US$ 65 e US$ 70 [o barril] refletiria melhor os custos de produção do mercado”, estima a professora da UNY.
“A retomada deve ser lenta. No meu ‘achômetro’, [o barril] deve chegar, no final, a por volta dos US$ 60, podendo chegar até a US$ 70”, concorda Maurício.
Apesar disso, entre os entrevistados há quem diga que dificilmente voltaremos aos níveis anteriores. “Petróleo a US$ 100, nunca mais”, opina Adriano Pires, do CBIE, que acredita que o mundo esteja caminhando para uma matriz energética mais “eclética” com um mix de fontes menos concentrado numa única opção. “Há a perspectiva de uma mudança no perfil. Quando a economia do mundo voltar a crescer mais forte, vai ser em indústrias menos intensivas em petróleo. A indústria automotiva está deixando de ser a locomotiva do crescimento para assumir uma postura defensiva como a que a indústria do fumo tem hoje em dia. Há uma tendência do petróleo perder importância relativa”, pondera.
Carolyn Kissane é mais conservadora a esse respeito, mas mesmo ela concorda que seria preciso algo “realmente dramático” para que os preços voltassem aos níveis anteriores. “Se mantivermos o status quo, será difícil um aumento grande no preço do petróleo. Mas pode ser que aconteça algo que realmente afeta a situação geopolítica como, digamos, um ataque militar que afete uma região produtora importante. Nesse caso, veríamos as cotações dispararem”, especula.
Biocombustíveis
Embora não sejam o alvo principal nesse tiroteio, os biocombustíveis decididamente foram pegos no fogo cruzado. “A queda [do petróleo] vai colocar pressão sobre todos os programas de energias renováveis”, concorda a presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina.
Aqui no Brasil, o impacto para o setor de biocombustíveis será amenizado pela política da Petrobras de absorver variações bruscas no preço do petróleo, impedindo que elas cheguem imediatamente às bombas. Embora nos últimos anos esse balanço tenha prejudicado os biocombustíveis porque deixou os derivados mais baratos no Brasil, agora a situação se inverte. “Ainda não sentimos a queda [dos preços] no mercado internacional porque não tivemos mudança no preço dos derivados nas refinarias”, reconhece Elizabeth.
Não é que estejamos blindados, mas o tamanho do estrago vai depender de quanto tempo a estatal conseguir segurar a pressão. “Como o governo brasileiro está segurando os preços de energia aqui, os biocombustíveis podem se sair bem, mas não sei quanto tempo a gente resiste caminhar na contramão”, afirma Adriano Pires, acrescentando que, mesmo assim, há efeitos adversos. “Os investidores sabem que temos uma situação que não poderá ser mantida, e isso cria insegurança”, critica.
Mesmo que a Petrobras segure os preços internos por muito tempo ainda, pode ser que o golpe venha de outro lado. Segundo Farina, os preços mais atraentes no mercado brasileiro podem se tornar um chamariz para fabricantes de outras partes do mundo. Para a presidente da Unica, a concorrência com o etanol de milho dos EUA já é uma preocupação.
No caso do biodiesel, a ameaça é menos imediata. Como até hoje não há registro de importação de biodiesel para o Brasil e as exportações das usinas brasileiras são relativamente pequenas – no ano passado foram apenas 40 milhões de litros –, o preço do petróleo só se torna um fator relevante no caso de novosaumentos da mistura obrigatória. E depois da adoção do B7, no ano passado, isso não deve vir tão cedo.
É o que reconhece o assessor econômico da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Leonardo Zilio. “O mercado doméstico de biodiesel é um mercado compulsório, sem que existam impactos diretos dos preços internacionais do petróleo ou diesel em seu funcionamento”, afirma.
Esse aspecto compulsório da mistura de biodiesel também é ressaltado pelo Ministério de Minas e Energia (MME). “O Programa de biodiesel não deve ser pensado olhando para os preços de momento dos combustíveis concorrentes. (...) A adoção de programas de combustíveis renováveis está muito mais associada a uma decisão política de governo do que aos preços conjunturais dos produtos”, tranquiliza o ministério em nota encaminhada a esta reportagem.
Além disso, pensar apenas no preço perpetua um vício mental que vem nos levando à beira do abismo ambiental por conta das mudanças climáticas, causadas justamente pelo consumo desenfreado de combustíveis fósseis. “O mundo precisa de todo tipo de energia que possa ser gerada, mas sobretudo daquelas mais amigas do meio ambiente e da saúde humana. Para tanto, o custo tem de deixar de ser o principal parâmetro de comparação”, arremata o diretor superintendente da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio), Júlio Cesar Minelli.
Quem é a Opep?
Formada em setembro de 1960, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo conta, atualmente, com 12 membros: Argélia, Angola, Equador, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Qatar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Venezuela.
Juntos, eles são donos de praticamente 73% das reservas comprovadas de petróleo do planeta e, pelos últimos 10 anos, produziram uma média de 41% do petróleo consumido pelo planeta. Cerca de um terço desse volume é produzido pela Arábia Saudita, o que faz dela a voz mais importante dentro do grupo.
Com tanto poder de fogo nas mãos e um histórico de exercê-lo de forma até brutal – que o digam os dois choques do petróleo dos anos 1970 –, o mundo leva a sério as decisões do grupo.
