BiodieselBR
Publicidade

Resultados da PBio pioram com o tempo

UsinaMontesClaros AgênciaPetrobras-2Com resultados negativos recorrentes e crescentes, balanços da Petrobras Biocombustível exemplificam as dificuldades do segmento
Edição de Abr 2013 / Mai 2013 9 min de leitura
UsinaMontesClaros AgênciaPetrobras-2Com resultados negativos recorrentes e crescentes, balanços da Petrobras Biocombustível exemplificam as dificuldades do segmento

UsinaMontesClaros AgênciaPetrobras-2Com resultados negativos recorrentes e crescentes, balanços da Petrobras Biocombustível exemplificam as dificuldades do segmento

Maria Fernanda Takahashi, Curitiba

Criada em 2008, a Petrobras Biocombustível (PBio) surgiu para que a gigante verde- amarela do petróleo pudesse colocar um pé no mercado de combustíveis renováveis. Com o propósito de gerir os projetos para o segmento e de desenvolver tecnologias para os dois principais biocombustíveis do país, o etanol e o biodiesel, a PBio recebeu investimentos vultuosos de sua controladora. No entanto, ano após ano a subsidiária vem contabilizando resultados negativos.

O que realmente sobressalta é a progressão em que a PBio vem perdendo dinheiro. Em 2012 foram R$ 218 milhões, contra R$ 157 milhões em 2011, um aumento de 38% em somente um ano. Não é tudo: os prejuízos da PBio foram crescentes a cada ano de existência [veja tabela]. Somando tudo, as perdas chegam a astronômicos R$ 467 milhões.

Os resultados negativos estão na contramão do que o primeiro presidente da PBio, Alan Kardec Pinto, afirmou em entrevista à revista Dinheiro Rural em outubro de 2008. “A busca da rentabilidade e sustentabilidade do negócio está presente em todos os projetos da Petrobras e não é diferente no caso dos biocombustíveis. A Petrobras Biocombustível nasce com a premissa de buscar continuamente a otimização e melhoria dos seus processos operacionais e administrativos, seja por meio da inovação tecnológica, seja do modelo de gestão do negócio, visando rentabilidade, produtividade, confiabilidade, com segurança, saúde e respeito ao meio ambiente”, afirmou na época. A reportagem de BiodieselBR procurou Kardec, o qual optou por não comentar os resultados mais recentes da empresa que liderou até maio de 2009 – quando foi substituído no cargo por Miguel Rossetto.

Etanol x Biodiesel

Apesar de trabalhar com o setor de biocombustíveis como um todo e englobar todos os investimentos em uma mesma categoria em seus balanços, a atuação da PBio com etanol e biodiesel são vistas de formas distintas.

A empresa opera três fábricas próprias (nos estados da Bahia, Ceará e Minas Gerais) e é sócia da BSBios em outras duas (no Paraná e no Rio Grande do Sul). Somadas, essas cinco unidades produtivas podem fabricar 765 milhões de litros de biodiesel por ano, o que coloca a companhia em segundo lugar no ranking nacional de produtores (atrás da Granol). Considerando as vendas feitas pelas usinas da BSBios, a PBio é também a maior fornecedora de biodiesel no país. Nos quatro leilões que garantiram o suprimento do mercado em 2012, o grupo arrematou mais de 550 milhões de litros.

Paralelamente, a PBio está entre as maiores produtoras de etanol, com participação em dez usinas, localizadas nos estados de Goiás, Minas Gerais e São Paulo, além de uma na África, com capacidade total de produção de 1,3 bilhão de litros de etanol ao ano.

A distinção que a PBio faz entre etanol e biodiesel é reflexo do momento vivido por esses biocombustíveis, o que explica as diferenças de produção e investimentos por parte da Petrobras. Enquanto o antigo álcool é consumido em larga escala no mercado nacional e, apesar de sofrer interferência das variações de preço da gasolina, consegue ter um mercado praticamente livre, o biodiesel ainda é vendido com intervenção da ANP, por meio de leilões. O seu consumo, além disso, está relacionado ao uso do diesel tradicional, em razão da mistura B5 exigida por lei. Existem algumas iniciativas com veículos movidos com porcentagens maiores de biocombustível, especialmente no transporte pú-blico, mas elas ainda são raridade.

“Etanol e biodiesel possuem mercados com tamanhos e maturações diferentes e, consequentemente, investimentos diferentes”, explicou a assessoria de imprensa da PBio por e-mail. Os últimos balanços da PBio mostram a realidade da empresa. Os investimentos destinados ao segmento de biocombustíveis (etanol e biodiesel) caíram 41% entre 2011 e 2012, de R$ 503 milhões para R$ 299 milhões, e a diferença é ainda maior para o ano de 2010, quando foram destinados R$ 1,2 bilhão para o setor.

Desse total de investimentos em 2012, 71%, que correspondem a R$ 212,5 milhões, foram reservados ao etanol. O montante foi destinado à Guarani, que detém sete unidades em São Paulo e uma em Moçambique, na África, para aumentar a capacidade de processamento de cana-de-açúcar e, consequentemente, a produção de etanol, com a pretensão de cogerar energia até 2015. Outros investimentos foram feitos na Total Agroindústria Canavieira, responsável por uma usina de etanol em Minas Gerais, com a intenção de ampliar a capacidade de produção, e na Nova Fronteira Bioenergia, visando ao crescimento da produção de etanol pela ampliação da capacidade de moagem na região Centro-Oeste do país para os próximos três anos.

Os demais 29% destinados ao biodiesel foram investidos principalmente no desenvolvimento de dois projetos focados no uso de óleo de palma (dendê) como matéria-prima, aumentando a capacidade de produção dessa fonte. Ambos estão sendo tocados no estado do Pará. Um deles tem a finalidade de atender o mercado da região Norte do Brasil, enquanto o outro pretende se concentrar no potencial de exportação para o mercado europeu – esse segundo projeto conta com o envolvimento da portuguesa Galp.

Retorno

Mesmo com investimentos tão elevados, o retorno está longe do esperado pela PBio. Segundo o Relatório de Atividades 2012 da Petrobras, um dos principais motivos para as perdas da subsidiária decorre do mau momento do mercado de etanol. “O segmento de etanol foi afetado por adversidades climáticas que reduziram a qualidade da safra, diminuindo a produtividade e provocando uma redução do teor de açúcar na cana. Isso ocasionou um aumento no custo de produção que, associado a preços finais abaixo da expectativa, reduziu as margens”, explicou a assessoria de imprensa da empresa.

Embora os Relatórios de Atividades da Petrobras não detalhem os resultados de etanol e biodiesel, os documentos de 2011 e 2012 reafirmam que o primeiro tem contribuído mais para os maus resultados da empresa. “As mudanças nas regras dos leilões, ocorridas no último trimestre de 2011, contribuíram para atenuar as perdas nas operações com biodiesel. Entretanto, estes efeitos foram superados pela redução nos resultados com participações em investidas do setor de etanol, além do aumento das despesas com pesquisa e desenvolvimento”, afirma o relatório de 2012, complementando o esclarecimento da assessoria de imprensa.Apesar de questionada, a PBio não explicou os motivos para o crescimento dos gastos com pesquisa e desenvolvimento.

O etanol já havia aparecido como vilão no Relatório de Atividades 2011. “A lucratividade do setor de etanol não foi suficiente para suportar os resultados do setor de biodiesel, cujas margens foram pressionadas por preços de venda desfavoráveis, em função do alto grau de competição, além dos custos de aquisição e transporte de matéria- -prima e despesas operacionais”, afirma o documento que detalhou as ações da Petrobras em 2011.

O presidente do Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis (Ceise- -BR), Antonio Eduardo Tonielo Filho, concorda que o momento do etanol é delicado, mas acredita no início de um período de recuperação com a nova safra. “O governo federal está empenhado em criar medidas para aumentar os investimentos no setor sucroenergético, como o recente aumento do preço da gasolina, e em breve deverá anunciar mais um conjunto de medidas que beneficiarão o setor”, diz. A expectativa é de que a safra cresça 10% em produtividade, elevando o rendimento para a safra seguinte e, assim, sucessivamente.

infografico

Perdas e ganhos

Se por um lado a produção de etanol, que girou em torno de 822 milhões de litros em 2012, oscila e não tem rendido bons frutos para a Petrobras Biocombustível, por outro os aportes em biodiesel, mesmo mais modestos, superaram as expectativas.

A produção nos últimos anos apresentou constante crescimento, passando de 363 milhões em 2011 para 421 milhões de litros em 2012 (somando a produção das três usinas da PBio com os 50% da BSBios), melhor resultado do setor. Conforme a própria empresa declarou pormeio de sua assessoria de imprensa, o prognóstico para 2013 é otimista, com perspectivas de crescimento na produção da ordem de 33% este ano.

Mesmo com períodos tão instáveis, Tonielo Filho defende que a situação do etanol possa ser revertida, sobretudo com apoio do governo na área tributária. “O PIS e a Cofins devem ser praticamente zerados, e a alíquota de 2,75% de contribuição previdenciária sobre o faturamento que a maior parte das usinas recolhe deve cair para 1%. A renúncia fiscal total será próxima de R$ 3,5 bilhões por ano”, confia. Entretanto, o presidente da Ceise-BR acredita que ainda há muito a ser feito para que o setor sucroenergético volte a prosperar e alcance seu antigo status.

Valorização? Em seu surgimento, a PBio era vista como certeza de lucros pelo fato de os biocombustíveis serem apontados como tendo um futuro promissor. No entanto, mesmo com um leve aumento na destinação de recursos, o setor não está entre as principais apostas de mercado da companhia. Na comparação entre os planos de negócios 2008–2012 e 2012–2016, houve aumento tímido dos investimentos para o segmento.

No primeiro documento, que mantinha a premissa de atuar na comercialização e logística de biocombustíveis, liderando a produção brasileira de biodiesel e ampliando os negócios em etanol, a previsão era para se investir US$ 1,5 bilhão dos mais de US$ 112 bilhões previstos pela empresa no período, totalizando aproximadamente 1,3% dos recursos. Para os quatro anos seguintes, a verba para o setor de biocombustíveis ficou em 1,6% do total destinado a todos os segmentos, que soma US$ 236 bilhões.

Os números do Plano de Negócios 2012–2016 da Petrobras mostram que a empresa investirá US$ 3,8 bilhões no segmento de biocombustíveis durante o período. A companhia, por meio da PBio, vai empregar US$ 690 milhões na produção de biodiesel e suprimento agrícola e US$ 1,84 bilhão em produção de etanol até 2016. Para Tonielo Filho, a estatal tem demonstrado grande interesse no setor sucroenergético. “Seus esforços vão de encontro à necessidade de aumentar a oferta de etanol nos postos brasileiros e internacionais. Com esse investimento, as usinas terão aporte para enviar novos pedidos à indústria de base que lhes fornece máquinas, equipamentos e tecnologia”, acredita. Só para o ano de 2013, a previsão de investimento em biocombustíveis é de R$ 1,3 bilhão.

Ou seja, mesmo sem resultados para mostrar e com um pouco menos de entusiasmo do que em anos anteriores, a Petrobras deve continuar colocando dinheiro no negócio de biocombustíveis. A grande dúvida é saber até quando.
Compartilhar:

Artigos relacionados