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A composição química do biodiesel e seu desempenho a frio

O biodiesel, como qualquer outro combustível líquido, pode sofrer solidificação.
Paulo Suarez 4 min de leitura
O biodiesel, como qualquer outro combustível líquido, pode sofrer solidificação. Ou seja, assim como todo líquido, se abaixarmos a temperatura o suficiente para chegar ao seu ponto (ou temperatura) de cristalização ou solidificação, ele se torna sólido. Logo, se usarmos um biodiesel que possui um ponto de solidificação mais alto que a temperatura ambiente, ele irá se tornar sólido, ou parcialmente sólido, comprometendo a sua fluidez no motor. Dependendo da região do país e da matéria-prima usada, podemos ter sérios riscos de o biodiesel acabar solidificando no interior do tanque, mangueiras, injetores etc. Em países de clima extremamente frio, este é um assunto altamente relevante. No nosso país, ele é menos dramático devido às temperaturas se situarem na maioria das regiões acima do ponto de solidificação do biodiesel obtido das matérias-primas usuais. No entanto, nas regiões Sul e Sudeste pode haver problemas dessa natureza, principalmente se usarmos como matéria-prima sebo de boi ou azeite de dendê. Por essa razão, as normas para combustíveis líquidos usualmente regulam esta propriedade. Os parâmetros utilizados usualmente são o “Ponto de Entupimento de Filtro a Frio” ou o “Ponto de Névoa”. O primeiro pode ser definido como a temperatura na qual será verificada a solidificação parcial do combustível suficiente para entupir um filtro com características especificadas; o segundo é a temperatura na qual ocorre a turvação do líquido que originalmente era translúcido.

No Brasil, a resolução ANP no 7 de 19/03/08, que trata do B100, não traz nenhum parâmetro relacionado com o ponto de solidificação do biodiesel. No entanto, a resolução ANP no 15 de 17/07/06, que trata do diesel e das misturas diesel/biodiesel especificam o ponto de entupimento de filtro a frio. Deve-se destacar que o valor máximo para este parâmetro depende da região e da época do ano, o que, obviamente, foi especificado considerando-se a média de temperaturas históricas verificadas em cada local de uso e comercialização. Note-se que nos Estados das regiões Norte e Nordeste esse parâmetro não é especificado, uma vez que as temperaturas verificadas nesses locais se situam acima das usuais para as blendas de óleo diesel/biodiesel.

Mas será que todo biodiesel possui a mesma variação de fluidez em função da temperatura? Obviamente que não. Dependendo da matéria-prima utilizada, podemos ter variações de várias dezenas de graus Celsius. Este efeito é o mesmo que se verifica nos óleos e gorduras. Por exemplo, os óleos de girassol ou de soja são líquidos à temperatura ambiente (25°C), enquanto que o sebo de boi ou o azeite de dendê se apresentam sólidos ou parcialmente solidificados nessa mesma condição. Aliás, conforme a resolução Anvisa - RDC nº 270, de 22/09/2005, essa é justamente a diferença entre um óleo e uma gordura: o seu estado físico na temperatura ambiente. Ao se processar essas quatro matérias-primas, iremos verificar também uma diferença muito grande nas temperaturas de solidificação do biodiesel obtido.

Para entender o porquê da diferença no comportamento, deve-se considerar a composição química das quatro matérias-primas desse exemplo. As quatro possuem composição bastante usual, contendo essencialmente os ácidos graxos saturados palmítico e esteárico e os ácidos graxos insaturados oléico e linoléico. No entanto, nos óleos de soja e girassol os ácidos graxos insaturados são majoritários, enquanto que nas gorduras de dendê e de boi os saturados são predominantes. Ou seja, o ponto de solidificação, seja do biodiesel ou do óleo ou gordura, está diretamente relacionado com a presença de insaturações (ligações duplas entre os carbonos da cadeia do ácido graxo).

Para entender melhor esse comportamento, pode-se comparar as cadeias de ácidos graxos que compõem o biodiesel ou os óleos e gorduras com correntes, imaginando que cada elo seja um átomo de carbono. Cadeias saturadas, sem ligações duplas, são exatamente como correntes, com os seus elos presos entre si, mas com o movimento totalmente livre. Assim, elas podem adquirir qualquer conformação, podendo facilmente ficar esticadas e alinhadas com outras cadeias, o que é necessário para que ocorra a solidificação. Já a presença de uma insaturação ou ligação dupla numa cadeia pode ser visualizada como uma corrente que possui no meio dela quatro dos seus elos soldados e sem movimento, formando um “U”, de tal forma que a mesma possua uma curvatura rígida como se fosse um calombo. Este calombo rígido irá dificultar que as cadeias se aproximem e se alinhem, dificultando, assim, a solidificação.

Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.
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