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Matérias-primas com alta acidez

É reconhecido que a principal vantagem dos processos heterogêneos frente aos alcalinos homogêneos tradicionais é a tolerância desses catalisadores à presença de ácidos graxos livres e água, o que permite a transesterificação de óleos brutos. Além disso, não há formação de sabões, facilitando a separação dos produtos e melhorando a pureza tanto do biodiesel quanto da glicerina.
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A possível contribuição da catálise heterogênea, ou seja, o uso de catalisadores sólidos no processo de biodiesel por transesterificação de óleos, tem sido largamente discutida por técnicos e pesquisadores que trabalham em biocombustíveis, sendo inclusive tratada na edição anterior desta coluna. É reconhecido que a principal vantagem dos processos heterogêneos frente aos alcalinos homogêneos tradicionais é a tolerância desses catalisadores à presença de ácidos graxos livres e água, o que permite a transesterificação de óleos brutos. Além disso, não há formação de sabões, facilitando a separação dos produtos e melhorando a pureza tanto do biodiesel quanto da glicerina.

Mas o que se deve fazer no caso de matérias-primas extremamente ácidas, caso de palmeiras como a macaúba, que chegam a apresentar até 60% de ácido graxo livre no seu óleo? Os ácidos graxos podem ser transformados em biodiesel pelo processo de esterificação utilizando catalisadores ácidos, como o ácido sulfúrico e óxidos de metais como alumínio e estanho. No entanto, as condições reacionais são bem diferentes entre os processos de esterificação e transesterificação. Por exemplo, enquanto a transesterificação alcalina tradicional ocorre à temperatura ambiente e a heterogênea um pouco acima (60 a 80°C), a esterificação com ácido sulfúrico somente é verificada em temperaturas acima de 130°C e com óxidos metálicos em condições mais drásticas ainda, usualmente acima de 180°C.

Um dos primeiros processos a serem desenvolvidos para matérias- primas ácidas foi criado pela Colgate-Palmolive nos Estados Unidos. Para produzir ésteres de ácidos graxos (biodiesel) a partir de óleo de peixe, que possui teores de acidez acima de 5%, foi proposto um processo de esterificação com ácido sulfúrico seguido de transesterificação com soda cáustica. Assim, os ácidos graxos eram transformados em ésteres por esterificação, a mistura era purificada para retirar o ácido sulfúrico residual e a água formada no processo, e o óleo contendo já um percentual de biodiesel era submetido à transesterificação.

Mais recentemente a Agropalma, associada à UFRJ, desenvolveu um processo para produzir biodiesel a partir de um resíduo da neutralização do óleo de dendê, constituído de aproximadamente 80% de ácidos graxos e 20% de óleo de dendê. Utilizando um catalisador ácido, os ácidos graxos são transformados em biodiesel em até cinco etapas sucessivas de esterificação e posteriormente separados do óleo residual por destilação, chegando-se a um biocombustível de alta qualidade.

Muitos grupos de pesquisa estão hoje tentando desenvolver um processo para hidroesterificação. Nesse processo, uma matériaprima como a macaúba ou a borra ácida oriunda da neutralização do dendê é inicialmente hidrolisada (reação que ocorre a altas temperaturas do óleo com água na presença de um catalisador), transformando todo o óleo existente em ácidos graxos e glicerina de alta pureza. Dessa forma, após separar a glicerina, obtêm-se ácidos graxos com alta pureza, que podem ser esterificados para formar biodiesel.

Não cabe a menor dúvida de que o futuro do biodiesel passa pelo aproveitamento de materiais residuais e óleos ou gorduras de baixa qualidade, uma vez que está cada vez mais claro que a utilização apenas de insumos com alto grau de pureza dificilmente será viável economicamente para programas de substituição de diesel fóssil em larga escala. Nesse contexto, processos envolvendo esterificação e hidrólise parecem ter um alto potencial para se tornarem processos industriais altamente eficientes e viáveis. No entanto, não parece haver uma única solução. Cada matéria prima irá demandar pesquisa e/ou desenvolvimento, como foi feito de forma exemplar pela parceria da Agropalma com a UFRJ.

Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.
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