Usinas têm otimismo moderado sobre o futuro do biodiesel no Brasil
Apesar de ter novos aumentos de mistura a caminho, o setor de biodiesel permanece cético quanto às perspectivas reais de crescimento nos próximos anos.
BiodieselBR.com ··10 min de leitura
Texto
Em março passado o setor recebeu o presente que esteve – pacientemente – esperando nesses últimos seis anos: um novo marco regulatório com previsões de aumentos da mistura obrigatória para chamar de seu. Segundo o texto da Lei 13.263/2016 já no ano que vem passa a valer o B8 e, a partir daí, teremos incrementos anuais de um ponto percentual até chegarmos ao B10 em 2019. Além disso, o texto também abre uma janela para que a adição chegue a até 15% num futuro um pouco mais distante, desde que com o aval do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
Em março passado o setor recebeu o presente que esteve – pacientemente – esperando nesses últimos seis anos: um novo marco regulatório com previsões de aumentos da mistura obrigatória para chamar de seu. Segundo o texto da Lei 13.263/2016 já no ano que vem passa a valer o B8 e, a partir daí, teremos incrementos anuais de um ponto percentual até chegarmos ao B10 em 2019. Além disso, o texto também abre uma janela para que a adição chegue a até 15% num futuro um pouco mais distante, desde que com o aval do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
A novidade, é claro, foi devidamente comemorada pelos fabricantes de biodiesel. Mas não dá para dizer que tenha sido a festa de arromba que a seria de se esperar. O motivo desse desânimo é o mal momento da economia brasileira que tem feito a demanda de óleo diesel – e, consequentemente, a de biodiesel – andar de marcha à ré.
No ano passado, o mercado encolheu 4,7%. Foram 2,8 bilhões de litros a menos entre 2014 (60 bilhões de litros) e 2015 (57,2 bilhões de litros). De longe, a maior queda anual desde que a ANP começou a acompanhar as vendas de derivados no Brasil em 2000.
A tormenta ainda não passou. Nos primeiros seis meses de 2016, foram outros 5% de queda.
Protegidos
O setor só não sentiu o baque porque entrou em 2015 embalado pelos aumentos de mistura – B6 e B7 – ocorridos em 2014. Foi graças a isso que a produção de biodiesel cresceu 15% e fechou o ano passado com 3,94 bilhões de litros fabricados. Não dá para reclamar. Mas, considerando que a expectativa era de 24%, foi um verdadeiro anticlímax.
Sem contar que, agora, o setor acabou ficando sem o guarda-chuva que o protegeu. Nos últimos seis meses, a produção de biodiesel recuou cerca de 3,5% na comparação com o último ano. “Hoje, mesmo com o B7, na realidade estamos vivenciando um cenário de B6 ou até um pouco menos”, afirma o diretor executivo da Bianchini, Antin Bianchini, ressaltando que as entregas dos últimos dois certames – L47 e L48 – não ficaram lá muito acima das registradas no último leilão do B6 – o L38.
Como resultado temos um empresariado que se mantem ressabiado, mesmo tendo três anos de crescimento na casa dos dois dígitos praticamente garantidos pela frente [veja gráfico]. Se tomarmos como base os números da edição mais recente do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2024) é possível projetar que o mercado de biodiesel chegará à 6,4 bilhões de litros em 2019.
O problema é que ninguém realmente acredita que os números reais serão tão esplendorosos – no ano passado a demanda efetiva de diesel medida pela ANP ficou 2,4 bilhões de litros abaixo o número da EPE. Por isso, o setor está preferindo pagar para ver antes de sair soltando fogos antes da economia dar pelo menos alguns sinais de recuperação. O gerente comercial da Cargill, Elcio de Angelis, resume o sentimento. “O momento em que o País está passando, com retração na economia, reduz o consumo de biodiesel estimado”, alerta.
A maior dificuldade é que, sem saber se o fundo do poço chegou ou se ainda temos ainda alguns meses de queda livre pela frente fica complicado planejar o futuro porque o resultado lá na frente pode não ser dos melhores. “Sem que o PIB nacional se recupere, a demanda do B10 corresponderá ao consumo que se projetaria para um B8. Talvez levemente maior”, arrisca o diretor executivo Antin Bianchini.
Caso o PIB volte a crescer, mesmo que de forma moderada, as perspectivas melhoram bastante. Nas contas de Luiz Meira, gerente industrial da Potencial Biodiesel, até mesmo um pibinho entre 0,5% e 1% ao ano já bastaria para fazer com que a demanda de biodiesel avançasse 45% até 2020 – resultado positivo, mas ainda consideravelmente menor do que o calculado com base nos números da EPE. “Seria uma expansão muito mais por conta dos aumentos de mistura do que pelo crescimento da economia”, completa.
Sem antecipação
Se o crescimento pode não chegar com a velocidade que os fabricantes gostariam, há quem esteja tentando acelerar as coisas por uma outra via.
Numa reunião com o ministro de Minas e Energia realizada há cerca de duas semanas, a Ubrabio começou a circular a ideia de acelerar o cronograma da Lei 13.263/2016. Segundo a proposta, o B8 seria implantado em janeiro do ano que vem e o B9 chegaria já no começo do segundo semestre de 2017.
Esse tipo de antecipação não é uma novidade para o setor. Quando o PNPB foi oficialmente lançado, em janeiro de 2005, o cronograma previa que o B5 seria implantado apenas em 2013. Acabou chegando três anos antes.
“Seria uma medida muito bem-vinda para o setor”, comenta Elcio, ressaltando que a indústria, mesmo com os aumentos na demanda e a saída de alguns players, ainda não alcançou níveis satisfatórios de ocupação. Nos primeiros seis meses de 2016, a ociosidade média ficou em 47,7%. “A antecipação melhoraria essa equalização e traria alguma margem positiva”, complementa o executivo da Cargill.
Antecipar a mistura, no entanto, pode não ser uma opção dessa vez. É o que ressalta o gerente de biodiesel da Delta Biocombustíveis, Silvio Roman, ao lembrar que nos primeiros anos do PNPB o governo federal já tinha testado de antemão a viabilidade do uso do B5 na frota nacional. “Os testes para a mistura B5 [já tinham sido] finalizados e compilados”, informa.
Não temos mais essa vantagem. Os testes para o uso do B10 estão sendo feitos e devem terminar até março do ano que vem. Em junho, o MME oficializou um Grupo de Trabalho que vai tocar esses testes.
Um outro nó está no próprio fato das apostas terem ficado bem maiores do que no começo do PNPB. É o que leva José Meira a também se mostrar um tanto cético quanto a antecipações. “Os aumentos anteriores puderam ser antecipados, por se tratarem de percentuais ainda modestos. Agora, tenho a impressão que haverá maior resistência”, opina.
Outros mercados
Enquanto a demanda no mercado obrigatório engasga. Outras saídas em potencial para o biodiesel brasileiro continuam sendo apenas uma promessa.
Desde sua oficialização em meados de outubro passado passado até hoje, o mercado autorizativo só negociou 1,6 milhão de litros – 1,3 no L49 e 0,3 no L50.
Em certa medida, é natural que esse mercado demore a engrenar. Como, até então, o mercado de biodiesel se resumiu à mistura obrigatória, as usinas nunca tiveram que convencer o cliente final dos méritos de seu produto. O setor tem iniciado alguns movimentos como ressalta o sócio da Bio Óleo e presidente do Sindicato das Indústrias de Biodiesel do Mato Grosso (Sindibio-MT), Rodrigo Prosdócimo. “Nosso sindicato está atuando para levar o conhecimento e a oportunidade [das misturas autorizativas] para os envolvidos no tema”, diz.
Em maio, o Sindibio-MT foi um dos organizadores de um evento realizado em Cuiabá para divulgar o autorizativo entre grandes consumidores de diesel.
Só que essa pode ser uma saída apenas para as usinas do Centro-Oeste que estão mais distantes tanto das refinarias da Petrobras e quanto dos portos por onde chega o diesel importado. Na Região Sul a coisa pode ser um pouco mais complicada. “A menos que políticas ambientais sejam implantadas ou o preço do petróleo dispare, a questão do custo [do biodiesel] prevalecerá”, avalia Antin Bianchini. “A curto e médio prazos, não vemos maiores perspectivas para as usinas da Região Sul [no mercado autorizativo]”, complementa.
Outra saída seria o mercado externo. Só que as usinas brasileiras nunca fizeram sucesso exportando biodiesel – apesar de terem emplacado algumas vendas mais robustas desde junho de 2013 – e já estão há mais de oito meses sem embarcar uma única gota para fora e nada indica uma virada nesse jogo para já. Nenhuma das usinas ouvidas por essa reportagem disse ter plano imediato nesse sentido. Muito pelo contrário. Segundo Elcio, é uma questão de viabilidade. “O produto [brasileiro] não é competitivo no mercado internacional”, afirma o entrevistado.
Segundo Rodrigo Prosdócimo a exportação ainda esbarra na tributação pouco favorável. “Não haverá exportação, a menos que avanços tributários a viabilizem”, assevera. Esse nó tributário também é apontado por Antin como um entrave à participação das usinas de brasileiras no mercado internacional à medida que muitas usinas precisam direcionar seu biodiesel para o mercado interno para conseguirem compensar créditos de ICMS oferecidos em nível estadual. “Seria preciso que a demanda internacional fosse mais incisiva ou ocorresse uma reforma tributária para que as usinas vissem a exportação como uma alternativa”, ressalta.
Investimentos
Entre o ceticismo se o aumento de mistura no ano que vem se traduzirá num esperado choque de demanda e trabalhando num mercado que ainda precisa tem muito capacidade instalada a enxugar, há dúvidas se o setor voltará a atrair investimentos no curto prazo. “Investimentos significativos ocorrerão somente após a consolidação do B10 e se confirmado um cenário econômico de recuperação”, assegura Antin que descarta qualquer plano da Bianchini nesse sentido.
Mesmo assim, é possível sentir uma certa ebulição com foco no médio e longo prazos. O mais notável destes foi a recente ampliação da Potencial Biodiesel que poucas semanas atrás se tornou a segunda maior usina do país – a usina paranaense agora pode fabricar 382,7 milhões de litros anuais. “Nossa empresa já está expandindo sua capacidade e acredito que, em médio prazo, outras iniciativas como essa surgirão”, explica Meira confirmando que a ampliação foi uma jogada em antecipação à expansão da demanda.
A própria Cargill também está fazendo investimentos em sua planta de Três Lagoas. A multinacional já colocou R$ 220 milhões num projeto que inclui um aumento substancial na capacidade de processamento de soja em grão da unidade sul-mato-grossense. Embora a usina de biodiesel propriamente dita tenha ficado de fora dessa expansão, Elcio, ressalta que com mais óleo disponível será possível aumentar a oferta de biodiesel. “Até esse momento, utilizamos entre 50% e 60% da capacidade autorizada”, diz. Seria o equivalente a colocar 100 milhões de litros anuais no mercado.
Embora reconheça que a “capacidade produtiva atual ainda apresenta grande ociosidade”. Silvio Roman da Delta acredita que a expansão da mistura deverá, ao menos, “viabilizar aprimoramento em projetos já consolidados”. “O mercado continuará competitivo e as empresas deverão trabalhar para melhorar a produtividade e fortalecer suas cadeias de valor”, pondera deixando transparecer que, lá na frente, há motivo para otimismo. “As perspectivas são positivas com o estabelecimento de condições para a volta do crescimento”, arremata.