Permitir a compra de biodiesel até o B15 mudará completamente a dinâmica dos leilões para usinas e distribuidoras
A ANP confirmou na manhã dessa sexta-feira (09) que a compra de biodiesel além do mínimo obrigatório de 11% será feita durante as Etapas 3 e 5 dos leilões regulares. Essa confirmação, faz da introdução do B11 a maior mudança que o setor já viveu em toda sua história.
Ao longo dos últimos 12 anos – desde o lançamento do B2 em 2008 – o setor se acostumou a projetar, com relativa segurança, a demanda de biodiesel do leilão. No começo de toda a cobertura de leilão feita por BiodieselBR.com são apresentadas as projeções de demanda de vários participantes. Essa expectativa de demanda acaba balizando não só os preços, como os volumes oferecidos.
Entenda no texto abaixo como essa mudança afeta o setor produtivo e de distribuição de uma forma nunca antes experenciada pela cadeia do biodiesel.
A ANP confirmou na manhã dessa sexta-feira (09) que a compra de biodiesel além do mínimo obrigatório de 11% será feita durante as Etapas 3 e 5 dos leilões regulares. Essa confirmação, faz da introdução do B11 a maior mudança que o setor já viveu em toda sua história.
Ao longo dos últimos 12 anos – desde o lançamento do B2 em 2008 – o setor se acostumou a projetar, com relativa segurança, a demanda de biodiesel do leilão. No começo de toda a cobertura de leilão feita por BiodieselBR.com são apresentadas as projeções de demanda de vários participantes. Essa expectativa de demanda acaba balizando não só os preços, como os volumes oferecidos.
As usinas sempre afirmaram – e vêm conseguindo cumprir – a oferta de biodiesel aumentaria acompanhando os aumentos na mistura obrigatória. O gráfico abaixo, mostra isso claramente.

Acontece que, a partir de agora, os leilões não terão mais uma demanda tão exata. Há um piso mínimo garantido pelo B11, mas o teto da demanda vai depender de um outro fator que é de natureza dinâmica: o preço do biodiesel.
Pode parecer trivial, mas, até hoje, o preço do biodiesel tinha um impacto relativamente limitado na demanda. Se o preço de um leilão fosse mais baixo que o do anterior, as distribuidoras poderiam comprar um pouco mais e deixar de retirar um pouco do volume que vinham retirando a um preço maior. Ou ainda, se o preço na Etapa 5 ficasse mais baixo que o da Etapa 3, as distribuidoras poderiam fazer um arbítrio e comprar um pouco a mais substituir parte do biodiesel comprado na rodada anterior. Em nenhum desses casos, contudo, havia aumento real na demanda. Isso muda agora.
Oferta 3
As distribuidoras vão passar a comparar o preço do biodiesel com o preço do diesel e frete dos dois para projetar uma possível variação do preço do diesel nos meses de retirada do biodiesel. Depois de tudo isso, caso o biodiesel se mostre mais vantajoso que o diesel fóssil, as distribuidoras devem comprar quantidades maiores de biocombustível que o mínimo exigido.
Só que, no formato atual do leilão, preço do biodiesel acompanha a demanda. Quanto maior for esta, maior será aquele. Dessa forma, o que vai realmente importar para garantir o consumo voluntário não será o preço das ofertas 1 e 2 das usinas, mas o das ofertas 3. Esse será o fator determinante para que as distribuidoras se interessem.
Com isso as usinas vão ter que olhar com muito mais atenção para o preço do óleo diesel, algo que, até hoje, não era assim tão importante. Muitas usinas, pedem valores muito mais elevados em sua oferta 3. Não raro, perto do preço de referência da ANP. A partir de agora, contudo, sempre que esse valor se aproximar demais do preço do diesel, as distribuidoras perderão o interesse. Agora, se as usinas colocarem sua oferta 3 um pouco mais barata do que o diesel, coisa que, considerando os preços do diesel com ICMS, não é difícil de fazer, as distribuidoras podem querer comprar uma cota extra.
Escalada
Só que, antes de conseguirem chegar na oferta 3, as distribuidoras terão que, necessariamente, esgotar todo o biodiesel das ofertas 1 e 2. É aí que as usinas podem sair ganhando. Vender mais nos leilões tem como efeito colateral preços médios mais altos para o biodiesel como um todo.
Essa é uma dinâmica de mercado cujo funcionamento o setor terá que descobrir. Por exemplo, qual é a diferença de preço entre o diesel e o biodiesel para fazer com que as distribuidoras comprem os outros 4 pontos percentuais? Como as usinas vão ofertar e precificar seu produto com uma demanda que pode variar entre 1,1 milhão de 1,4 milhão de m³?
Por ser algo novo é possível que haja implicações para usinas e distribuidoras que ainda não estejam claras. Uma possibilidade é o fim de preços relativamente baixos para o biodiesel. No passado, já aconteceu de as usinas terem sido otimistas demais em suas projeções sobre a demanda o que acabou levando a ofertas excessivas e, consequentemente, preços finais abaixo do esperado. A partir de agora, se essa mesma situação acontecer, os preços baixos estimularão as distribuidoras a continuarem comprando o que, automaticamente, puxará os valores médios para patamares melhores.
É o preço do biodiesel no decorrer do leilão que irá determinar o percentual final de mistura das distribuidoras. Se, ao comprarem o suficiente para fazer B12, o preço começar a chegar perto da paridade com o diesel; a janela se fecha e as compras serão encerradas.
Demanda
Comparando o preço do diesel fornecido pela Petrobras e o preço do biodiesel do último leilão, percebe-se o quão mais barato está o biodiesel.
Quando comparado com o preço pago pelas distribuidoras para o do diesel com o ICMS, o biodiesel é mais vantajoso em todos os estados do Brasil. E não é uma diferença pequena. Considerando apenas os estados que têm fornecimento direto da Petrobras e usinas fornecedoras de biodiesel, o metro cúbico de biodiesel está, pelo menos, R$ 445 mais em conta. A diferença chega a R$ 720 por m³ em Goiás.
Em Mato Grosso, onde as distribuidoras têm ainda o custo de transporte do diesel, e o biodiesel é mais barato; a diferença fica ainda maior.
Mesmo ignorando o ICMS e considerado a diferença só com PIS/COFINS e CIDE, o biodiesel fica menos vantajoso apenas no Nordeste e em alguns estados do Norte do país. No Rio Grande do Sul, o biodiesel é R$ 97 mais barato; em São Paulo a diferença é de R$ 63; em Minas Gerais R$ 61; e no Rio de Janeiro a diferença é de R$ 98.
Os assinantes da plataforma BiodieselDATA podem acessar os dados desse mapeamento.
Se a demanda por diesel no 5º bimestre de 2019 for igual de 2018, o B11 garantirá o consumo 1,08 milhão de m³ de biodiesel. Essa demanda tem potencial de chegar a 1,4 milhão de m³ caso as distribuidoras comprem B15 nos estados onde o preço do biodiesel é baixo do diesel sem ICMS. É um volume superior ao da capacidade de produção das usinas habilitadas para L68.
Nesse leilão, devem ser comprados mais de 1,1 milhão de m³ de biodiesel. O volume máximo vai depender do quanto as distribuidoras estiverem atentas à nova regra e do preço que as usinas colocarem na oferta 3.
O novo mercado
Essa banda para o uso de biodiesel vai alterar profundamente a dinâmica do setor. Se as distribuidoras mostrarem interesse de comprar além do percentual mínimo, preço do diesel passará a ser um balizador importante para as ofertas das usinas. Isso tem potencial para se refletir em investimentos maiores em novas fábricas, com reflexos no mercado de soja brasileiro.
Mas só depois de alguns leilões que descobriremos todos os efeitos dessa grande mudança no comércio de biodiesel do Brasil.
Miguel Angelo Vedana – BiodieselBR.com