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Soja

Pesquisa registra 27 espécies de abelhas nativas na soja brasileira


Forbes - 10 ago 2026 - 10:42

As abelhas nativas encontradas nas lavouras brasileiras de soja ficaram mais numerosas no mapa da ciência. Um estudo liderado pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia identificou 27 novos registros desses polinizadores associados à cultura no País, ampliando de forma significativa o conhecimento sobre a biodiversidade presente nas áreas de produção.

O levantamento foi realizado em propriedades rurais dos municípios de Rio Verde e Montividiu, no sudoeste de Goiás. Nas áreas cultivadas foram identificadas 40 espécies de abelhas, das quais 27 nunca haviam sido registradas pela literatura científica visitando flores de soja no Com.

Quando considerados também os fragmentos de vegetação nativa localizados no entorno das lavouras, o número chega a 53 espécies distribuídas em cinco famílias (Apidae, Andrenidae, Megachilidae, Colletidae e Halictidae).

“A pesquisa da Embrapa consolida, com dados de campo, que o futuro da agricultura nacional depende do equilíbrio ecológico”, diz a bióloga e doutora em Biologia Carmen Pires, pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, sediada em Brasília (DF).

“Os insetos polinizadores são os amigos invisíveis das lavouras, mas o manejo inadequado pode colocá-los em risco. Proteger as abelhas nativas e o Cerrado que as abriga é, acima de tudo, preservar a economia e a segurança alimentar do Brasil”, diz.

O resultado representa um avanço importante para o conhecimento científico. Até então, revisões publicadas sobre o tema registravam apenas 12 espécies de abelhas nativas associadas, de alguma forma, à cultura da soja no território brasileiro.

A pesquisa mostra ainda que a presença desses insetos pode aumentar, em média, 7% o peso dos grãos, indicando que conservação ambiental e produtividade podem caminhar na mesma direção.

Conduzido pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, o trabalho contou ainda com pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Instituto Federal Goiano – Campus Rio Verde. O estudo integra o projeto Regenera Cerrado, desenvolvido em parceria com produtores rurais e a Cargill para avaliar os impactos da agricultura regenerativa sobre a saúde do solo, o controle biológico de pragas e a biodiversidade nas áreas de produção de soja.

Cerrado fortalece a produção

Além de ampliar o inventário de espécies, o estudo mostra que a vegetação nativa exerce um papel direto sobre a dinâmica das lavouras. Os fragmentos preservados de Cerrado funcionam como abrigo permanente para os polinizadores, oferecendo alimento, locais de nidificação e condições para que as populações de abelhas permaneçam na paisagem mesmo fora do período de florescimento da soja.

Os pesquisadores observaram que, à medida que aumenta a distância entre as lavouras e essas áreas preservadas, diminuem tanto a riqueza quanto a abundância de abelhas encontradas nas flores da cultura. Na prática, a conservação da vegetação nativa passa a ser também um fator associado ao potencial de polinização das lavouras.

Manejo influencia diversidade

A pesquisa também identificou diferenças importantes entre os sistemas de manejo adotados nas propriedades. Áreas com uso mais intenso de inseticidas e fungicidas químicos apresentaram comunidades de abelhas menos equilibradas, concentradas em poucas espécies mais resistentes às condições de estresse.

Segundo, apenas contabilizar o número de insetos presentes em uma área pode levar a interpretações equivocadas sobre a saúde ambiental da lavoura.

“Uma área altamente pulverizada com químicos pode apresentar um número elevado de insetos na contagem rápida, mas quase todos pertencem a uma única espécie resistente. Funcionalmente, a lavoura torna-se um “deserto de biodiversidade”, vulnerável e dependente de intervenções artificiais constantes”, explica Pires.

Bioinsumos preservam polinizadores

O trabalho aponta que propriedades que adotam bioinsumos para fertilização do solo e controle biológico de pragas conseguem manter comunidades de abelhas mais diversificadas. A agricultura regenerativa também aparece como aliada dos polinizadores ao reduzir o revolvimento do solo e preservar a cobertura vegetal.

Essa prática é especialmente importante porque cerca de 60% das espécies identificadas no estudo constroem seus ninhos diretamente no solo. Sem a destruição desses abrigos, as populações conseguem permanecer nas áreas agrícolas entre uma safra e outra.

“Sem tratores desfazendo seus abrigos e sem venenos penetrando a terra, essas abelhas podem persistir de uma safra para a outra, prontas para polinizar a próxima floração”, diz a pesquisadora.

Outro dado levantado pela pesquisa mostra que 44,7% das espécies registradas possuem hábito solitário. Diferentemente das abelhas criadas comercialmente para polinização assistida, elas dependem exclusivamente das condições ambientais existentes na propriedade para sobreviver.

Novos registros ampliam conhecimento

Ao todo, os pesquisadores coletaram 764 abelhas durante as amostragens realizadas nas áreas de soja e nos fragmentos de vegetação nativa. Desse total, 89% pertenciam a espécies nativas brasileiras. Apenas 11% eram da espécie exótica Apis mellifera, conhecida pela produção de mel.

O estudo também comparou metodologias de coleta utilizadas em levantamentos científicos. As chamadas pan traps, armadilhas coloridas instaladas nas áreas de pesquisa, responderam por 95% das capturas e registraram 33 espécies diferentes, enquanto as redes entomológicas identificaram apenas sete espécies. O resultado indica que métodos tradicionais podem subestimar a biodiversidade presente nas lavouras.

Para Carmen Pires, os dados reforçam que a conservação dos polinizadores deve ser vista como parte da estratégia produtiva da agricultura brasileira.