


Um avanço importante foi a abolição dos estoques reguladores de biodiesel em formato físico. “Chegamos a ter 112 milhões de litros de biodiesel. O que a gente trouxe de experiência dessa época é que muitos problemas de qualidade se dão pelo tempo de armazenamento”, explica. Era necessária “uma quantidade grande de reprocessamento do biodiesel dos estoques”. “Era muito ineficiente porque a gente fazia o transporte para o estoque, tinha de devolver para a usina para reprocessamento e, posteriormente, trazer ele de volta ou levar para algum outro ponto onde fosse necessário”, conta.
Com a evolução na direção dos estoques reguladores na forma de contratos de opção de compra, hoje, a Petrobras não mantém mais estoques físicos de biodiesel.
Qualidade
Do ponto de vista geral, um dos maiores problemas do setor ainda é o teor de água. No entanto, Carlos destaca um avanço importante trazido pela Resolução ANP 45/2014 ao determinar que problemas com a aspecto não seriam suficientes para que uma distribuidora recusasse um carregamento de biodiesel sem que sejam realizados testes adicionais. “Não basta mais só a questão do aspecto para que o produto seja devolvido”, diz.
O palestrante ressalta que ainda há sutilezas que precisam ser melhor equacionadas quanto a operacionalização do sistema de controle de qualidade do biodiesel. Segundo ele, faz diferença onde ficam os pontos em que as amostras usadas para elaborar os certificados de qualidade são coletadas.
Por exemplo, entre o tanque do fabricante e o caminhão das transportadoras acontece um transbordo que, dependendo das condições nas quais for feito, pode contribuir para o aumento do teor de água do biodiesel. “Isso tudo acontece dentro da cerca do produtor. Depois disso já acontece a transferência de custódia e as questões passam a ser entre a Petrobras e o distribuidor”, comenta. Na entrada da distribuidora há um 3º ponto de amostragem.
Pleitos
Segundo o palestrante, o papel da Petrobras no controle de qualidade da cadeia está muito relacionado a mediar a relação entre fabricantes e distribuidores. Isso tem permitido que a estatal centralize a informação sobre o número de cargas de biodiesel que apresentam algum tipo de problema. Nesse ponto, Carlos destaca que tem havido uma melhora notável na performance do setor nos últimos meses.
Entre outubro de 2012 e outubro de 2013, surgiram dúvidas sobre a adequação de 41 carregamentos de biodiesel totalizando 5,7 milhões de litros. Desse total, praticamente a metade (49%) acabou devolvido à usina. Já entre outubro de 2013 até o mês passado a quantidade de carregamentos suspeitos aumentou para 87 ocorrências, embora o volume tenha caído para apenas 3,8 milhões de litros com o percentual de devoluções mantido quase estável (52%).
Para facilitar o meio de campo, a Petrobras está trabalhando para padronizar os processos relacionados ao processo de pedido de devolução de uma carga de biodiesel. “Tínhamos muito problema em relação à primeira manifestação de não conformidade pelos clientes. Eles reclamavam que tinha um problema. Aí a gente ia lá, abria a amostra testemunho e fazia os testes e só depois que emitíamos o parecer surgiam outras reclamações. Nesse ponto já não tínhamos mais a amostra para fazer outros ensaios”, explica. O formulário padronizado ajuda a evitar esse tipo de retrabalho.
A padronização conseguiu reduzir o tempo entre o registro de uma reclamação por parte da distribuidora e a resposta da Petrobras. “Saímos de 10 dias em média para algo em torno de 5 dias. Em alguns casos conseguimos resolver no mesmo dia”, elogia.
Ainda há problemas, especialmente nas condições de coleta das amostras. O mais grave é o rompimento do lacre que impede o uso daquela amostra como uma amostra testemunho válida. “Toda a decisão vai ser tomada com base nessa amostra, então devemos prezar para que ela seja representativa do que está sendo carregado no caminhão”, diz.
Caminhão
Para Carlos, o grande nó da qualidade do biodiesel está mesmo no transporte por caminhões. Ele diz isso comparando os resultados obtidos pela Petrobras com produtos transportas via duto. “O transporte por caminhão é que gera essa fragilidade do processo, quando você entra com um produto num duto você sabe a qualidade que você vai tirar na frente”, diz.
Isso tem muito a ver com o fato dos caminhões não fazerem exclusivamente o transporte de biodiesel. “Isso é natural porque precisamos otimizar os fretes”, diz. Mas isso coloca mais importância nas boas práticas para a mitigação do risco de contaminação.
Uma coisa pode ajudar a reduzir ainda mais a quantidade de ocorrências: mais de 90% dos problemas de qualidade está relacionado com o teor de água. “Já temos isso mapeado e sabemos onde é que precisamos atacar”, diz acrescentado que os investimentos das usinas na “secagem do biodiesel” têm sido percebidos. “Isso é um diferencial competitivos e temos percebido que as distribuidoras dão preferência a um produto que agregue valor”, completa
Encontros
Para tentar resolver os pontos cegos, foram realizadas três edições do Encontro Técnico de Controle de Qualidade reunindo representantes dos fabricantes, distribuidores, laboratórios, transportadoras e Petrobras para debater questões do dia a dia.
O evento tem ajudado a aparar algumas arestas nos procedimentos desde o ponto e os procedimentos metodológicos para a coleta de amostras testemunho, como acondiciona-la adequadamente, a elaboração de manuais de boas práticas, o desenvolvimento de indicadores sobre a qualidade dos serviços das transportadoras. “Estamos no caminho certo, hoje menos 0,1% da produção total de biodiesel precisam de um parecer”, diz.
Ele também sugere uma aproximação maior do setor. “Todos queremos construir um modelo de negócios sustentável. Para isso precisamos conhecer mais do negócio. Acredito que se realizássemos esses encontros dentro das instalações das próprias usinas e transportadoras para conhecer as dificuldades seria mais proveitoso”, completa.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com