A forma como as mudanças nas especificações do biodiesel afetaran as contas das usinas foi o tema de Luís Carlos da Costa, da Binatural, na Conferência BiodieselBR 2014.
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A forma como as mudanças nas especificações que regem a qualidade do biodiesel no Brasil afetou as contas das usinas foi o tema principal da palestra de Luís Carlos da Costa, diretor industrial da Binatural, na Conferência BiodieselBR 2014.
A forma como as mudanças nas especificações que regem a qualidade do biodiesel no Brasil afetou as contas das usinas foi o tema principal da palestra de Luís Carlos da Costa, diretor industrial da Binatural, na Conferência BiodieselBR 2014.
A questão principal foi o teor de água no biodiesel. Em janeiro deste ano, a especificação para teor de água no biodiesel atingiu o último patamar previsto dentro de uma escala progressiva estabelecida pela Resolução ANP 14/2012. Com isso, o biocombustível deveria sair das usinas com, no máximo, 200 ppm de água e ficar assim até chegar à ponta final da cadeia. Contudo, a ANP acabou sendo forçada a admitir que não dava para ir contra a natureza e, em maio deste ano, concedeu uma tolerância para produtores e distribuidoras de, respectivamente, 50 ppm e 100 ppm.
Isso reconhece uma verdade básica sobre o biodiesel. Trata-se de um produto higroscópico capaz de absorver umidade diretamente do ar o que torna praticamente impossível que ele saia da usina e viagem várias centenas de quilômetros até o destino final tão seco quanto saiu de fábrica.
A flexibilidade foi saudada pelos fabricantes, mas chegou depois que o setor produtivo já tinha feito seus investimentos para secar o biodiesel.
Ponto de partida Costa afirmou que, nas usinas que estão sob sua gestão – a Binatural, em Formosa (GO), e a SPBio, em Sumaré (SP) –, a área comercial é ponto de partida dos esforços ligados à qualidade do produto final. Segundo ele, os cuidados precisam começar com uma política de aquisição de matérias-primas compatível com a qualidade.
Por isso, segundo o diretor industrial, a equipe comercial atua com o suporte do departamento de Controle de Qualidade, que fica responsável por repassar um feedback sobre a qualidade matéria-prima comprada. Isso não significa necessariamente um engessamento do mix de matérias-primas, as usinas do grupo utilizam diversos tipos de óleo na fabricação do biodiesel: dos óleos de soja e de algodão ao sebo.
O controle da qualidade propriamente dito “é feito externamente”. “No caso da SPBio, não temos laboratórios internos, nós terceirizamos a certificação do nosso produto”, revelou.
O desafio Assim como as demais unidades produtivas existentes no país, as plantas do Grupo Binatural também tiveram que secar o biodiesel para atenderem ao limite de 200 ppm quando este entrou em vigor em janeiro último. Costa revelou que foi preciso fazer a reengenharia de diversos sistemas para garantir o atendimento da especificação. “No caso da SPBio, tivemos que fazer aquisição de novos equipamentos”, relatou acrescentando que, para tanto, foram investidos R$ 500 mil. “Isso num momento em que o setor de biodiesel trabalhava com margens muito negativas”, reclamou.
O diretor industrial acrescentou ainda que as adequações efetuadas pela empresa para atender aos 200 ppm resultou num custo adicional de R$ 10 por tonelada de biocombustível fabricado.
No que concerne aos cuidados com a armazenagem, a Binatural intensificou o controle de temperatura do biodiesel tanto produzido como armazenado e fixou um limite interno para teor de água mais rígido que o previsto pela Resolução ANP 14/2012: até 150 ppm. “Tendo em vista a dificuldade de entregar esse biodiesel à distribuidora com 200 ppm, fizemos ainda estudo de inertização do tanque e teto flutuante”, acrescentou.
Carregamento Contudo, segundo Costa, o desafio de se ajustar ao novo teto para o teor de água não se restringiu às etapas de produção e armazenamento. Havia ainda a questão do carregamento, cujo impacto é significativo. “Produzíamos [biodiesel] seco, fazíamos todo o controle de armazenamento e aí tinha o problema de carregar o biodiesel”, expôs. “A forma de carregamento favorece a absorção de água”, problematizou ponderando que o cliente não aguarda, por exemplo, parar de chover para fazer o carregamento. “Tem que carregar nas condições climáticas que se apresentarem.”
O diretor da Binatural lembrou ainda que, no Brasil, as carretas não são inertizadas com nitrogênio. “Esse produto vai balançando de Goiás [estado onde se encontra a usina Binatural] até Suape [PE], absorvendo água a todo momento”, pontuou. Segundo Costa, por mais que a usina fizesse o investimento necessário, o distribuidor acabava não recebendo o produto dentro do limite estipulado, o que gerou inúmeras reclamações durante 2013 e meados de 2014.
Para ilustrar o nível de dificuldade de se manter o biodiesel dentro da especificação exigida, o palestrante apresentou um estudo, feito por sua empresa, que demonstrava as variações do teor de água, entre o processo de produção e o carregamento, no biodiesel fabricado pela usina Binatural. Durante os oito meses em que a empresa monitorou seu biodiesel, o teor de água variou, em média, de 48 ppm entre a fabricação e o carregamento.
Para o diretor industrial, a flexibilização promovida pela ANP no teor de água, em maio deste ano, com a introdução de uma nova resolução (ANP 45/2014), era algo realmente necessário.
Responsabilidades Costa também abordou os limites de responsabilidades sobre o biodiesel. Destacou que, no caso da usina, ela se encerra no momento do carregamento.
O diretor da Binatural também revelou que toda a usina tem por premissa realizar procedimentos como a checagem do caminhão-tanque no qual será carregado o biodiesel e fazer o acompanhamento em toda a cadeia produtiva. Segundo ele, a distância entre a usina e a base distribuidora é que acaba gerando problemas no biodiesel.
Isso cria dificuldades para as usinas que segundo a lógica do “cliente tem sempre razão” pode vir a ter que se responsabilizar por problemas fora de sua alçada por mais que a empresa se empenhe em “ter um produto, com alta qualidade e menor custo possível de produção”, a decisão de compra é sempre das distribuidoras. “Nós temos por obrigação prestar um excelente serviço ao setor de distribuição”, concluiu.