BiodieselBR
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O mundo está interessado no biocombustível brasileiro.

Nenhum combustível no futuro terá a mesma presença que o petróleo hoje.  A tendência é cada país buscar uma solução e o mundo entrar numa era na qual as economias são empurradas a um grande número de fontes de energia, biocombustíveis entre elas.
Zero Hora 6 min de leitura

Razões não faltam:

Preço do petróleo


O barril dobrou de valor nos últimos anos devido ao aumento do consumo em economias como China e Índia.  Segundo o diretor do Centro de Estudo do Petróleo da Unicamp, Saul Suslick, a elevação do preço ainda não está relacionada com a provável escassez do produto nas próximas décadas. 

Mudanças climáticas


O aumento dos sinais do aquecimento global deixa governantes mais atentos às alternativas ao petróleo para reduzir as emissões de gases que provocam o efeito estufa.  Em geral, os biocombustíveis são mais limpos. 

Carros flex


Esta tecnologia permite uma transição mais simples entre o petróleo e os biocombustíveis.  A mudança entre motores é pequena se comparada com a conversão de veículos para gás natural, por exemplo.  O Brasil tem a maior frota de carros bicombustíveis do mundo. 

Terras cultiváveis


O Brasil ainda tem terras cultiváveis à disposição que poderiam ser usadas para produzir álcool ou biodiesel.  A União da Agroindústria Canavieira de São Paulo estima que a área plantada de cana, hoje em 5 milhões de hectares, pode crescer 10 vezes sem a necessidade de realocar outros plantios. 

Provável escassez


As reservas de petróleo devem durar apenas mais 50 anos, de acordo com projeção do Cepetro.  Na conta dos pesquisadores estão incluídos poços ativos, campos encontrados e não explorados e as prováveis novas descobertas. 

Cultura brasileira do álcool


Nenhum país tem mais experiência na produção de matéria-prima e refino de combustíveis alternativos usados em larga escala do que o Brasil.  Com o lançamento do Próalcool, em 1975, o país acumulou mais de 30 anos de comercialização do produto. 

Produtividade

O álcool feito a partir da cana-de-açúcar é o mais rentável entre todas as outras possibilidades de se obter o combustível, como milho (usado nos Estados Unidos) e beterraba (alternativa européia).

Etanol 

Na quarta-feira, a União Européia apresentou medidas para impulsionar o uso do biocombustível e citou o Brasil como país que desenvolveu um setor forte na obtenção do etanol da cana-de-açúcar.  O álcool brasileiro é o caso mais citado porque é o mais bem-sucedido exemplo de combustível alternativo no mundo.

- Num primeiro estágio, somente o álcool pode reduzir o consumo de gasolina

- afirma Rafael Schechtman, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE) e professor de planejamento energético da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Um dos motivos que também leva os americanos a jogar os holofotes sobre o etanol é a determinação da Casa Branca em dobrar o consumo de álcool até 2012, medida aprovada no Congresso do país.

Investidores como Bill Gates, fundador da Microsoft, estão vendo a possibilidade de ganhar dinheiro nesse cenário.  Larry Page e Sergey Brin, os criadores do Google, estiveram no Brasil conhecendo as instalações da refinaria Cosan, em Barra Bonita (SP).  Detalhes do encontro não foram revelados, mas é provável que a dupla esteja interessada em saber por que as ações da Pacific Ethanol, empresa americana que produz álcool a partir de milho, subiram de US$ 6 em fevereiro do ano passado para US$ 19 em janeiro último.  O maior acionista da Pacific Ethanol é Gates.

Potencial brasileiro está no álcool

A eficiência do combustível feito a partir da cana-de-açúcar é um dos motivos que atrai a atenção do mundo pelo álcool brasileiro.

Cada unidade de energia gasta para processar um litro de álcool é multiplicada por oito com a queima do combustível.  Ou seja, a transformação da cana em etanol resulta, na prática, em mais energia para a sociedade - e tem menor custo.

O litro do álcool de cana-de-açúcar custa US$ 0,25 para o produtor. Igual quantidade de álcool de milho, a matéria-prima mais popular nos EUA, vale US$ 0,34.  Esta fórmula prova a eficiência da cana frente às demais matérias-primas do álcool.

A boa notícia para o Brasil é que a cana tem grande possibilidade de expansão.  Hoje, a cultura ocupa 5 milhões de hectares.  Segundo a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo, esta área pode ser multiplicada por 10 nos próximos anos, sem invasão de florestas ou substituição de outras plantações.

Mais uma vez, o Brasil está sozinho nesta condição: não há outro país com tantas terras disponíveis.  Como a cana necessita de clima tropical e umidade, as nações desenvolvidas - a maioria situada em regiões temperadas - terão que buscar outras alternativas.

Mas é pouco provável que o álcool tome o lugar da gasolina por completo no longo prazo: não há tantas terras disponíveis no mundo.  Por isso, analistas são unânimes ao dizer que os biocombustíveis são uma boa opção para incrementar a economia brasileira, mas nada além disso.

- O álcool não vai nos tornar a Arábia Saudita (principal fornecedor de petróleo) - compara Rafael Schechtman, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura e professor de planejamento estratégico da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Um mundo com várias opções à disposição

Os EUA, por exemplo, usam mais de 500 bilhões de litros anuais de gasolina.  Se o Brasil multiplicasse por 10 a produção de etanol, chegaria a 150 bilhões de litros por ano.

Schechtman avalia que nenhum combustível no futuro terá a mesma presença que o petróleo hoje.  A tendência é cada país buscar uma solução e o mundo entrar numa era na qual as economias são empurradas a um grande número de fontes de energia, biocombustíveis entre elas.

- O Brasil não tem interesse em ser o único fornecedor de combustível no futuro - afirma Ricardo Dornelles, diretor do departamento de combustíveis renováveis do Ministério de Minas e Energia.

Para o governo, nenhuma nação irá optar pelos biocombustíveis se a produção estiver concentrada num único país.  É por isso que o Palácio do Planalto vem recebendo delegações da Coréia do Sul, da China e de outros países e trocando informações sobre produção de álcool e biodiesel.  A idéia é que os biocombustíveis se tornem um produto comum no comércio internacional.  Só assim o Brasil poderia se aproveitar da nova onda energética.

A maldição do petróleo

Guerras, pobreza e ditadura fazem parte da história de grande parte dos maiores produtores de petróleo.  Com a escassez do produto nas próximas décadas, é provável que boa parte destes conflitos e problemas sociais se acentuem.

O principal ingrediente que deverá esquentar os ânimos em países do Oriente Médio, por exemplo, será o dinheiro do próprio petróleo.  A tendência é que os governos destas nações encham os cofres públicos e que, em conseqüência, aumente a disputa pelo poder.

- Quanto mais o petróleo ficar escasso, mais tende a recrudescer o conflito

- diz o coordenador do departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Leandro de Lemos.

Para o mestre em relações internacionais Ielbo de Souza, da Unisinos, esses governos devem investir os lucros na remodelação de suas economias.  O problema será encontrar uma nova matriz de produção em pouco tempo.

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