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Opinião: Biodiesel, alternativa limpa

Assim como aconteceu com o álcool, a história do biodiesel também se iniciou no século XIX. Em 1895, Rudolf Diesel pesquisava diversos combustíveis que pudessem ser utilizados no motor que leva o seu nome.
Brasil@gro - Alfred Szwarc 7 min de leitura
Assim como aconteceu com o álcool, a história do biodiesel também se iniciou no século XIX. Em 1895, Rudolf Diesel pesquisava diversos combustíveis que pudessem ser utilizados no motor que leva o seu nome. Satisfeito com o desempenho demonstrado pelos óleos vegetais, apresentou uma nova versão do motor, movido a óleo de amendoim, na célebre Exposição Mundial de Paris, em 1900.

Enquanto Rudolf Diesel vislumbrava nos óleos vegetais um caminho para o desenvolvimento industrial, Henry Ford, um outro gênio que viveu na mesma época, via o álcool produzido a partir de biomassa como o "combustível do futuro" e promotor do desenvolvimento da agricultura nos EUA.

Dois visionários, ambos contribuíram significativamente para o desenvolvimento do mundo moderno. Embora tivessem seus sonhos para o desenvolvimento dos combustíveis de biomassa postergados pelo rápido avanço da indústria do petróleo, deixaram sementes férteis.

Passados mais de cem anos, a associação dos óleos vegetais com o álcool, em um processo químico conhecido como transesterificação, pode viabilizar um novo combustível de origem renovável para o Brasil: o éster de óleo vegetal, também conhecido como biodiesel. Trata-se de um derivado do óleo vegetal que, ao contrário do produto in natura, não resulta na formação de depósitos indesejáveis no motor, que acabam afetando negativamente o seu funcionamento, e tampouco produz odor intenso.

As alternativas de matéria-prima para o fornecimento do óleo vegetal são diversas e podem ser desenvolvidas regionalmente. Apesar de o Brasil ser o segundo maior produtor mundial de soja e esta variedade de planta oleaginosa ser produzida em escala industrial, com alta produtividade, outras variedades disponíveis no país se prestam perfeitamente para a produção do biodiesel, como é o caso do girassol, amendoim, algodão, dendê e milho, dentre outras.

O biodiesel pode ser produzido com metanol, resultando no éster metílico, ou com etanol, na forma de éster etílico. Em ambos os processos se têm a produção da glicerina como sub-produto, fato que pode aumentar a competitividade do biodiesel, pois esta substância pode ser utilizada como matéria-prima na produção de tintas, adesivos, produtos farmacêuticos, têxteis etc.

A opção por um tipo ou outro de éster se fundamenta principalmente na disponibilidade do álcool a ser usado na transesterificação e nos custos de produção, já que os dois produtos apresentam desempenho operacional bastante semelhante. A opção preferencial para o Brasil deve ser o éster etílico, visto que o etanol é produzido localmente em larga escala, a custos competitivos e gerando empregos e renda rural, enquanto o metanol necessita ser importado, pois o Brasil não é auto-suficiente na sua produção. Além disso, devido a sua maior toxidez, o metanol requer maiores cuidados no seu manuseio, transporte e estocagem.

A idéia do uso do biodiesel no Brasil não é nova. As primeiras iniciativas tecnicamente estruturadas para uma ampla avaliação da viabilidade de uso de óleos vegetais in natura e de biodiesel ocorreram em 1982, com o lançamento pelo Governo Federal do Programa de Óleos Vegetais, conhecido como OVEG.
Naquele ano, foram desenvolvidos diversos testes com a colaboração da indústria automobilística. Dentre os vários combustíveis testados vale mencionar o éster etílico de soja puro e a mistura de 30% de éster etílico de soja e 70% de óleo diesel.

Embora os resultados dos testes tenham sido especialmente animadores para o biodiesel e várias tentativas de desenvolvimento de um mercado tenham sido feitas, inclusive utilizando ésteres metílicos, os altos custos do produto inibiram o seu uso comercial. Com a elevação dos preços do óleo diesel e o interesse do Governo Federal em diminuir a importação desse combustível, que em 2002 representou cerca de 6.4 bilhões de litros (17% do consumo total de óleo diesel) e consumiu mais de US$ 1 bilhão para a sua importação, o biodiesel passou a ser visto com renovado interesse.

Atento a essas questões, o Ministério da Ciência e Tecnologia lançou o Probiodiesel, programa destinado a fomentar a produção e uso desse produto, que tem recebido apoio dos diversos agentes interessados no assunto, como os produtores de óleos vegetais, a indústria automobilística, os distribuidores de combustível, os produtores de álcool e os institutos de pesquisa.

O Programa prevê, para 2005, o uso comercial de misturas com 5% de biodiesel e 95% de óleo diesel (mistura B5), esperando-se para 2010 o aumento da participação do biodiesel para 10% (mistura B10) e até 2020 o seu aumento para 20% (mistura B20).

O biodiesel é considerado um produto nobre que pode ser adicionado ao óleo diesel em concentração de 1% a 2%, simplesmente com o objetivo de melhorar a lubricidade do combustível. Como combustível, em mistura com o óleo diesel ou puro, ele vem sendo utilizado há vários anos em diversos países, principalmente na Alemanha, França, Itália e EUA.

A experiência internacional tem demonstrado que para misturas de óleo diesel com até 20% de biodiesel geralmente não há necessidade de alterações no veículo ou motor. No caso de utilização na forma pura, é recomendável a substituição de componentes sensíveis aos efeitos solventes do combustível, como é o caso de alguns elastômeros.

Como o biodiesel é biodegradável em condições normais de uso e apresenta baixa toxidez é especialmente adequado para uso em áreas ambientalmente sensíveis como em ambiente aquático ou minas subterrâneas.

Por outro lado, essa mesma característica requer certos cuidados na armazenagem e transporte, para evitar a sua oxidação e formação de borras. Um dos principais atributos do biodiesel é a sua capacidade de reduzir a emissão de poluentes atmosféricos em comparação com o óleo diesel, inclusive o dióxido de carbono, gás que contribui para a intensificação do efeito estufa. Como pode ser produzido a partir de óleos vegetais usados no preparo de alimentos, também contribui para diminuir o problema de destinação final desses óleos.

A perspectiva de produção em larga escala do éster etílico abre um novo mercado para o setor sucroalcooleiro. Com base nos estudos em andamento, pode-se admitir que são necessários aproximadamente 100 litros de etanol para a produção de mil litros de biodiesel. Adotando-se esse nível de utilização de álcool e tomando como referência o consumo nacional de diesel observado em 2002, de aproximadamente 37 bilhões de litros, estimamos que o mercado potencial para o álcool, considerando-se a mistura B5, é da ordem de 185 milhões de litros/ano.

Para o mesmo cenário, o uso da mistura B10 e B20 representa, respectivamente, um mercado de 370 milhões de litros/ano e de 740 milhões de litros/ano.

Além dos benefícios sociais e econômicos associados com o consumo de álcool, há que se considerar, também, a economia gerada pela substituição das importações de óleo diesel. De acordo com estimativas da ANP - Agência Nacional do Petróleo, baseadas nas condições de mercado de abril/2003, cada 5% de biodiesel misturado ao óleo diesel consumido no País representa uma economia de divisas da ordem de US$ 350 milhões/ano.

Evidentemente, também é oportuno lembrar os impactos no agronegócio dos óleos vegetais. A ABIOVE - Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais estima para o caso da mistura B5 a criação de aproximadamente 185 mil empregos e geração de renda superior a US$ 1 bilhão.

O desenvolvimento do Probiodiesel traz desafios que lembram a difícil, porém bem sucedida, experiência da criação de um mercado de álcool combustível no País. O pioneirismo do Brasil no uso de biocombustíveis e a sinergia resultante da associação das cadeias produtivas do álcool e dos óleos vegetais com os demais agentes interessados certamente contribuirá para a consolidação desse Programa, de importância estratégica no desenvolvimento sustentável.
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