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Mamona com gosto de álcool

Se os efeitos sociais da medida ainda são discutíveis, os ambientais já se anunciam temerários. Nem social nem ambiental, o biodiesel soa como promessa furada.  Já vimos esse filme.
O Eco 6 min de leitura
O presidente Lula e a imprensa não param de exaltar a lei que regulamenta a utilização do biodiesel no Brasil.  O governo acha que a produção desse tipo de combustível vai ser uma revolução na geração de empregos.  Isso porque, teoricamente, processo envolve pequenos agricultores no plantio de espécies oleaginosas para a produção.  Também se diz que a disseminação do uso do biodiesel trará benefícios ambientais, ao substituir a queima de derivados do petróleo, muito mais poluidores.

Se os efeitos sociais da medida ainda são discutíveis, os ambientais já se anunciam temerários.

“É preciso pensar que para produzir o óleo vegetal utilizado no biodiesel é preciso haver plantações.  Ou seja, temos de ter espaço.  Se a área escolhida for um ecossistema ameaçado, o meio ambiente será degradado de forma intensa”, alerta o ambientalista Ibsen Gusmão Câmara.  Ele entende do assunto, pois testemunhou os efeitos perversos de um programa parecido que teve o seu auge na década de 80: o Pró-Ácool.  Em 1996, publicou o resultado de seus estudos no livro Os limites originais do bioma Mata Atlântica na região Nordeste do Brasil, em parceria com Adelmar Coimbra-Filho.  Resumo da descoberta: a cana-de-açúcar acabou com o que restava de florestas nativas na região.

“O processo foi o grande responsável pela destruição da Mata Atlântica.  Em 1945, quando sobrevoava o Nordeste brasileiro, ainda via diversos remanescentes da floresta.  Hoje, na região, temos apenas pequenos vestígios de mata, em locais de declive que não possibilitaram a plantação na época”, comenta Ibsen.

Males da cana


Um trabalho da Embrapa Monitoramento por Satélite realizado no nordeste de São Paulo mostra o custo ambiental da cultura do álcool da maneira como é conduzida até hoje.  “As queimadas são protagonistas da deterioração ambiental”, diz o pesquisador Aldo Roberto Ometto, autor de tese de doutorado que avalia os impactos da cana-de-açúcar no estado.  “As pessoas acham que o pior problema é aquele carvãozinho que suja as roupas.  Mas o que mais prejudica, na verdade, são aquelas partículas invisíveis facilmente inaladas.  Elas podem chegar a até 50 quilômetros da plantação e causam sérios problemas de saúde, tanto para as pessoas que trabalham na colheita quanto para a população ao redor”, explica.

Para os solos, a queimada ocasiona a perda de nutrientes.  A palha da cana, que poderia ser utilizada como adubo para a terra, é perdida.  E os danos vão além.  Quando a planta é queimada, a sacarose de dentro da cana-de-açúcar sai, cristaliza e vira um melado.  Em contato com o chão, acaba ficando sujo.  Por isso, quando chega à usina, tem de ser lavado, num processo que consome grande quantidade de água.  Isso sem falar nos agrotóxicos.  Segundo Ometto, a média de herbicidas utilizada no cultivo da cana é muito mais alta do que em outras culturas.  “Enquanto a plantação de laranja consome 2,4 kg por hectare ao ano, a de cana utiliza 5,5 kg”, compara.

O estudo realizado pela Embrapa avaliou uma área de 52 mil km², em 125 municípios paulistas.  Para desgosto dos pesquisadores, que vêem na cana uma cultura sustentável se práticas mais modernas forem adotadas, apenas um produtor rural de grande escala cultiva a cana-de-açúcar sem utilizar agrotóxicos.  Outro cuidado muitas vezes esquecido pelos agricultores diz respeito à utilização da vinhaça, um dos derivados da cana.  Os produtores aproveitam o resíduo para adubar o solo, mas ignoram a possível existência de lençóis freáticos, que podem ser contaminados pelo produto.  “O plano de irrigação tem de respeitar as características fisiológicas da área”, ressalta Ometto.

A ocupação dos solos do interior paulista pela cana-de-açúcar é impressionante.  Segundo o pesquisador da Embrapa, há cerca de 20 anos 23,5% de uma área de 37 mil km² nas proximidades de Ribeirão Preto eram cobertos pela cultura.  Hoje, mais de 50% das terras estão tomadas pela plantação.  Como na utopia do biodiesel, a próspera cultura geraria centenas de novos empregos.  Mas os estudos da Embrapa desmentem a esperança.  Enquanto o cultivo de laranja gera 0,19 postos de trabalho por hectare ao ano, com a cana esse número cai para 0,07.  Se forem estimadas as vagas diretas, indiretas e induzidas, a taxa é ainda mais discrepante.

Nos últimos anos a produção de álcool para combustível ganhou novo impulso, devido ao crescente interesse de países estrangeiros na substituição da gasolina pelo etanol e ao advento dos carros bicombustíveis (flex) no Brasil.  A volta dos plantios de cana-de-açúcar assusta.  “Estamos nos preparando para a mesma maluquice vista há 30 anos”, opina o economista Luiz Prado, ex-secretário do Meio Ambiente do Espírito Santo.

Prejuízos sociais


Se não bastasse o ressurgimento do álcool, vêm aí os novos biocombustíveis, com uma onda de plantações de mamona, milho, soja ou o grão que melhor se adapte aos processos de mercado.

Além da ameaça real de desmatamento e agrotóxicos, as benesses sociais prometidas pelo governo também se mostram duvidosas.  O economista Luiz Prado lembra que, mesmo para o pequeno produtor rural, os gastos com esse tipo de cultura podem ser enormes.  “A logística que o ciclo envolve custa muito dinheiro e não foi computada.  Imagina quanto um produtor de mamona, por exemplo, terá de se deslocar até chegar a uma máquina de processamento da semente.  Ele ainda precisará levar o óleo ao local em que a Petrobras vai misturá-lo ao diesel.  Mais de 50% do lucro é gasto com transporte”, avalia.

Prado não se baseia apenas nos argumentos econômicos.  No âmbito social, a fabricação de biodiesel também não parece um negócio da China.  “Os agricultores ficarão nas mãos das grandes empresas de processamento de sementes.  Haverá uma concentração da renda e da propriedade rural.  Além disso, o sistema de produção pode contribuir para o êxodo de populações para as periferias urbanas”, ressalta.  A concorrência pelo uso da terra também incomoda o economista.  Ele prevê que os alimentos ficarão mais caros devido à expulsão das culturas para longe dos maiores centros consumidores.  Mais uma vez, o transporte seria vilão dos altos preços.

Nem social nem ambiental, o biodiesel soa como promessa furada.  Já vimos esse filme.

Aline Ribeiro 

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