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Editorial Gazeta do Povo: Agricultura energética

Muito próximo de alcançar a marca histórica da auto-suficiência em petróleo, o Brasil dá ao mesmo tempo outro grande passo para tornar-se definitivamente um país inovador na produção de combustíveis, com repercussões mundiais.
Gazeta do Povo 3 min de leitura
Muito próximo de alcançar a marca histórica da auto-suficiência em petróleo, o Brasil dá ao mesmo tempo outro grande passo para tornar-se definitivamente um país inovador na produção de combustíveis, com repercussões mundiais. E o faz aproveitando suas condições naturais de solo e clima e de disponibilidade de terras – fatores tão propícios ao cultivo de plantas oleaginosas com os quais não conta a grande maioria dos países.

Adicionados ao diesel, os óleos vegetais produzidos a partir da mamona, da soja ou do girassol tornarão o caro derivado de petróleo, que hoje movimenta as frotas de ônibus e caminhões, muito menos poluente e, ao mesmo tempo, quantitativamente menos necessário. Se consideradas apenas estas duas vantagens da adição, o país poderá economizar US$ 1,5 bilhão por ano em petróleo e ganhar muito mais do que isto com a produção de excedentes exportáveis.

As pesquisas técnico-científicas desenvolvidas em instituições brasileiras apontam para a completa viabilidade econômica e tecnológica da utilização dos biocombustíveis, o que já propiciou largo interesse por parte de países comprometidos com os ditames do Tratado de Kyoto, que os obriga a reduzir drasticamente os índices de emissão de poluentes. E mais: interessados também em reduzir sua dependência de petróleo, sempre sujeitos aos humores da conflituosa e instável política internacional.

Pelo fato de o Brasil reunir todas aquelas condições naturais e por já ter desenvolvido a tecnologia apropriada e, ao mesmo tempo, pela oportunidade que a conjuntura mundial lhe oferece atualmente, tem razão o presidente Lula em proclamar a paráfrase “o biocombustível é nosso”. Embora o ufanismo pudesse ter sido evitado, não há dúvida de que o lançamento oficial e comercial do programa, na semana passada, em Brasília, teve o condão de marcar a data em que o país deu início a um novo período de sua história – assim como foi histórica a data em que, por meio da criação da Petrobrás, se proclamou a sentença “o petróleo é nosso”.

O biodiesel junta-se ao programa do álcool anidro – este também uma “invenção” brasileira como combustível automotivo. Ambos os casos vinculam-se à vocação agrícola do Brasil, modernizada pela grande expansão do agronegócio, o grande motor da riqueza do interior. Como efeito suplementar, mas não menos importante, devem ser contados os benefícios de caráter social que advirão.

Somente na região Nordeste, onde se concentrarão os maiores plantios da mamona, principal matéria-prima do óleo combustível, pelo menos 65 mil famílias de assentados da reforma agrária já contam com uma fonte segura de emprego e renda. Até o fim do ano que vem prevê-se que serão 250 mil as famílias que poderão viver do cultivo e da pré-industrialização da planta.

A agricultura energética brasileira apresenta-se, pois, como uma grande oportunidade para profundas mudanças econômicas, sociais e ambientais, com repercussões planetárias. E o Brasil, diante do previsível esgotamento da matriz mundial representada pelo petróleo, está chegando à frente desse tempo.
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