Biodiesel: Estranha coincidência
No dia 30 de setembro, quatro tiros foram disparados contra o laboratório da USP em Ribeirão Preto, onde são realizadas pesquisas sobre o biodiesel, combustível alternativo que mistura álcool com óleos vegetais, como os de mamona, soja, girassol e dendê.
"Disparar quatro tiros contra uma pessoa... O criminoso não está com intenção de apenas amedrontar", diz o delegado Marcos César Borges.
A polícia acredita que o motivo do atentado tenha sido uma denúncia feita pelo químico Miguel Dabdoub, professor da USP de Ribeirão Preto. Ele afirmou que ex-alunos dele teriam se apropriado dos resultados da pesquisa com o biodiesel. Os alunos deixaram a universidade em maio para criar uma empresa e teriam levado com eles segredos industriais.
"O fato de ser uma instituição pública não dá o direito de que qualquer cidadão obtenha de forma indevida o que é de propriedade da sociedade", afirma Miguel Dabdoub.
Os ex-alunos admitem ter criado a empresa para prestar assessoria na área de biodiesel, mas negam que tenham roubado os segredos de produção do combustível.
"Tudo o que a gente está divulgando que sabe é de domínio público", diz o ex-aluno Felipe Binhardi de Aguiar.
Em 14 anos, a USP já investiu mais de R$ 2 milhões em pesquisas para produzir um combustível renovável e não poluente. O Brasil, maior produtor de cana do mundo, aposta em uma fórmula exclusiva, misturando o álcool com vários vegetais.
O biodiesel pode abastecer carros, caminhões, ônibus e locomotivas. O Brasil é movido a diesel. Consome, por ano, 50 bilhões de litros. Produzir o biodiesel não é só uma estratégia contra uma eventual crise do petróleo. é também o domínio de uma tecnologia que pode valer R$ 50 bilhões.
Na Europa, já rodam carros movidos a biodiesel. E é naquele mercado que o Brasil está de olho. Uma lei ambiental prevê que, até 2010, 20% dos veículos da comunidade européia terão que usar combustíveis renováveis. Uma boa possibilidade para o país exportar um bilhão de litros por ano.
“Se houver uma política pública adequada, com certeza o Brasil poderá se transformar na Arábia Saudita verde do mundo", acredita o professor Miguel Dabdoub.
O mercado internacional ficou agitado esta semana depois que o preço do petróleo atingiu um novo recorde: US$ 53,40 o barril em Nova York. A situação é quase tão grave quanto em 1973, na primeira grande crise do petróleo. Na época, o barril chegou a US$ 60, em valores de hoje, corrigidos pela inflação.
O brasileiro já está sentindo no bolso. "Nunca vi a gasolina baixar. Só vejo a gasolina aumentar", reclama um consumidor.
Para se defender de novos aumentos nos combustíveis, tem gente apostando na conversão do motor a gasolina em biocombustível. "é um aparelho que pode fazer com que o carro ande só na gasolina, só no álcool ou na mistura de ambos os combustíveis”, explica o empresário Luciano Lemos.
O aparelho já está sendo chamado de kit flex. A tecnologia flex, ou biocombustível, já vem de fábrica em vários modelos nacionais desde 2003, mas só recentemente chegou ao mercado para instalação em carros usados.
"O módulo é instalado em algum lugar no compartimento do motor do veículo”, diz o mecânico Rodrigo Vilhena.
O kit flex custa, em média, R$ 600 e só funciona em carros com injeção eletrônica multiponto. A grande maioria dos clientes faz a conversão para usar somente o álcool . Veja a diferença de preço em um posto no Rio: R$ 1,24 o litro do álcool contra R$ 1,99 da gasolina. Na ponta do lápis, uma economia de 30%, mesmo com o aumento no consumo de álcool , que rende menos.
“O álcool gasta mais, mas como o preço dele é muito mais baixo do que o da gasolina, eu acabo ganhando no preço”, calcula o empresário Arnaldo Pulcherio Neto.
O gás natural continua sendo o combustível mais barato, mas, na opinião de alguns clientes, o carro biocombustível tem vantagens.
“Pelo valor, pelo custo/benefício, a possibilidade de não furar a mala do carro, e por você poder manter as características originais do veículo”, justifica um motorista.


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