BiodieselBR
Publicidade

[Video] Pinhão-manso: Rendimento, pesquisas e sementes

Pinhão-mansoMinas Gerais pode ser considerado o coração do pinhão-manso no Brasil e a reportagem percorreu o estado para mostrar como estão as pesquisas com a planta, o rendimento, detalhes das sementes e muitas outras dúvidas
BiodieselBR.com 9 min de leitura
Minas Gerais pode ser considerado o coração do pinhão-manso no Brasil e a reportagem percorreu o estado para mostrar como estão as pesquisas com a planta, o rendimento, detalhes das sementes e muitas outras dúvidas

Pinhão-manso - Video disponível apenas para assinantes

A produção de biodiesel no Brasil ainda usa basicamente a soja e o sebo de boi como matérias-primas. Mas existem outras plantas que revelam grande potencial na extração de óleo. O pinhão manso é uma dessas alternativas.

Para saber mais sobre essa árvore, o Globo Rural percorreu várias regiões de Minas Gerais.

Muito tempo antes da energia elétrica, a lamparina era uma das poucas fontes de luz na roça. Acender o fogo era um ritual, até o óleo ficar pronto.

“Fazia o óleo e colocava na lamparina. Iluminava a casa e usava a tocha também, com iluminar as estradas, por causa de cobra”, contou o agricultor Antônio Moreira.

O sabão usado para lavar roupa também seguia o mesmo processo: sementes quebradas no pilão, água quente e muito tempo mexendo até a massa ficar pronta para ser embrulhada.



A matéria-prima do óleo de lamparina e do sabão era o pinhão manso. Fruto da mesma família da mamona, as euforbiácias, o pinhão manso tem o nome científico de Jatropha curcas, e ainda é uma planta pouco conhecida, como conta a agrônoma Eloísa Saturnino.

“Em termos agronômicos, ela é muito pouco estudada. Praticamente está sendo estudada nos últimos 30 anos e é uma planta selvagem sendo adaptada para o cultivo”, disse Eloísa.

A árvore é nativa da América. Ocorre em praticamente todo o Brasil, com maior concentração na faixa que vai de Minas Gerais ao Nordeste. É um arbusto perene, que cresce até uns cinco metros de altura. Aos quatro anos a planta já está adulta e produz cerca de quatro mil quilos de frutos por ano.

A polinização é feita por abelhas, vespas e formigas. A árvore produz tanto flores femininas quanto masculinas. A masculina, que contém o pólen, se abre apenas por um dia e poliniza a flor feminina, que vai gerar o fruto. A produção ocorre durante oito meses por ano. Quer dizer que é possível encontrar cachos maduros, verdes e até flores na mesma planta.

A doutora Eloísa trabalha na Epamig, Empresa de Pesquisas Agropecuárias de Minas Gerais em Nova Porteirinha. É onde se concentram os estudos sobre essa planta, no Estado.

“Ele tem o nome de pinhão manso porque não explode. A mamona, por exemplo, estoura, vai longe e a casca vai para outro lado. O pinhão manso cai na projeção da copa. Ele sai o fruto inteiro”, esclareceu a doutora Eloísa.

Quando seca, o pinhão racha e mostra as sementes: três por fruto.

Os primeiros trabalhos da Epamig com o pinhão manso aconteceram ainda na década de 80, mas duraram pouco, perto de dois anos e meio. É que a falta de recurso interrompeu a pesquisa.

Os trabalhos foram retomados em 2004 por causa do potencial da semente do pinhão manso para a produção de óleo. A planta gosta de sol e resiste à seca. Agüenta até três anos seguidos com pouca chuva. Produz menos, mas não morre.

“Eu vejo um paradoxo com pinhão manso. Alguns falam que ele tolera bem o solo de baixa fertilidade. Mas o que temos visto na pesquisa é que a planta responde à adubação, ou seja, se não adubar ela desenvolve com baixa produtividade. Com a aplicação dos adubos a produtividade pode dobrar e até triplicar”, explicou José Tadeu Alves, agrônomo da Epamig.

A pesquisa também está testando a produção de pinhão manso em diferentes espaçamentos. A distância entre linhas é sempre a mesma: três metros. O espaço entre plantas, na mesma linha, é que muda. Pode ser de 50 centímetros, muito usado em cerca viva, de um metro e meio e de até três metros. O resultado, em termos de produtividade de sementes, não é conclusivo.

“Ainda não deu para perceber a diferença. Mas acredito que mais para frente vai dar mais diferença”, falou a doutora Eloísa.

Até agora as principais pragas encontradas são o acaro branco e a cigarrinha verde. “Tem pragas e doenças que atacam o pinhão manso. Então, precisamos trabalhar o sistema de doenças que ofereça um custo menor ao produtor”, disse Nívio Poubel, agrônomo da Epamig.

O Chefe da estação da Epamig, Marco Antônio Viana Leite, é otimista, porém cauteloso. Ele acredita que ainda é cedo para incentivar o cultivo comercial do pinhão manso. “Se pensarmos em termos de cana-de-açúcar, quando começou, se produzia 1,2 mil litros de álcool por hectare. E hoje produz seis toneladas. Então, precisamos investir em pesquisa, em tecnologia, em geração de conhecimento”, disse.

A pesquisa ainda busca respostas. Mas já tem gente fazendo o plantio do pinhão manso de forma comercial. O agricultor Nagashi Tominaga está investindo na produção de sementes no município de Janaúba, ao lado de Nova Porteirinha. Ele confia na rusticidade da planta.

“É uma árvore que não depende do regime de chuva. Se errar no momento de semeação, de germinar e vier um veranico, ele mata. No caso da árvore não. A árvore vai continuar no momento de inflorescência e de maturação. Essa é a grande vantagem que chegamos a concluir”, falou Tominaga.

O sonho do seu Tominaga começou a virar realidade em 2004, quando ele arrendou a área de dez hectares e plantou 8,5 mil pés de pinhão manso. Com mais dois sócios, criou uma empresa para vender sementes. Boa parte do material usado para reproduzir vem de árvores escolhidas a dedo na região. Uma delas, com oito anos de idade, fica no sítio do agricultor Gonçalo Pereira. É uma árvore grande, bonita e muito produtiva, mesmo sem adubação.

As sementes do seu Tominaga são vendidas para todo o Brasil. Em Barbacena, a 780 quilômetros de Janaúba, há agricultores comprando e plantando as sementes. Na região, uma usina de biodiesel está incentivando o plantio de pinhão manso entre os pequenos produtores. As mudas são de cinco viveiros com capacidade de reproduzir um milhão de unidades por ano.

“Nós temos a parceria dos municípios que estão começando a produzir. A Refinaria Nacional de Petróleo Vegetal em Barbacena entre com insumos, sacolinhas, adubo e a sementes. E os municípios entram com a estrutura do viveiro e com a mão-de-obra para a produção de mudas”, explicou Luciano Piovesan, diretor da usina.

Além das mudas, a usina fornece assistência técnica. O agricultor entra com a mão-de-obra e o adubo. A maior parte dos produtores da região escolheu fazer o plantio do pinhão manso no espaçamento largo. São cerca de quatro metros entres linhas e três entre plantas. A idéia é aproveitar as ruas para o cultivo consorciado com outras culturas. O pessoal já está tirando a primeira safra de milho.

Quem conta é o agricultor Paulo Lélis. O sítio da família fica no município de Canaã. Há dois anos, ele resolveu plantar o pinhão manso. “Aqui temos uma boa colheita e vai girar em torno de quatro anos. Durante esses quatro anos, para a terra não ficar parada, eu usei o consórcio com o milho. Depois de tirar do milho, vou plantar feijão. Vamos ficar fazendo isso até dificultar o trabalho com o trator e não tiver como plantar. Aí vou plantar baquearia e criar carneiro”, disse.

O agricultor Paulo Afonso de Freitas fez o primeiro plantio há dois anos. Ele resolveu diversificar e ter mais uma fonte de renda. Os custos para formar a lavoura estão na ponta do lápis. “Até agora seis hectares estão em torno de R$ 1,85 por pé. Isso é um custo médio”, avaliou.

O seu Paulo tem contrato com a usina para vender toda a produção por oito anos. O preço médio é de R$ 380,00 a tonelada. Quando a lavoura chegar a quatro anos a previsão é faturar em torno de R$ 1,2 mil por ano por hectare com pinhão manso.

A usina em Barbacena já está recebendo frutos das primeiras safras de pinhão manso. Como a escala ainda é pequena, o que chega não é suficiente para a produção industrial do óleo. O jeito é usar outros produtos, mesmo que o resultado não seja o esperado.

A grande vantagem do pinhão manso está no rendimento. Cem quilos de caroço de algodão produzem 18 quilos de óleo. A mesma quantidade de soja pode render até 20 quilos. De cem quilos de pinhão manso dá para extrair 38 quilos de óleo.

‘Nós temos a capacidade para 40 mil litros/dia. Estamos produzindo atualmente em torno de seis mil litros. Hoje, para atingir os 40 mil litros, falta área plantada”, disse Luciano Piovesan.

Para a usina operar só com o pinhão manso a parceria com os pequenos produtores é essencial. Por isso, até o dono da usina, Roberto Bertoli, percorre os municípios da região para convencer os agricultores.

Precisa mesmo de muita lábia para vencer a desconfiança. “Estou aguardando para ver o custo e a produção. Eu devo plantar”, disse o agricultor Juarez Vital.

“Num primeiro momento é difícil convencer o agricultor porque o produtor conhece o pinhão manso como uma árvore nativa da propriedade isolada como plantio comercial. Então, até entender a cultura como uma atividade comercial, ele fica um pouco desconfiado”, falou Luciano Piovesan.

Hoje, a usina já conta com quase 500 agricultores parceiros em 25 municípios. São quase dois mil hectares plantados com pinhão manso. O agricultor Antonio Moreira e a dona Maria Shirlei Moreira adeririam ao projeto e plantaram 800 pés de pinhão manso.

“Eu não achei esquisito plantar porque a gente tem que plantar de tudo. Quando está ruim, a gente vai para outro lado. Não tenho medo de arriscar”, justificou seu Antonio.

Por enquanto, cada agricultor avalia os riscos, faz contas e suas apostas. Ainda é cedo para saber se o uso do pinhão manso no programa do biodiesel, mas se essa plantinha de uso tao antigo render tudo que promete ela ainda pode dar muito que falar num mundo cada vez mais carente de fontes de energia.

Hoje, noventa e nove por cento do biodiesel no país vem da soja e do sebo bovino. As outras matérias-primas, como a mamona e o pinhão manso, dão juntas apenas 1% do total.

Globo Rural
Compartilhar:

Artigos relacionados