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Pinhão-manso: rituais vodu no Haiti consideram planta milagrosa

Por muitas gerações, os praticantes de vodu da área rural do Haiti acreditaram nas propriedades místicas do pinhão-manso, uma planta nativa vista como capaz de expurgar maus espíritos e liberar as almas aprisionadas dos mortos.
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Por muitas gerações, os praticantes de vodu da área rural do Haiti acreditaram nas propriedades místicas do pinhão-manso, uma planta nativa vista como capaz de expurgar maus espíritos e liberar as almas aprisionadas dos mortos.

Por muitas gerações, os praticantes de vodu da área rural do Haiti acreditaram nas propriedades místicas do pinhão-manso, uma planta nativa vista como capaz de expurgar maus espíritos e liberar as almas aprisionadas dos mortos. Em pouco tempo, porém, esse arbusto pode passar a ter maior demanda entre os vivos.

O pinhão-manso apresenta grande potencial como fonte de biocombustível na América Latina e Caribe, especialmente no Haiti, que sofre de carências crônicas de óleo diesel, eletricidade e praticamente tudo o que você imaginar, à exceção desse arbusto.

É sabido há décadas que as sementes oleaginosas da Jatropha curcas, uma vez esmagadas e processadas, podem ser uma ótima fonte de energia. Mas agora a planta supostamente milagrosa está despertando grande interesse, à medida que o preço do petróleo dispara e chegam notícias de usinas elétricas na Índia e Japão sendo abastecidas com pinhão-manso.

Os Estados Unidos e o Brasil assinaram um acordo no ano passado para ajudar Haiti, República Dominicana, El Salvador e São Cristóvão e Neves a explorar o potencial do pinhão-manso e outras plantas apropriadas para a produção de biodiesel. Cientistas dos dois países visitaram o Haiti para estudar as perspectivas de cultivo comercial da planta.

“O pinhão-manso oferece uma grande oportunidade para o Haiti”, diz Mark Lambrides, chefe da divisão de energia e mudança do clima da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Há pinhão-manso (gwo medsiyen, em crioulo haitiano) por todo lado no país. Há séculos a planta faz parte do arsenal medicinal dos sacerdotes e sacerdotisas vodus. Eles a utilizam como remédio para constipação e acne, em banhos rituais e em funerais, para banir os maus espíritos.

Praticantes de vodu acreditam que ela também pode ser usada para causar mal a inimigos, através de magia. A semente tóxica é colocada em lampiões de querosene, e quanto maior for a duração da queima, maior será a duração do feitiço.

Produtores rurais haitianos também usam o pinhão-manso como cerca-viva, para repelir cabras que comem as plantações. O gosto amargo da planta repele os animais. E como a planta é altamente tóxica, não existe o dilema – como acontece com o milho e a cana-de-açúcar – sobre destinar as sementes para alimentação ou para abastecer um motor diesel.

Em nenhum outro local da região a necessidade de encontrar uma fonte renovável de energia é mais crucial que no Haiti, onde o abastecimento de energia é instável e muitas vezes inexistente. Décadas de desmatamento visando a obtenção de carvão vegetal transformaram a paisagem outrora pujante do Haiti em um desastre ambiental.

No ano passado, o Haiti importou cerca de 200 milhões de dólares em óleo diesel, usado em partes iguais para transporte e alimentação de geradores. De acordo com estudo do governo americano, a companhia elétrica do Haiti mal consegue gerar eletricidade suficiente para suprir a capital Porto Príncipe por oito horas diárias, consumindo mensalmente cerca de 13 milhões de litros de diesel e 830 mil litros de outros óleos combustíveis. Como conseqüência, os haitianos mais ricos recorrem a geradores.

A situação é bem pior fora da capital. Pouco mais de 10% dos quase nove milhões de habitantes do país possuem acesso à limitada oferta de eletricidade do governo, de acordo com a estatal Electricité d’Haiti.

Mas o pinhão-manso, que cresce até quase 4 metros de altura, pode fazer mais que preencher parte das necessidades energéticas do país. Pode também ajudar a reflorestar um país que foi devastado pelo desmatamento fora de controle.

O pinhão-manso pode ser cultivado em lugares onde outras culturas não conseguem se desenvolver.

“Há cerca de 600 mil hectares de terra árida ou seca, que são apropriadas para plantações de pinhão-manso e criariam milhares de empregos no campo”, diz Reginald Noel, pioneiro dos biocombustíveis no Haiti, que possui um carro movido a biodiesel.  “Podemos satisfazer nossas necessidades energéticas neste país e distribuir renda para nossos agricultores.”

Johanna Mendelson-Forman concorda. Ela tem sido uma das grandes defensoras do potencial do pinhão-manso como fonte de combustível, discorrendo sobre os benefícios da implantação da cultura em congressos nos Estados Unidos e na América Central, onde a planta é conhecida como “piñon blanco”.

Ela acredita que o pinhão-manso pode literalmente iluminar a ilha de Hispaniola, que abriga também o território da República Dominicana.

“Mesmo que se colhesse apenas o que vem sendo usado como cercamento, você ainda conseguiria volume suficiente para produzir óleo para vilarejos”, diz ela.

Mas nem todo mundo está contente com a importância crescente do pinhão-manso.

A sacerdotisa vodu Immacula Jean planta o arbusto ao lado de seu casebre, em uma estrada de terra do município de Douret. Ela oferece banhos rituais com pinhão-manso, para expurgar maus espíritos ou proporcionar boa sorte, cobrando entre 50 e 75 dólares.

Seus serviços, segundo ela, são bastante requisitados em funerais em que os membros da família acreditam que a morte foi resultado de uma maldição. Antes do corpo ser enterrado, um pedaço do arbusto é cortado e colocado sob a cabeça do morto. Quando está sendo abaixado até o túmulo, Jean bate com um galho da planta no caixão para expulsar o zumbi, ou espírito mau, e libertar a alma da pessoa amada.

Sobre a perspectiva do pinhão-manso se tornar uma fonte importante de biodiesel, ela disse: “Não gosto da competição.”

The Guardian
Tradução e adaptação BiodieselBR.com
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