A olho nu, as microalgas são aquelas plantinhas que dão a coloração –
normalmente esverdeada – à água do mar. Sob o microscópio, as mais de
30 mil espécies conhecidas pelos cientistas são tão diferentes umas das
outras quanto um abacateiro se distingue do capim numa paisagem.
A nova fronteira na busca por combustíveis menos poluentes e mais rentáveis está no ambiente microscópico. A promessa do momento são as microalgas marinhas. Até recentemente, elas serviam como comida de camarão e eram úteis na composição de cosméticos. Agora mudaram de status e ganharam o pomposo apelido de “petróleo verde”. A olho nu, as microalgas são aquelas plantinhas que dão a coloração – normalmente esverdeada – à água do mar. Sob o microscópio, as mais de 30 mil espécies conhecidas pelos cientistas são tão diferentes umas das outras quanto um abacateiro se distingue do capim numa paisagem. Algumas espécies têm vocação para a produção de biocombustíveis alternativos ao petróleo.
As microalgas apresentam vantagens em relação à soja, a principal matriz de biodiesel no Brasil. São produzidas em tanques de água salgada. O espaço que ocupam para a obtenção da mesma quantidade de combustível é um centésimo do ocupado pela soja. Para produzi-las, não é preciso desmatar nem ocupar terras destinadas à produção de alimentos. Os tanques podem ser instalados em lugares onde a terra não é fértil. E, é claro, as microalgas não fazem parte de nosso cardápio. A produtividade é outra vantagem. Entre 20% e 50% da massa das microalgas pode ser usada para a produção de óleo. Nas matrizes concorrentes, como soja, milho ou girassol, apenas a semente tem utilidade. Caule, galhos e folhas vão para o lixo. Há também benefícios em relação ao uso da água, um dos recursos naturais mais ameaçados. Por motivos óbvios, as microalgas não precisam ser regadas. Suas únicas necessidades são a luz do sol e o gás carbônico, o maior vilão do aquecimento global.
O potencial das microalgas para produzir combustíveis é conhecido desde a década de 80, mas o interesse por elas ganhou força com a alta do preço do barril do petróleo entre 2007 e 2008, depois de alguns anos de calmaria. De lá para cá, começou uma corrida científica milionária para tirar as microalgas dos laboratórios e produzi-las em escala comercial.
A empresa americana Sapphire Energy levantou US$ 100 milhões com investidores particulares, entre eles Bill Gates, fundador da Microsoft, para um centro de produção de combustíveis de microalgas no Estado do Novo México. As obras deverão começar no ano que vem. A Exxon Mobil, gigante do petróleo, anunciou no começo deste ano um investimento de US$ 600 milhões nas microalgas. Pelo menos metade desses recursos vai para a empresa do biólogo Craig Venter, conhecido como um dos pioneiros no projeto que mapeou o genoma humano e apontado duas vezes pela revista Time como um dos homens mais influentes do mundo.
Ao escolher Venter para tocar suas pesquisas, a Exxon quer promover modificações genéticas nas microalgas para, assim, aumentar sua produtividade. A intenção é criar algas com maior quantidade de lipídios em sua formação. Os lipídios são a porção que pode ser transformada em óleo. Pesquisas do próprio Venter com microalgas já conseguiram produzir organismos com lipídios em praticamente metade de sua biomassa. “As algas são o sistema biológico perfeito para captar luz solar e transformar dióxido de carbono em combustível”, diz Venter. Com a produtividade maior, a intenção da Exxon é tornar-se a primeira empresa a produzir combustível de microalgas em escala comercial.
A Solazyme, outra empresa americana, recebeu investimentos milionários para desenvolver combustíveis de microalgas e já fechou acordo com o Exército para produzir 22.000 galões de biodiesel até 2010. Para atrair mais investidores, seus principais diretores partiram para a reunião mundial de Copenhague. Circulam pela cidade com um carro que, segundo eles, é movido exclusivamente por combustíveis produzidos com algas. Correndo por fora, há universidades e empresas de países como Espanha, Israel, Inglaterra e Canadá. O governo brasileiro deu, no fim do ano passado, os primeiros sinais de que pretende incluir as microalgas na lista de matrizes energéticas do país. O Ministério da Ciência e Tecnologia lançou um edital por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para projetos de pesquisa sobre o potencial energético das microalgas. Dos 63 projetos apresentados, 11 foram selecionados e mais quatro deverão entrar na lista de beneficiados até o ano que vem. As cifras estão muito aquém das investidas nos Estados Unidos. Os projetos nacionais, todos de universidades, dividirão R$ 4,5 milhões em três anos.
O coordenador da comissão que julgou os projetos, o biólogo Sergio Lourenço, é um dos maiores especialistas brasileiros no assunto e pesquisa as microalgas há pelo menos 20 anos num pequeno laboratório no 2o andar do Instituto de Biologia da Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Divide o pequeno espaço com centenas de tubos de ensaio com amostras variadas de microalgas encontradas no litoral brasileiro. Segundo ele, apesar dos poucos investimentos, o Brasil tem vocação natural para o cultivo de microalgas em larga escala. “Temos vastas porções de terra no país que são imprestáveis para a agricultura”, afirma Lourenço. “O Semiárido brasileiro é um exemplo. Possui água salobra no subsolo e recebe sol praticamente o ano inteiro.”
A Petrobras mantém pesquisas com microalgas desde 2006, em parceria com universidades do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte. Ela investirá US$ 530 milhões em biocombustíveis nos próximos cinco anos, mas apenas pequena parte desses recursos será destinada às microalgas. Para o biólogo Leonardo Bacellar, pesquisador responsável pelos estudos da Petrobras sobre microalgas, a comparação com os investimentos estrangeiros é injusta. “Há muito tempo lutamos uma guerra desigual”, diz Bacellar. “Os Estados Unidos têm 50 vezes mais pesquisadores ativos. Em ciência e tecnologia não existem atalhos.”
O que mais desfavorece o Brasil é a falta de infraestrutura para produzir algas em grande escala. Nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, microalgas já são cultivadas para suprir a indústria farmacêutica e de cosméticos. Aqui, a produção de microalgas é basicamente para alimentação de peixes e crustáceos, principalmente em Santa Catarina. “O próximo passo de nossa pesquisa é aumentar a escala da produção – de tanques de 2.000 litros para tanques de 20.000 litros”, diz Bacellar. Por mais animador que seja o potencial das microalgas, há um longo caminho até que elas possam ser criadas em larga escala. O desafio dos pesquisadores em todo o mundo é diminuir o custo de produção, principalmente o consumo de energia. “Numa perspectiva otimista, precisamos de cinco anos para incluir as microalgas na lista de matrizes energéticas mundiais”, diz o biólogo Lourenço. Não é um sonho distante.

RAFAEL PEREIRA - Época
A nova fronteira na busca por combustíveis menos poluentes e mais rentáveis está no ambiente microscópico. A promessa do momento são as microalgas marinhas. Até recentemente, elas serviam como comida de camarão e eram úteis na composição de cosméticos. Agora mudaram de status e ganharam o pomposo apelido de “petróleo verde”. A olho nu, as microalgas são aquelas plantinhas que dão a coloração – normalmente esverdeada – à água do mar. Sob o microscópio, as mais de 30 mil espécies conhecidas pelos cientistas são tão diferentes umas das outras quanto um abacateiro se distingue do capim numa paisagem. Algumas espécies têm vocação para a produção de biocombustíveis alternativos ao petróleo.
As microalgas apresentam vantagens em relação à soja, a principal matriz de biodiesel no Brasil. São produzidas em tanques de água salgada. O espaço que ocupam para a obtenção da mesma quantidade de combustível é um centésimo do ocupado pela soja. Para produzi-las, não é preciso desmatar nem ocupar terras destinadas à produção de alimentos. Os tanques podem ser instalados em lugares onde a terra não é fértil. E, é claro, as microalgas não fazem parte de nosso cardápio. A produtividade é outra vantagem. Entre 20% e 50% da massa das microalgas pode ser usada para a produção de óleo. Nas matrizes concorrentes, como soja, milho ou girassol, apenas a semente tem utilidade. Caule, galhos e folhas vão para o lixo. Há também benefícios em relação ao uso da água, um dos recursos naturais mais ameaçados. Por motivos óbvios, as microalgas não precisam ser regadas. Suas únicas necessidades são a luz do sol e o gás carbônico, o maior vilão do aquecimento global.
O potencial das microalgas para produzir combustíveis é conhecido desde a década de 80, mas o interesse por elas ganhou força com a alta do preço do barril do petróleo entre 2007 e 2008, depois de alguns anos de calmaria. De lá para cá, começou uma corrida científica milionária para tirar as microalgas dos laboratórios e produzi-las em escala comercial.
A empresa americana Sapphire Energy levantou US$ 100 milhões com investidores particulares, entre eles Bill Gates, fundador da Microsoft, para um centro de produção de combustíveis de microalgas no Estado do Novo México. As obras deverão começar no ano que vem. A Exxon Mobil, gigante do petróleo, anunciou no começo deste ano um investimento de US$ 600 milhões nas microalgas. Pelo menos metade desses recursos vai para a empresa do biólogo Craig Venter, conhecido como um dos pioneiros no projeto que mapeou o genoma humano e apontado duas vezes pela revista Time como um dos homens mais influentes do mundo.
Ao escolher Venter para tocar suas pesquisas, a Exxon quer promover modificações genéticas nas microalgas para, assim, aumentar sua produtividade. A intenção é criar algas com maior quantidade de lipídios em sua formação. Os lipídios são a porção que pode ser transformada em óleo. Pesquisas do próprio Venter com microalgas já conseguiram produzir organismos com lipídios em praticamente metade de sua biomassa. “As algas são o sistema biológico perfeito para captar luz solar e transformar dióxido de carbono em combustível”, diz Venter. Com a produtividade maior, a intenção da Exxon é tornar-se a primeira empresa a produzir combustível de microalgas em escala comercial.
A Solazyme, outra empresa americana, recebeu investimentos milionários para desenvolver combustíveis de microalgas e já fechou acordo com o Exército para produzir 22.000 galões de biodiesel até 2010. Para atrair mais investidores, seus principais diretores partiram para a reunião mundial de Copenhague. Circulam pela cidade com um carro que, segundo eles, é movido exclusivamente por combustíveis produzidos com algas. Correndo por fora, há universidades e empresas de países como Espanha, Israel, Inglaterra e Canadá. O governo brasileiro deu, no fim do ano passado, os primeiros sinais de que pretende incluir as microalgas na lista de matrizes energéticas do país. O Ministério da Ciência e Tecnologia lançou um edital por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para projetos de pesquisa sobre o potencial energético das microalgas. Dos 63 projetos apresentados, 11 foram selecionados e mais quatro deverão entrar na lista de beneficiados até o ano que vem. As cifras estão muito aquém das investidas nos Estados Unidos. Os projetos nacionais, todos de universidades, dividirão R$ 4,5 milhões em três anos.
O coordenador da comissão que julgou os projetos, o biólogo Sergio Lourenço, é um dos maiores especialistas brasileiros no assunto e pesquisa as microalgas há pelo menos 20 anos num pequeno laboratório no 2o andar do Instituto de Biologia da Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Divide o pequeno espaço com centenas de tubos de ensaio com amostras variadas de microalgas encontradas no litoral brasileiro. Segundo ele, apesar dos poucos investimentos, o Brasil tem vocação natural para o cultivo de microalgas em larga escala. “Temos vastas porções de terra no país que são imprestáveis para a agricultura”, afirma Lourenço. “O Semiárido brasileiro é um exemplo. Possui água salobra no subsolo e recebe sol praticamente o ano inteiro.”
A Petrobras mantém pesquisas com microalgas desde 2006, em parceria com universidades do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte. Ela investirá US$ 530 milhões em biocombustíveis nos próximos cinco anos, mas apenas pequena parte desses recursos será destinada às microalgas. Para o biólogo Leonardo Bacellar, pesquisador responsável pelos estudos da Petrobras sobre microalgas, a comparação com os investimentos estrangeiros é injusta. “Há muito tempo lutamos uma guerra desigual”, diz Bacellar. “Os Estados Unidos têm 50 vezes mais pesquisadores ativos. Em ciência e tecnologia não existem atalhos.”
O que mais desfavorece o Brasil é a falta de infraestrutura para produzir algas em grande escala. Nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, microalgas já são cultivadas para suprir a indústria farmacêutica e de cosméticos. Aqui, a produção de microalgas é basicamente para alimentação de peixes e crustáceos, principalmente em Santa Catarina. “O próximo passo de nossa pesquisa é aumentar a escala da produção – de tanques de 2.000 litros para tanques de 20.000 litros”, diz Bacellar. Por mais animador que seja o potencial das microalgas, há um longo caminho até que elas possam ser criadas em larga escala. O desafio dos pesquisadores em todo o mundo é diminuir o custo de produção, principalmente o consumo de energia. “Numa perspectiva otimista, precisamos de cinco anos para incluir as microalgas na lista de matrizes energéticas mundiais”, diz o biólogo Lourenço. Não é um sonho distante.

RAFAEL PEREIRA - Época