BiodieselBR
Publicidade

Petróleo de algas promete combustível do futuro

Imagine uma indústria totalmente nova com poder de revolucionar o consumo mundial de energia e a indústria do petróleo. E de quebra contribuir para a diminuição do aquecimento global.
BiodieselBR.com 6 min de leitura
Imagine uma indústria totalmente nova com poder de revolucionar o consumo mundial de energia e a indústria do petróleo. E de quebra contribuir para a diminuição do aquecimento global.

Um combustível líquido derivado de plantas, quimicamente idêntico ao petróleo bruto, mas que não contribui para o aquecimento global quando queimado e, ao contrário de outros biocombustíveis, não precisa de terras agrícolas para ser produzido. Parece bom demais para ser verdade. Mas é isso que uma empresa de San Diego, na Califórnia, diz ter desenvolvido: uma versão sustentável do petróleo, que ela batizou como “green crude” (“petróleo verde” em português).

Grandes investidores já estão abrindo seus talões de cheques: a Sapphire levantou um total de US$ 50 milhões (cerca de R$ 78 milhões) em capital de risco nas últimas semanas, a maior quantia até hoje para uma empresa de biotecnologia trabalhando com algas, valor que inclui um aporte significativo da britânica Wellcome Trust (um fundo beneficente que financia pesquisas na área de saúde humana e animal).

As algas são consideradas por muitos especialistas uma promissora fonte de combustível ecológico para o futuro: incluindo desde organismos unicelulares até algas marinhas de grande porte, as algas são a forma de vida vegetal mais abundante do planeta. Elas são extremamente eficientes em usar luz solar e dióxido de carbono do ar para, via fotossíntese, produzir matéria orgânica como açúcares, proteínas e, sob as condições adequadas, óleos.

Yusuf Christi, da Universidade Massey, na Nova Zelândia, estima que as algas podem chegar a produzir cem mil litros de biodiesel por hectare/ano, enquanto o óleo de palma, atualmente o biocombustível de maior produtividade, produz seis mil litros por hectare/ano.

As arrecadações se multiplicaram depois que a empresa alcançou, recentemente, seu maior feito até o momento: refinar gasolina de alta octanagem a partir do seu petróleo verde. “A gasolina resultante é completamente compatível com a infra-estrutura atual, o que significa que nenhum ajuste precisa ser feito nos carros dos consumidores”, disse um porta-voz da Sapphire.

Como vantagem adicional, a gasolina produzida não contém agentes contaminantes como enxofre, nitrogênio e benzeno, presentes no petróleo comum, e a empresa acredita que o custo de seu combustível será compatível com o dos equivalentes fósseis existentes no mercado.

Várias empresas de biotecnologia estão trabalhando no uso de algas para produzir etanol ou variedades de biodiesel capazes de substituir os combustíveis de transporte tradicionais e evitar o problema do uso de matérias-primas de origem agrícola. Para um porta-voz da Sapphira, as algas evitariam o uso de terras agricultáveis, usadas para produzir alimentos. “O processo pode utilizar terras não-agricultáveis e água não-potável, gerando de dez a cem vezes mais energia por hectare que os biocombustíveis derivados de plantas.”

O que diferencia a Sapphire de outras empresas trabalhando com algas é que seu objetivo não é produzir biocombustíveis tradicionais, como etanol e biodiesel. Em vez disso, seus cientistas se inspiraram no modo como o petróleo se formou há milhões de anos atrás.

“Há muito tempo, quando as algas deram origem aos hidrocarbonetos de cadeia longa, como o diesel e outros petróleos pesados, a biomassa foi soterrada e comprimida, formando petróleo”, disse Steven Skill, que conhece o trabalho desenvolvido pela Sapphire e pesquisa como as algas podem ser usadas para criar compostos orgânicos no Laboratório Marinho de Plymouth. “As algas sintetizam esses hidrocarbonetos de cadeia longa dentro de suas células.”

A empresa não revelou detalhes sobre o tipo de alga que está utilizando, mas Skill acredita que provavelmente se tratem de cianobactérias geneticamente modificadas, também chamadas de algas azuis. Esses organismos podem se multiplicar rapidamente (alguns florescimentos podem dobrar de massa em apenas uma hora), mesmo em altas temperaturas, e algumas variedades podem até mesmo fixar nitrogênio do ar para gerar seu próprio fertilizante.

“A Sapphire alega que pode criar diversos produtos com a variedade de algas com a qual estão trabalhando”, disse Skill. O próximo passo, segundo ele, depende de desenvolver sistemas de cultivo e engenharia economicamente viáveis.

Produção comercial
John Loughhead, diretor-executivo do Centro de Pesquisa Energética do Reino Unido, declarou que as pesquisas com algas são uma parte crucial do trabalho para desenvolver fontes de energia limpas no futuro. “Eu diria que é uma ótima idéia, mas a questão é se eles realmente têm condições de conseguir algo de prático de forma eficiente. A questão-chave é a eficiência com que o processo acontece.”

“Eles também estão enfrentando o dilema clássico dos combustíveis renováveis: lidar com a fonte suprema de energia, o sol, que é bastante irregular, de forma que você só consegue perto de 0,5 KW por metro quadrado em condições de pico. E serão necessárias fazendas enormes, com áreas muito vastas”, acrescenta Loughhead.

As algas podem ser facilmente cultivadas em tanques abertos, mas esse processo resulta em florescimentos de baixa densidade, e portanto em uma forma ineficiente de gerar grandes quantidades de energia. Skill acha que a empresa precisaria de avanços na tecnologia dos chamados biorreatores para conseguir uma transição bem-sucedida à produção comercial.

Fotobiorreatores são tanques fechados que em teoria podem prover luz em abundância e condições planejadas para permitir o cultivo intensivo dos microorganismos. Várias equipes em todo o mundo estão testando instalações para cultivo de algas, mas nenhuma até o momento conseguiu chegar ao mercado.

Crucial também para fazer o petróleo verde comercialmente viável é utilizar os outros subprodutos gerados no processo. “Você provavelmente conseguirá transformar em petróleo até 40% em peso da alga, e terá 60% de resíduo contendo vários componentes valiosos para ser usados como matéria-prima química.”

“Esses ingredientes extras, como gorduras, açúcares e proteínas, poderiam ser usados para alimentação animal ou mesmo para substituir outros derivados de petróleo usados em várias indústrias, desde a de cosméticos até a de plásticos.”

A Sapphire espera chegar ao estágio de produção comercial do petróleo verde dentro de três a cinco anos. Geoffrey Love, diretor-responsável pelo capital de risco da Wellcome Trust, disse que os investimentos foram feitos levando tudo isso em conta. “Já havia equipes de cientistas e de supervisionamento qualificadas trabalhando.”

“Eles já haviam conseguido alcançar um grande feito ao provar que podiam produzir não apenas biodiesel, como outras companhias já haviam conseguido, mas de fato petróleo bruto.”

Ele acrescentou ainda que o fundo conduziu consultas científicas cuidadosas antes de fazer o investimento, e que o apoio de outro grupo de investimentos com o qual a Trust trabalha às vezes, a Arch Ventures, foi uma decisão tomada separadamente.

Doug Parr, cientista-chefe do Greenpeace no Reino Unido, disse: “Nós precisamos encontrar maneiras de relegar a economia dos combustíveis fósseis à história. As algas são promissoras, mas para realmente compreendermos o que essa nova tecnologia pode nos oferecer precisamos de muito mais informações à nossa disposição.”

“O requisito fundamental é que o produto final possa ser produzido em grandes quantidades e de forma sustentável, pois caso contrário estaremos apenas trocando seis por meia dúzia.”

Alok Jha
guardian.co.uk
Tradução e adaptação: BiodieselBR.com
Tags Algas
Compartilhar:

Artigos relacionados