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Paraná estréia na era e no mercado de biodiesel

Até hoje, houve apenas experimentos e fabricação para consumo próprio. Agora, com a mistura obrigatória elevada de 2% para 3%, em julho, o estado participa como consumidor e produtor da mistura
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Até hoje, houve apenas experimentos e fabricação para consumo próprio. Agora, com a mistura obrigatória elevada de 2% para 3%, em julho, o estado participa como consumidor e produtor da mistura

A partir deste mês, o Paraná passa à condição de produtor no programa nacional do biodiesel com volume bem maior que o registrado em anos anteriores. A usina Biopar, de Rolândia (Norte), começará a fabricar, para a Petrobras, 700 mil litros do combustível ao mês a partir do dia 15. Nada de mamona, girassol, pinhão-manso, amendoim. A base será o óleo de soja, considerado uma matéria-prima cara para esse fim. A projeção do governo estadual, no entanto, é que, em 2009, a produção vai ultrapassar o consumo interno do estado, hoje estimado em 85 milhões de litros de biodiesel ao ano (misturados ao diesel). Ou seja, a perspectiva do Paraná é passar de produtor incipiente a exportador, em dois anos.

O início da produção na Biopar ocorre duas semanas antes de a mistura de biodiesel ao diesel ser elevada de 2% (B2) para 3% (B3) em todo o país, por determinação do Conselho Nacional de Política Energética. Essa decisão amplia o mercado do combustível renovável de 850 milhões para 1,3 bilhão de litros ao ano. É justamente esse aumento forçado do mercado (a mistura obrigatória será de 5% em 2013) que está viabilizando o biodiesel vegetal, mais caro que o diesel comum.
 

 Setor precisa de 2 milhões de hectares de soja
Com a entrada em vigor do B3, a área de soja necessária para alimentar a indústria de biodiesel aumenta de 1,5 milhão para 2 milhões de hectares, segundo o coordenador nacional do programa, Arnoldo de Campos. Isso porque, afirma, o grão ainda é fonte de 80% do combustível renovável. Cerca de 10% são produzidos com outras plantas oleaginosas e 10% com gordura animal. A área equivale a metade de toda a extensão das lavouras de soja do Paraná. Para atender suas próprias usinas, o estado deverá destinar a produção de aproximadamente 500 mil hectares, segundo estimativa do governo estadual. Os sojicultores ainda não têm vínculos com a indústria, mas devem ser procurados para firmar contratos, a exemplo do que ocorre com os produtores de mamona. (JR)


A pressão da demanda elevou o preço do biodiesel nos leilões da Petrobrás. O litro do produto, que era cotado a R$ 1,86 em outubro do ano passado, chegou a R$ 2,17 em dezembro e, nos últimos dois leilões, alcançou R$ 2,68 e R$ 2,74. Era o que a Biopar, instalada há um ano, esperava para entrar no negócio. Vendeu 2 milhões de litros do combustível a R$ 2,68 e, para cumprir o contrato, deverá produzir 700 mil ao mês até setembro, com cerca de 20 funcionários.

“Será uma primeira experiência. Teremos, a partir daqui, uma base concreta para avaliar se é viável produzir a esse preço”, afirma o diretor industrial e sócio da empresa, Nivaldo Tomazella. A matéria-prima será comprada de esmagadoras de soja da região de Rolândia, conta.

O litro de óleo de soja – que rende entre 900 ml e 1 litro de biodiesel – custa cerca de R$ 2 para a usina de Rolândia. O valor equivale ao preço do diesel na bomba, conforme pesquisa da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Esses números mostram que, na competição com o combustível fóssil, o biodiesel de R$ 2,68 custa, para a Petrobrás, 35% mais caro que o preço de mercado do diesel – só o custo da matéria-prima representa 74% desse valor.

Apesar dessa aparente inviabilidade, o Paraná vai entrar “de cabeça” no programa, como vêm fazendo os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, prevê o coordenador do Programa de Bioenergia do Paraná, Richardson de Souza, da Secretaria Estadual da Agricultura (Seab). Ele considera que a usina de R$ 60 milhões que a multinacional Agrenco implanta em Marialva (Noroeste) está prestes a entrar em funcionamento. Além disso, outra usina deve ser instalada até o segundo semestre de 2009 pela Petrobrás em Palmeira (Campos Gerais), com investimento de R$ 120 milhões. “A capacidade será de 110 milhões de litros ao ano na usina da Agrenco e 113 milhões na da Petrobrás, cerca de 10 milhões a mais do que o Paraná consome, já considerando o B3”, afirma.

A avaliação não soma os 360 milhões de litros/ano da maior usina do Brasil, a ser instalada em Tibagi (Campos Gerais) com investimento de R$ 303 milhões anunciado pelo Instituto Gene, de Blumenau (SC). Se esse projeto realmente sair do papel, o Paraná poderá produzir metade do biodiesel consumido no país com o B3, isso só a partir da soja. “Vamos produzir 280 milhões de litros ao ano já a partir de 2009”, diz Richardson.

Produção pode ser viável com uso de subprodutos

A produção brasileira só se sustenta pelo fato da mistura ao diesel ter se tornado obrigatória neste ano. Mesmo assim, os projetos discutidos no Paraná incentivam a participação de pequenos produtores. A constatação dos técnicos é que o biodiesel é viável, desde que seja extraído enquanto um subproduto.

“Estamos realizando testes para a implantação de pequenas usinas que utilizem a matéria-prima que o agricultor familiar de cada região sabe produzir”, relata o engenheiro mecânico Bruno Pessuti, que trabalha na usina experimental instalada há um ano no Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), em Curitiba. A idéia é usar áreas que não estejam sendo aproveitadas, e garantir destinação a torta, seja na alimentação animal ou como fonte de matéria orgânica. É assim na soja: além do óleo, aproveita-se o farelo, até mais rentável.

As usinas estão preparadas para usar outras matérias-primas, mas simplesmente não há produção em escala, acrescenta a engenheira química do Tecpar Patrícia Silva. Entre as grandes promessas está o pinhão-manso. A árvore produz amêndoas que têm o dobro da concentração de óleo encontrada na soja, mas não se sabe exatamente quanto rende por hectare. Amendoim, girassol e mamona já têm zoneamento agroclimático, mas ainda são encontrados em quantidade insuficiente.

A mamona é uma das culturas que mais vêm crescendo, com produção de 900 toneladas na safra 2007/08 no estado – 100 t a mais que há dois anos. A Brasil Ecodiesel vem firmando contratos com produtores familiares do estado há um ano. A meta de estabelecer vínculo com mil fornecedores só deve ser atingida no próximo ano. Os contratos, com preços pré-fixados, de R$ 0,75 o quilo, garantem renda parecida com a da soja. Para a empresa, a vantagem é a isenção do PIS/Cofins – R$ 218 a cada mil litros. No Sul, para ter essa isenção, a usina precisa comprar pelo menos 30% da matéria-prima da agricultura familiar.

José Rocher
Gazeta do Povo

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