Misturar directamente óleo alimentar vegetal com gasóleo dentro dos depósitos de combustível dos automóveis, é uma prática que parece estar a vulgarizar-se em vários pontos do país. O fenómeno começou a tomar maior expressão com a escalada do preço dos combustíveis durante o último Verão.
O aumento do custo dos combustíveis está a levar muitos portugueses a misturar óleo alimentar no gasóleo. Os técnicos ainda não sabem quais as consequências para os motores.
O fenómeno começou a tomar maior expressão com a escalada do preço dos combustíveis durante o último Verão. Manuel e Francisco (nomes fictícios)...
...por exemplo, entre os proprietários de jipes esta é uma discussão frequente, havendo mesmo quem defenda a utilização até 80 por cento de óleo vegetal, pois..
...um dos condutores que aderiu a esta vaga de poupança afiança, no entanto, que “há seis meses que estou a misturar óleo com gasóleo, numa proporção de 40/60 e...
O aumento do custo dos combustíveis está a levar muitos portugueses a misturar óleo alimentar no gasóleo. Os técnicos ainda não sabem quais as consequências para os motores.
Misturar directamente óleo alimentar vegetal com gasóleo dentro dos depósitos de combustível dos automóveis, é uma prática que parece estar a vulgarizar-se em vários pontos do país, atendendo ao número de blogs e fóruns registados na Internet sobre este tema. O fenómeno começou a tomar maior expressão com a escalada do preço dos combustíveis durante o último Verão. Só na zona de Pombal e através do “passa palavra” serão já dezenas os automobilistas a utilizar esta estratégia de poupar em combustível. Misturam entre 20 a 40 por cento de óleo alimentar com gasóleo, de cada vez que atestam o reservatório. Manuel e Francisco (nomes fictícios), residentes na zona de Pombal, adoptaram esta prática sem qualquer adaptação das respectivas viaturas comerciais. Tiveram conhecimento de que tal é possível através de relatos de emigrantes em França, quando estes cá estiveram de férias. Tentaram obter informações através da Internet e constataram que, por exemplo, entre os proprietários de jipes esta é uma discussão frequente nos blogs, havendo mesmo quem defenda a utilização até 80 por cento de óleo vegetal. António Portugal, investigador do Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra afirma que nunca ouviu falar em tal coisa, acrescentando “é completamente contra-indicado”. O docente tem vindo a acompanhar a introdução de biodiesel e respectivas adaptações nas viaturas do departamento de recolha de lixo da Câmara Municipal de Coimbra. Pela sua experiência alerta para o facto de serem dois combustíveis diferentes, acrescentando que “os testes para utilização do biodiesel são muito rigorosos e as propriedades termofísicas e químicas estão padronizadas”.
No caso do vulgar óleo alimentar, o especialista não conhece as características do produto como combustível, alertando para a necessidade de “ser previamente processado”, sob pena de se estar a “incorrer num risco de consequência imprevisíveis”. Um dos condutores que aderiu a esta vaga de poupança afiança, no entanto, que “há seis meses que estou a misturar óleo com gasóleo, numa proporção de 40/60 e ainda não notei que o motor se tenha queixado, pelo contrário”. Confessa que adoptou esta prática por questões de ordem financeira, quando o preço do gasóleo chegou a atingir cerca 1,10 euros. Por outro lado, afirma que, “do que tenho lido, também estou a contribuir para a redução da camada de ozono pela redução das emissões de dióxido de carbono”.
Tomé Lopes, proprietário do Intermarché de Pombal observa este fenómeno na sua dupla qualidade de gerente de uma grande superfície e de um posto de abastecimento de combustíveis, integrado no complexo comercial. Por um lado lamenta que as pessoas cheguem a este ponto, justificável “pela dependência de Portugal em relações aos produtos petrolíferos, que se reflecte no bolso dos portugueses”. Noutra perspectiva sabe que “há quem compre óleo alimentar para pôr nos depósitos dos carros”. Pelo seu lado, antes prefere manter os preços baixos do combustível que vende, beneficiando da negociação que o grupo Intermarché faz com as petrolíferas, com base em cerca de uma centena de postos, a nível nacional. Consegue ter preços mais baixos que a concorrência porque, afirma, “sacrifico a minha margem até ao limite máximo”.
Têm sido principalmente os serviços de transportes municipalizados das grandes cidades, como Lisboa, Porto e Coimbra, que maior visibilidade têm dado à utilização de biodiesel, tanto nos transportes públicos como nas viaturas de recolha dos serviços de higiene, como é o caso da autarquia da cidade dos estudantes. Escolas e agências municipais de energia têm também funcionado como pólo dinamizador da recolha de óleos alimentares, enviados depois para processamento. No entanto, continua a constatar–se que o Governo resiste em assumir este tema como prioridade da sua agenda de trabalho e opções políticas. Embora o Conselho de Ministros tenha aprovado a isenção do ISP (Imposto sobre os Produtos Petrolíferos) para os biocombustíveis, pouco apoio tem dado à investigação e implementação do sistema, nomeadamente através do incentivo à plantação de matéria prima como a palma, colza, soja, rícino e girassol. Neste campo surge, todavia, uma grande dificuldade: necessidade de disponibilizar grandes áreas de terra arável para produzir as “culturas energéticas” em larga escala, que no futuro poderão atingir 10 por cento dos terrenos férteis da Europa.
Se, do ponto de vista técnico, o biodiesel já deu provas como combustível de substituição do gasóleo, falta ainda dinamizar um ambiente político económico favorável à sua adopção generalizada. A explicação para este desinteresse pode estar no facto do Estado ter como importante fonte de receita os impostos sobre os combustíveis.
A utilização do vulgar óleo alimentar de supermercado como combustível é uma adulteração simplista dos esforços científicos que têm vindo a ser realizados para encontrar um combustível mais barato e amigo da natureza que substitua o gasóleo e gasolina. Para além do gás natural, cujo abastecimento está mais ou menos disseminado no território nacional, o biodiesel é o produto que se perfila como o mais bem colocado para substituir o gasóleo, pelo menos em parte. Produzido a partir de óleos vegetais ou de óleos de fritura reciclados, o biodiesel é obtido através de um processo – envolvendo álcool e um catalizador –, a que se dá os nomes de transesterificação ou alcoólise. A produção de biodiesel à escala industrial na Europa iniciou-se há década e meia em vários países como a Áustria, França e Alemanha. Portugal iniciou a produção de 2003. Alguns estudos efectuados, nomeadamente em universidades portuguesas apontam para um arranque a frio mais fácil (ao contrário do que acontece na simples adição doméstica de óleo vegetal), funcionamento do motor mais silencioso, maior limpeza das superfícies de contacto dos cilindros com os êmbolos e menor espessura dos depósitos nas câmaras de combustão do que os resultantes do gasóleo.
Dois investigadores da Faculdade de Engenharia do Porto que se dedicaram ao assunto concluíram que o biodiesel "pode substituir o diesel do petróleo em condições de eficiência técnica não inferior, mas com superior desempenho ambiental". Efectivamente o Protocolo de Quioto impõe quotas de substituição dos actuais combustíveis fósseis de dois por cento em 2006 até cerca de seis por cento dentro de quatro anos e 20 por cento em 2020.
Fonte: Diário As Berias Online - Portugal
O fenómeno começou a tomar maior expressão com a escalada do preço dos combustíveis durante o último Verão. Manuel e Francisco (nomes fictícios)...
...por exemplo, entre os proprietários de jipes esta é uma discussão frequente, havendo mesmo quem defenda a utilização até 80 por cento de óleo vegetal, pois..
...um dos condutores que aderiu a esta vaga de poupança afiança, no entanto, que “há seis meses que estou a misturar óleo com gasóleo, numa proporção de 40/60 e...
O aumento do custo dos combustíveis está a levar muitos portugueses a misturar óleo alimentar no gasóleo. Os técnicos ainda não sabem quais as consequências para os motores.
Misturar directamente óleo alimentar vegetal com gasóleo dentro dos depósitos de combustível dos automóveis, é uma prática que parece estar a vulgarizar-se em vários pontos do país, atendendo ao número de blogs e fóruns registados na Internet sobre este tema. O fenómeno começou a tomar maior expressão com a escalada do preço dos combustíveis durante o último Verão. Só na zona de Pombal e através do “passa palavra” serão já dezenas os automobilistas a utilizar esta estratégia de poupar em combustível. Misturam entre 20 a 40 por cento de óleo alimentar com gasóleo, de cada vez que atestam o reservatório. Manuel e Francisco (nomes fictícios), residentes na zona de Pombal, adoptaram esta prática sem qualquer adaptação das respectivas viaturas comerciais. Tiveram conhecimento de que tal é possível através de relatos de emigrantes em França, quando estes cá estiveram de férias. Tentaram obter informações através da Internet e constataram que, por exemplo, entre os proprietários de jipes esta é uma discussão frequente nos blogs, havendo mesmo quem defenda a utilização até 80 por cento de óleo vegetal. António Portugal, investigador do Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra afirma que nunca ouviu falar em tal coisa, acrescentando “é completamente contra-indicado”. O docente tem vindo a acompanhar a introdução de biodiesel e respectivas adaptações nas viaturas do departamento de recolha de lixo da Câmara Municipal de Coimbra. Pela sua experiência alerta para o facto de serem dois combustíveis diferentes, acrescentando que “os testes para utilização do biodiesel são muito rigorosos e as propriedades termofísicas e químicas estão padronizadas”.
No caso do vulgar óleo alimentar, o especialista não conhece as características do produto como combustível, alertando para a necessidade de “ser previamente processado”, sob pena de se estar a “incorrer num risco de consequência imprevisíveis”. Um dos condutores que aderiu a esta vaga de poupança afiança, no entanto, que “há seis meses que estou a misturar óleo com gasóleo, numa proporção de 40/60 e ainda não notei que o motor se tenha queixado, pelo contrário”. Confessa que adoptou esta prática por questões de ordem financeira, quando o preço do gasóleo chegou a atingir cerca 1,10 euros. Por outro lado, afirma que, “do que tenho lido, também estou a contribuir para a redução da camada de ozono pela redução das emissões de dióxido de carbono”.
Tomé Lopes, proprietário do Intermarché de Pombal observa este fenómeno na sua dupla qualidade de gerente de uma grande superfície e de um posto de abastecimento de combustíveis, integrado no complexo comercial. Por um lado lamenta que as pessoas cheguem a este ponto, justificável “pela dependência de Portugal em relações aos produtos petrolíferos, que se reflecte no bolso dos portugueses”. Noutra perspectiva sabe que “há quem compre óleo alimentar para pôr nos depósitos dos carros”. Pelo seu lado, antes prefere manter os preços baixos do combustível que vende, beneficiando da negociação que o grupo Intermarché faz com as petrolíferas, com base em cerca de uma centena de postos, a nível nacional. Consegue ter preços mais baixos que a concorrência porque, afirma, “sacrifico a minha margem até ao limite máximo”.
Portugal pouco empenhado nos biocombustíveis
Têm sido principalmente os serviços de transportes municipalizados das grandes cidades, como Lisboa, Porto e Coimbra, que maior visibilidade têm dado à utilização de biodiesel, tanto nos transportes públicos como nas viaturas de recolha dos serviços de higiene, como é o caso da autarquia da cidade dos estudantes. Escolas e agências municipais de energia têm também funcionado como pólo dinamizador da recolha de óleos alimentares, enviados depois para processamento. No entanto, continua a constatar–se que o Governo resiste em assumir este tema como prioridade da sua agenda de trabalho e opções políticas. Embora o Conselho de Ministros tenha aprovado a isenção do ISP (Imposto sobre os Produtos Petrolíferos) para os biocombustíveis, pouco apoio tem dado à investigação e implementação do sistema, nomeadamente através do incentivo à plantação de matéria prima como a palma, colza, soja, rícino e girassol. Neste campo surge, todavia, uma grande dificuldade: necessidade de disponibilizar grandes áreas de terra arável para produzir as “culturas energéticas” em larga escala, que no futuro poderão atingir 10 por cento dos terrenos férteis da Europa.
Se, do ponto de vista técnico, o biodiesel já deu provas como combustível de substituição do gasóleo, falta ainda dinamizar um ambiente político económico favorável à sua adopção generalizada. A explicação para este desinteresse pode estar no facto do Estado ter como importante fonte de receita os impostos sobre os combustíveis.
Biodiesel amigo da natureza
A utilização do vulgar óleo alimentar de supermercado como combustível é uma adulteração simplista dos esforços científicos que têm vindo a ser realizados para encontrar um combustível mais barato e amigo da natureza que substitua o gasóleo e gasolina. Para além do gás natural, cujo abastecimento está mais ou menos disseminado no território nacional, o biodiesel é o produto que se perfila como o mais bem colocado para substituir o gasóleo, pelo menos em parte. Produzido a partir de óleos vegetais ou de óleos de fritura reciclados, o biodiesel é obtido através de um processo – envolvendo álcool e um catalizador –, a que se dá os nomes de transesterificação ou alcoólise. A produção de biodiesel à escala industrial na Europa iniciou-se há década e meia em vários países como a Áustria, França e Alemanha. Portugal iniciou a produção de 2003. Alguns estudos efectuados, nomeadamente em universidades portuguesas apontam para um arranque a frio mais fácil (ao contrário do que acontece na simples adição doméstica de óleo vegetal), funcionamento do motor mais silencioso, maior limpeza das superfícies de contacto dos cilindros com os êmbolos e menor espessura dos depósitos nas câmaras de combustão do que os resultantes do gasóleo.
Dois investigadores da Faculdade de Engenharia do Porto que se dedicaram ao assunto concluíram que o biodiesel "pode substituir o diesel do petróleo em condições de eficiência técnica não inferior, mas com superior desempenho ambiental". Efectivamente o Protocolo de Quioto impõe quotas de substituição dos actuais combustíveis fósseis de dois por cento em 2006 até cerca de seis por cento dentro de quatro anos e 20 por cento em 2020.
Fonte: Diário As Berias Online - Portugal
Tags
óleos vegetais