O fundador e
ex-presidente da companhia, Antonio Iafelice, fala pela primeira vez
abertamente sobre a situação da empresa
A recente batalha pela administração da Agrenco no Brasil deixou os
rumos do negócio ainda mais incertos. Depois de dois anos de operações
paralisadas e de um burocrático processo de recuperação judicial, que se
arrasta há mais de um ano, a Agrenco vive agora nova crise.
O fundador e ex-presidente da companhia, Antonio Iafelice, fala pela primeira vez abertamente sobre suas divergências com a atual administração, a operação das unidades e muito mais.
A recente batalha pela administração da Agrenco no Brasil deixou os rumos do negócio ainda mais incertos. Depois de dois anos de operações paralisadas e de um burocrático processo de recuperação judicial, que se arrasta há mais de um ano, a Agrenco vive agora nova crise. O fundador e ex-presidente da companhia, Antonio Iafelice, fala pela primeira vez abertamente sobre suas divergências com a atual administração, que segundo ele estaria privilegiando a venda de ativos ao invés de se concentrar na recuperação e na retomada das operações da empresa.
Iafelice, que é o principal acionista da Agrenco Holding (com 32,58% das ações), diz que o conflito se dá porque as mesmas pessoas que fizeram o Plano de Recuperação Judicial são contratadas pelos credores para supervisioná-lo, receberão por contrato percentuais sobre a venda de ativos, e também controlam a maioria do conselho da empresa. “A ‘confusão’ é que o conselho das empresas Agrenco Limited e Agrenco do Brasil têm como ponto comum o Dr. Nelson de Sampaio de Bastos e seus indicados”, diz.
Bastos é membro do conselho há mais de um ano e sócio da Íntegra Associados, empresa de consultoria contratada para acompanhar o plano de recuperação, aprovado em março de 2009. “Os credores obrigaram a Agrenco do Brasil a bancar esse contrato com a Íntegra, que até aqui se mostrou inadequada pelos resultados que aí estão”. Por conta do conflito, a holding solicitou a convocação de uma assembléia geral extraordinária de acionistas com o objetivo de destituir o atual conselho de administração. A assembléia foi marcada para o dia 20 de setembro.
A holding (com sede na Holanda) possui 47,91% da Agrenco Limited (com sede nas Bermudas). A Limited, por sua vez, detém as quatro subsidiárias com atuação no Brasil: Agrenco ADM Bens, Agrenco do Brasil SA, Agrenco Bioenergia Ltda e Agrenco Serviços de Armazenagem – todas em recuperação judicial.
Para Iafelice, houve desinteresse no negócio da empresa, que ficou completamente paralisada, perdendo valor e com matéria-prima estragando no estoque. A empresa tinha 100 mil toneladas de soja em estoque, que não puderam ser vendidas imediatamente. Diante da demora, o preço da soja caiu no mercado e o produto se deteriorou, levando a perdas financeiras. “O foco não era a operação da empresa, tanto assim que até hoje não há sequer orçamento aprovado que detalha como a empresa vai operar e quais produtos vai produzir. Nada neste sentido foi aprovado pelo conselho ou credores”, diz. Ele critica o fato de terem vendido a participação na Denofa, a usina de Marialva por apenas R$ 37 milhões, os estoques de soja, e de não terem aplicado esse dinheiro para colocar as fábricas em operação. “A empresa está em recuperação e não em liquidação”, diz. Além disso, cita a demora de mais de 20 meses para concluir os balanços relativos a julho de 2008 a dezembro de 2009, que gerou a suspensão da negociação das ações da empresa na Bolsa. “Foram eficazes, eficientes, competentes, focados e entendem do ramo? Evidentemente que não”, diz.
Iafelice alega que não houve interesse em discutir e analisar as diversas sugestões e propostas da holding desde meados de 2009. Isso teria levado os acionistas a tomar atitudes mais rigorosas.
A Agrenco foi procurada para comentar, mas a assessoria de imprensa da empresa informou que só se pronunciará sobre o assunto após a publicação desta reportagem.
Recuperação
Para recuperar a empresa, Iafelice diz que a prioridade é gerar caixa e pagar as contas. “É preciso estancar a hemorragia da crise gerada por atos de terceiros contra a empresa. Optaram por priorizar outros interesses, surgindo assim distorções graves no foco e no timing, como no uso de tempo e dinheiro escassos na empresa para processos e conduções meramente burocráticas visando a blindagem de responsabilidades”, diz.
O ex-presidente afirma que segundo os engenheiros, projetistas e diretores responsáveis pelas fábricas, é possível começar a operar o complexo de Alto Araguaia (MT) com investimentos ao redor de R$ 3 milhões e o de Caarapó (MS) com mais R$ 7 milhões. Elas estariam prontas para entrar em operação em menos de 60 dias. Mesmo assim ainda seria preciso injetar capital de giro. “Só para Alto Araguaia, que tem capacidade para processar 3 mil toneladas de soja por dia, serão necessários mais de R$ 50 milhões por mês de matéria-prima, considerando que uma fábrica precisa de estoque para no mínimo 30 dias”, calcula Univaldo Vedana, analista do setor. Isso sem contar outros insumos necessários à produção. De acordo com a proposta da holding enviada aos credores em 31 de maio deste ano, o capital de giro necessário para rodar as duas unidades é de US$ 75 milhões.
Conseguir capital de giro para iniciar suas operações é a maior dificuldade da Agrenco nesse momento. Como seus ativos no Brasil estão em recuperação judicial, eles não poderiam ser dados como garantia para um novo empréstimo. “O negócio é excepcional para quem financiar este capital de giro”, diz Iafelice, ressaltando que os produtos em processamento e os recebíveis, como os oriundos da venda de biodiesel, poderiam ser dados como garantia para o crédito. Além disso, segundo ele, o financiador poderia propor controlar a operação e o fluxo de caixa da empresa.
Depois de entrar em recuperação judicial, a Agrenco firmou um contrato operacional com a suíça Glencore, que prevê que ela injete US$ 50 milhões no negócio, desde que a Agrenco dê uma contrapartida de US$ 30 milhões. Por estar sem recursos, a Agrenco começou a negociar o arrendamento da usina de Caarapó, prevendo a divisão igualitária de lucros durante dois e cinco anos. Em troca, a Glencore faria sozinha os investimentos para a operação de Alto Araguaia. Iafelice se opõe a esse acordo, que segundo ele é pernicioso aos interesses da Agrenco, que desta forma teria dificuldades para se recuperar e pagar seus credores. “Isso é uma construção insana e malévola. Nada contra a Glencore, absolutamente, e nem contra o contrato de operador firmado à luz do plano de recuperação. Essa aberração de arrendamento não faz parte do plano original”, ataca.
Impactos
Em declaração à imprensa, Nelson Bastos afirmou que os credores, diante de uma mudança indesejada no conselho de administração, poderiam decretar a falência da empresa, para que os ativos fossem vendidos e usados no pagamento de parte das dívidas. Iafelice disse que a afirmação teve tom de ameaça aos acionistas e que prejudica ainda mais a recuperação e a credibilidade da empresa junto ao mercado. “Os credores perderiam de US$ 250 a 300 milhões, os contratos existentes perderiam a validade e ninguém ganharia mais percentual algum. Creio que não podem e nem têm interesse nisso. Eles é que declararam em juízo que a empresa se recupera”.
A administração da Agrenco Limited vem se reunindo com a BDO Auditores para mensurar os impactos nas subsidiárias no Brasil da iminente mudança da governança corporativa. Procurados pela reportagem, o diretor geral o diretor de Relacionamento com Investidores, Valdenir Soares, e Nelson Bastos não quiseram comentar o assunto.
A unidade, quase concluída, recebeu em junho autorização da ANP para a produção e comercialização de biodiesel. As obras pendentes foram interrompidas durante a greve no poder judiciário, pois os recursos financeiros para as obras estão depositados em juízo – resta concluir o pátio de classificação e recebimento de soja, instalações de infra-estrutura de TI, comunicações, escritório administrativo, refeitório e término da pavimentação. Com o fim da greve, uma parcela do dinheiro (obtido com a venda da usina de Marialva) foi liberada em 28 de julho e a empresa pôde retomar as obras finais. Iafelice diz que a empresa pode operar sem essas obras, e que a prioridade é obter capital de giro. Com as autorizações que esta unidade possui, ela não pode participar do leilão de biodiesel que acontecerá no final deste mês e comprará o biocombustível necessário para todo o quarto trimestre deste ano. Caso não consiga o registro especial na Receita Federal em uma semana este complexo só poderá comercializar biodiesel em 2011.
• Complexo Industrial de Caarapó
Esta unidade demanda maior volume de investimento. As obras do complexo permanecem paralisadas, com risco de não iniciar as operações antes da próxima safra.
Alice Duarte – BiodieselBR.com
O fundador e ex-presidente da companhia, Antonio Iafelice, fala pela primeira vez abertamente sobre suas divergências com a atual administração, a operação das unidades e muito mais.
A recente batalha pela administração da Agrenco no Brasil deixou os rumos do negócio ainda mais incertos. Depois de dois anos de operações paralisadas e de um burocrático processo de recuperação judicial, que se arrasta há mais de um ano, a Agrenco vive agora nova crise. O fundador e ex-presidente da companhia, Antonio Iafelice, fala pela primeira vez abertamente sobre suas divergências com a atual administração, que segundo ele estaria privilegiando a venda de ativos ao invés de se concentrar na recuperação e na retomada das operações da empresa.
Iafelice, que é o principal acionista da Agrenco Holding (com 32,58% das ações), diz que o conflito se dá porque as mesmas pessoas que fizeram o Plano de Recuperação Judicial são contratadas pelos credores para supervisioná-lo, receberão por contrato percentuais sobre a venda de ativos, e também controlam a maioria do conselho da empresa. “A ‘confusão’ é que o conselho das empresas Agrenco Limited e Agrenco do Brasil têm como ponto comum o Dr. Nelson de Sampaio de Bastos e seus indicados”, diz.
Bastos é membro do conselho há mais de um ano e sócio da Íntegra Associados, empresa de consultoria contratada para acompanhar o plano de recuperação, aprovado em março de 2009. “Os credores obrigaram a Agrenco do Brasil a bancar esse contrato com a Íntegra, que até aqui se mostrou inadequada pelos resultados que aí estão”. Por conta do conflito, a holding solicitou a convocação de uma assembléia geral extraordinária de acionistas com o objetivo de destituir o atual conselho de administração. A assembléia foi marcada para o dia 20 de setembro.
A holding (com sede na Holanda) possui 47,91% da Agrenco Limited (com sede nas Bermudas). A Limited, por sua vez, detém as quatro subsidiárias com atuação no Brasil: Agrenco ADM Bens, Agrenco do Brasil SA, Agrenco Bioenergia Ltda e Agrenco Serviços de Armazenagem – todas em recuperação judicial.
Para Iafelice, houve desinteresse no negócio da empresa, que ficou completamente paralisada, perdendo valor e com matéria-prima estragando no estoque. A empresa tinha 100 mil toneladas de soja em estoque, que não puderam ser vendidas imediatamente. Diante da demora, o preço da soja caiu no mercado e o produto se deteriorou, levando a perdas financeiras. “O foco não era a operação da empresa, tanto assim que até hoje não há sequer orçamento aprovado que detalha como a empresa vai operar e quais produtos vai produzir. Nada neste sentido foi aprovado pelo conselho ou credores”, diz. Ele critica o fato de terem vendido a participação na Denofa, a usina de Marialva por apenas R$ 37 milhões, os estoques de soja, e de não terem aplicado esse dinheiro para colocar as fábricas em operação. “A empresa está em recuperação e não em liquidação”, diz. Além disso, cita a demora de mais de 20 meses para concluir os balanços relativos a julho de 2008 a dezembro de 2009, que gerou a suspensão da negociação das ações da empresa na Bolsa. “Foram eficazes, eficientes, competentes, focados e entendem do ramo? Evidentemente que não”, diz.
Iafelice alega que não houve interesse em discutir e analisar as diversas sugestões e propostas da holding desde meados de 2009. Isso teria levado os acionistas a tomar atitudes mais rigorosas.
A Agrenco foi procurada para comentar, mas a assessoria de imprensa da empresa informou que só se pronunciará sobre o assunto após a publicação desta reportagem.
Recuperação
Para recuperar a empresa, Iafelice diz que a prioridade é gerar caixa e pagar as contas. “É preciso estancar a hemorragia da crise gerada por atos de terceiros contra a empresa. Optaram por priorizar outros interesses, surgindo assim distorções graves no foco e no timing, como no uso de tempo e dinheiro escassos na empresa para processos e conduções meramente burocráticas visando a blindagem de responsabilidades”, diz.
O ex-presidente afirma que segundo os engenheiros, projetistas e diretores responsáveis pelas fábricas, é possível começar a operar o complexo de Alto Araguaia (MT) com investimentos ao redor de R$ 3 milhões e o de Caarapó (MS) com mais R$ 7 milhões. Elas estariam prontas para entrar em operação em menos de 60 dias. Mesmo assim ainda seria preciso injetar capital de giro. “Só para Alto Araguaia, que tem capacidade para processar 3 mil toneladas de soja por dia, serão necessários mais de R$ 50 milhões por mês de matéria-prima, considerando que uma fábrica precisa de estoque para no mínimo 30 dias”, calcula Univaldo Vedana, analista do setor. Isso sem contar outros insumos necessários à produção. De acordo com a proposta da holding enviada aos credores em 31 de maio deste ano, o capital de giro necessário para rodar as duas unidades é de US$ 75 milhões.
Conseguir capital de giro para iniciar suas operações é a maior dificuldade da Agrenco nesse momento. Como seus ativos no Brasil estão em recuperação judicial, eles não poderiam ser dados como garantia para um novo empréstimo. “O negócio é excepcional para quem financiar este capital de giro”, diz Iafelice, ressaltando que os produtos em processamento e os recebíveis, como os oriundos da venda de biodiesel, poderiam ser dados como garantia para o crédito. Além disso, segundo ele, o financiador poderia propor controlar a operação e o fluxo de caixa da empresa.
Depois de entrar em recuperação judicial, a Agrenco firmou um contrato operacional com a suíça Glencore, que prevê que ela injete US$ 50 milhões no negócio, desde que a Agrenco dê uma contrapartida de US$ 30 milhões. Por estar sem recursos, a Agrenco começou a negociar o arrendamento da usina de Caarapó, prevendo a divisão igualitária de lucros durante dois e cinco anos. Em troca, a Glencore faria sozinha os investimentos para a operação de Alto Araguaia. Iafelice se opõe a esse acordo, que segundo ele é pernicioso aos interesses da Agrenco, que desta forma teria dificuldades para se recuperar e pagar seus credores. “Isso é uma construção insana e malévola. Nada contra a Glencore, absolutamente, e nem contra o contrato de operador firmado à luz do plano de recuperação. Essa aberração de arrendamento não faz parte do plano original”, ataca.
Impactos
Em declaração à imprensa, Nelson Bastos afirmou que os credores, diante de uma mudança indesejada no conselho de administração, poderiam decretar a falência da empresa, para que os ativos fossem vendidos e usados no pagamento de parte das dívidas. Iafelice disse que a afirmação teve tom de ameaça aos acionistas e que prejudica ainda mais a recuperação e a credibilidade da empresa junto ao mercado. “Os credores perderiam de US$ 250 a 300 milhões, os contratos existentes perderiam a validade e ninguém ganharia mais percentual algum. Creio que não podem e nem têm interesse nisso. Eles é que declararam em juízo que a empresa se recupera”.
A administração da Agrenco Limited vem se reunindo com a BDO Auditores para mensurar os impactos nas subsidiárias no Brasil da iminente mudança da governança corporativa. Procurados pela reportagem, o diretor geral o diretor de Relacionamento com Investidores, Valdenir Soares, e Nelson Bastos não quiseram comentar o assunto.
Situação das usinas
• Complexo Industrial de Alto AraguaiaA unidade, quase concluída, recebeu em junho autorização da ANP para a produção e comercialização de biodiesel. As obras pendentes foram interrompidas durante a greve no poder judiciário, pois os recursos financeiros para as obras estão depositados em juízo – resta concluir o pátio de classificação e recebimento de soja, instalações de infra-estrutura de TI, comunicações, escritório administrativo, refeitório e término da pavimentação. Com o fim da greve, uma parcela do dinheiro (obtido com a venda da usina de Marialva) foi liberada em 28 de julho e a empresa pôde retomar as obras finais. Iafelice diz que a empresa pode operar sem essas obras, e que a prioridade é obter capital de giro. Com as autorizações que esta unidade possui, ela não pode participar do leilão de biodiesel que acontecerá no final deste mês e comprará o biocombustível necessário para todo o quarto trimestre deste ano. Caso não consiga o registro especial na Receita Federal em uma semana este complexo só poderá comercializar biodiesel em 2011.
• Complexo Industrial de Caarapó
Esta unidade demanda maior volume de investimento. As obras do complexo permanecem paralisadas, com risco de não iniciar as operações antes da próxima safra.
Alice Duarte – BiodieselBR.com
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