Guilherme Cassel, ministro do Desenvolvimento Agrário, critica quem
combate a união de metas sociais e econômicas em projetos como o
programa de biodiesel baseado na agricultura familiar
Guilherme Cassel, ministro do Desenvolvimento Agrário, critica quem combate a união de metas sociais e econômicas em projetos como o programa de biodiesel baseado na agricultura familiar
O ministro do Desenvolvimento Agrário, o engenheiro civil gaúcho Guilherme Cassel, devolve as críticas ao Programa Nacional de Biodiesel do governo petista. Chama de "economicismo talibã" a análise que reprova a junção de metas sociais e econômicas em um projeto como esse. Cassel rebate todas os ataques e propagandeia: em 2008, mais de 200 mil famílias estarão incluídas no Programa Nacional do Biodiesel
Época NEGÓCIOS - É possível sustentar com pequenos agricultores um programa de biodiesel?
Guilherme Cassel - O programa é muito novo. Começou em 2005 com metas ousadas e originais para promover a inclusão social a partir de um programa de energia. Isso implicou no desafio de trabalhar com o Brasil profundo, com proprietários de quatro hectares, que não tinham nenhuma organização produtiva. A garantia dos leilões ganhou a confiança do setor privado. O selo combustível social permitiu a organização das comunidades. Já temos 540 mil hectares plantados pela agricultura familiar, com 97 mil famílias na produção de biodiesel, das quais mais de 50% no Nordeste. Com os leilões e as metas deste ano, chegaremos a 200 mil famílias. Mas é preciso produzir sementes, garantir crédito, implementos, adaptar o seguro agrícola e dar assistência técnica. O Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar] firmou mais de 70 mil contratos, com mais de R$ 100 milhões em financiamentos. Essas pessoas nunca tiveram uma relação formal de trabalho. Trabalhavam como bóias frias. Pela primeira vez, o Estado brasileiro oferece um programa envolvendo organizações sociais e empresas privadas. Isso prende a pessoa na terra.
NEGÓCIOS - O agricultor não vai deixar de produzir alimentos para privilegiar combustível?
Cassel - Uma das qualidades do programa é que é um mix de oleaginosas - soja, mamona, pinhão manso, amendoim, dendê - que os produtores vão comprar dos agricultores familiares. Vão poder optar, de acordo com as condições de mercado. Não haverá competição com a produção de alimentos. O único caso poderia ser a soja, que pode ser utilizada para biocombustível, quando o preço do óleo estiver baixo. A mamona é cara porque ainda tem pouca produção.
NEGÓCIOS - O programa sofre críticas por misturar o social com o econômico. Isso dá certo?
Cassel - Essa é a visão do economicismo talibã. O desenvolvimento tem de incluir, gerar igualdade de condições e de oportunidades. Os programas públicos têm de levar em conta a desigualdade, pois sabemos quais serão as escolhas do mercado. Esses programas levam em conta as desigualdades regionais, os que não estão incluídos no processo produtivo, a geração de novas oportunidades. Com a desconfiança do setor privado diante de um segmento inovador, como o do biodiesel, o Estado tem papel muito importante, especialmente nos primeiros anos de implantação. Foi fundamental que o programa tivesse nascido com estrutura institucional estabelecida, com política tributária própria, com linhas para o selo combustível social. Os leilões deram segurança para o mercado e sinalizaram que o programa é para valer. Mas é uma corrida de obstáculos.
NEGÓCIOS - Há biodiesel suficiente para cumprir a determinação dos 2% neste ano?
Cassel - Temos oferta de matéria-prima e passamos o período de adaptação. A mamona está testada e aprovada. O pinhão manso exige quatro anos de cultura, e há pesquisas em vários locais que sinalizam a possibilidade de vir a ser utilizado. O girassol, a palma e o amendoim são culturas para as quais há conhecimento para gerar sementes. A ANP [Associação Nacional do Petróleo] já fez vários leilões, e o setor privado está aderindo com rapidez. Temos capacidade instalada para produzir até 7% de biodisel. A discussão hoje é se vamos antecipar os 5%, ou não.
Época Negócios
Guilherme Cassel, ministro do Desenvolvimento Agrário, critica quem combate a união de metas sociais e econômicas em projetos como o programa de biodiesel baseado na agricultura familiar
O ministro do Desenvolvimento Agrário, o engenheiro civil gaúcho Guilherme Cassel, devolve as críticas ao Programa Nacional de Biodiesel do governo petista. Chama de "economicismo talibã" a análise que reprova a junção de metas sociais e econômicas em um projeto como esse. Cassel rebate todas os ataques e propagandeia: em 2008, mais de 200 mil famílias estarão incluídas no Programa Nacional do Biodiesel
Época NEGÓCIOS - É possível sustentar com pequenos agricultores um programa de biodiesel?
Guilherme Cassel - O programa é muito novo. Começou em 2005 com metas ousadas e originais para promover a inclusão social a partir de um programa de energia. Isso implicou no desafio de trabalhar com o Brasil profundo, com proprietários de quatro hectares, que não tinham nenhuma organização produtiva. A garantia dos leilões ganhou a confiança do setor privado. O selo combustível social permitiu a organização das comunidades. Já temos 540 mil hectares plantados pela agricultura familiar, com 97 mil famílias na produção de biodiesel, das quais mais de 50% no Nordeste. Com os leilões e as metas deste ano, chegaremos a 200 mil famílias. Mas é preciso produzir sementes, garantir crédito, implementos, adaptar o seguro agrícola e dar assistência técnica. O Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar] firmou mais de 70 mil contratos, com mais de R$ 100 milhões em financiamentos. Essas pessoas nunca tiveram uma relação formal de trabalho. Trabalhavam como bóias frias. Pela primeira vez, o Estado brasileiro oferece um programa envolvendo organizações sociais e empresas privadas. Isso prende a pessoa na terra.
NEGÓCIOS - O agricultor não vai deixar de produzir alimentos para privilegiar combustível?
Cassel - Uma das qualidades do programa é que é um mix de oleaginosas - soja, mamona, pinhão manso, amendoim, dendê - que os produtores vão comprar dos agricultores familiares. Vão poder optar, de acordo com as condições de mercado. Não haverá competição com a produção de alimentos. O único caso poderia ser a soja, que pode ser utilizada para biocombustível, quando o preço do óleo estiver baixo. A mamona é cara porque ainda tem pouca produção.
NEGÓCIOS - O programa sofre críticas por misturar o social com o econômico. Isso dá certo?
Cassel - Essa é a visão do economicismo talibã. O desenvolvimento tem de incluir, gerar igualdade de condições e de oportunidades. Os programas públicos têm de levar em conta a desigualdade, pois sabemos quais serão as escolhas do mercado. Esses programas levam em conta as desigualdades regionais, os que não estão incluídos no processo produtivo, a geração de novas oportunidades. Com a desconfiança do setor privado diante de um segmento inovador, como o do biodiesel, o Estado tem papel muito importante, especialmente nos primeiros anos de implantação. Foi fundamental que o programa tivesse nascido com estrutura institucional estabelecida, com política tributária própria, com linhas para o selo combustível social. Os leilões deram segurança para o mercado e sinalizaram que o programa é para valer. Mas é uma corrida de obstáculos.
NEGÓCIOS - Há biodiesel suficiente para cumprir a determinação dos 2% neste ano?
Cassel - Temos oferta de matéria-prima e passamos o período de adaptação. A mamona está testada e aprovada. O pinhão manso exige quatro anos de cultura, e há pesquisas em vários locais que sinalizam a possibilidade de vir a ser utilizado. O girassol, a palma e o amendoim são culturas para as quais há conhecimento para gerar sementes. A ANP [Associação Nacional do Petróleo] já fez vários leilões, e o setor privado está aderindo com rapidez. Temos capacidade instalada para produzir até 7% de biodisel. A discussão hoje é se vamos antecipar os 5%, ou não.
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Social x econômico