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O dendê não faz milagres

Na onda dos cultivos de oleaginosas para produção de combustíveis aparentemente ecológicos, o dendê procura um lugar de destaque entre as demais plantas.
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Na onda dos cultivos de oleaginosas para produção de combustíveis aparentemente ecológicos, o dendê procura um lugar de destaque entre as demais plantas.  Embora reduza a biodiversidade e quebre o equilíbrio da cadeia alimentar...
Domingo, o jornal inglês The Independent noticiou a morte de pelo menos mil orangutangos provocada pelo pior incêndio florestal registrado na Indonésia em uma década.  A causa do fogo foi o interesse de abertura de novas áreas para o plantio de palmeiras cujo óleo é cada vez mais valorizado no mercado do biodiesel.

Na onda dos cultivos de oleaginosas para produção de combustíveis aparentemente ecológicos, o dendê procura um lugar de destaque entre as demais plantas.  Embora reduza a biodiversidade e quebre o equilíbrio da cadeia alimentar - conseqüências incontestáveis de qualquer monocultura - a palmeira tem a preferência de acadêmicos, que defendem suas vantagens ambientais.

Segundo Orlando Silva, pesquisador do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (IEE/USP), a palma do dendê seqüestra gás carbônico da atmosfera e permite a recuperação de áreas desflorestadas e desgastadas.  A planta também se diferencia de outros cultivos, como a cana-de-açúcar, porque não precisa remexer tanto o solo.  Cada palmeira produz frutos por 30 anos e não exige muitos defensivos agrícolas, o que diminui as chances de contaminação do solo e de lençóis freáticos.  Do ponto de vista econômico, enquanto em um ano a mamona produz cerca de 500 litros de óleo por hectare, o dendê atinge os cinco mil litros.  Portanto, é 10 vezes mais produtivo.  Só tem um detalhe: as melhores terras para o cultivo do dendê são as tropicais úmidas.  E, de acordo com a Agropalma, maior produtora de óleo de palma da América Latina, no mercado desde 1982.

Exceção

Isoladamente, a Agropalma é um caso de sucesso.  Localizada a 70 quilômetros da cidade de Tailândia (PA), tem hoje 34 mil hectares de área plantada, 77 mil hectares de reserva legal e emprega 10 mil funcionários direta e indiretamente no plantio e processamento do óleo de palma.  Todo mês, 185 famílias da região são beneficiadas com o programa de agricultura familiar, que garante um salário fixo de R$ 1.800 para cada uma.  Grande parte da produção de óleo de dendê da empresa, aproximadamente 75%, é destinada à indústria alimentícia.  O restante é dividido entre os setores químico, oleoquímico (tintas e vernizes), cosmético, higiene pessoal, têxtil e siderurgia (laminação do aço).

Desde o início do ano passado, a Agropalma passou a investir também no diesel vegetal proveniente do dendê, graças a uma tecnologia desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  O palmdiesel, como foi batizado, é obtido a partir dos ácidos graxos residuais do processo de refino do óleo de palma.  A planta da empresa em Belém (PA), com capacidade para produzir 20 milhões de litros do produto por ano, processa hoje oito milhões de litros - quantidade que a matéria-prima disponível permite.  O volume é suficiente para substituir 100% do diesel convencional que a Agropalma utiliza hoje em seus tratores, veículos e implementos utilizados no cultivo da palma.  E ainda há um excedente que é vendido para Petrobras e Vale do Rio Doce.

Mas ainda é pouco.  A produção anual da Agropalma é tão pequena que não consiste em redução de emissões de carbono significativas.  Muito menos para atender a demanda internacional.  Ainda bem, pois para produzir o diesel de palma em larga escala e abastecer os mercados externos, a Amazônia provavelmente seria reduzida a passos largos.  Somente a Agropalma, no início da construção de seu império, cortou 15 mil hectares de florestas para o cultivo do fruto.

O óleo de palma é o segundo tipo mais consumido no planeta, perde apenas para o óleo de soja.  A produção mundial chega a 17 milhões de toneladas/ano e quem sustenta esta produção são os paises asiáticos.  O Brasil tem uma participação de menos de 0,5% neste mercado internacional e se quiser brigar por um lugar mais competitivo deve pensar bem.  A Malásia, por exemplo, obteve o título de maior produtora mundial do óleo de palma às custas da eliminação de quase toda sua mata nativa.

Fonte: O Eco
Tags Dende
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