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Biodiesel nacional na encruzilhada

As perguntas são muitas e a iniciativa privada, sempre tão rápida em reagir, olha para o governo, à espera das respostas
Carlos Zveibil Neto 5 min de leitura
As perguntas são muitas e a iniciativa privada, sempre tão rápida em reagir, olha para o governo, à espera das respostas

As perguntas são muitas e a iniciativa privada, sempre tão rápida em reagir, olha para o governo, à espera das respostas

Com a saca de soja a R$ 40,00 e o óleo a R$ 2.600,00 por tonelada, chegou a hora de o Brasil decidir que matéria-prima vai efetivamente usar para a produção do biodiesel. A demora de uma decisão poderá inviabilizar os planos do governo, pois, com o petróleo nas alturas, o momento de testar e escolher é agora, já que mesmo as alternativas menos promissoras se tornam economicamente viáveis diante do preço do combustível fóssil.

As opções são muitas, mamona, pinhão-manso, sebo de boi, óleo de algodão, babaçu, coco da carnaúba, girassol, dendê, gordura de coco-da-baía, oiticica, pequi, teoricamente o óleo de milho e até a macaúba, o fruto de uma palmeira abundante no Paraguai. Enquanto a maioria dos países tem a possibilidade de produzir uma ou no máximo duas oleaginosas viáveis e a Europa chega a importar grãos para produzir biodiesel, o Brasil, privilegiado como sempre, tem à disposição uma variedade de opções, mas parece não se dar conta. Não se dá conta também de que seria "politicamente correta" a opção por uma matéria-prima não alimentar, para calar a boca dos estrangeiros que verberam o biodiesel feito com alimentos que poderiam ajudar os países famintos e usam o argumento como desculpa para barrar o produto brasileiro. Os primeiros leilões da Petrobras levaram à aquisição de biodiesel de soja, que acabou não sendo todo entregue, porque a soja subiu. O presidente Lula fez a apologia do biodiesel de mamona, que decepcionou os agricultores nordestinos, já que a mamona nacional rende pouco, 800 quilos por hectare, diante das 4 toneladas que o Instituto Volcani, de Israel, está colhendo na China, com as sementes melhoradas que poderiam estar sendo plantadas no Brasil, tivéssemos uma política adequada.

O pinhão-manso demanda estudos e plantio em alta escala, jamais foi plantado em grande quantidade devido à enorme variedade e, em conseqüência, há falta de sementes, de estudos de produtividade e não se sabe que cultivar produz mais ou menos óleo.

Entre as alternativas, o sebo de boi é uma das poucas bem exploradas, já que a indústria privada, e não o governo, investiu na tecnologia e o produto, antes queimado nas caldeiras como energético, agora tem alto valor agregado. O problema é que a disponibilidade depende do número de abates, e não há sebo suficiente para atender à demanda.

O óleo de algodão é uma boa possibilidade, após o controle do besouro-bicudo, que por anos inviabilizou o plantio no Nordeste. A vantagem do algodão é que o óleo -e, logo, o biodiesel- é subproduto, pois a fibra vale muito, se o governo tiver a coragem de retaliar os americanos, direito concedido pelos tribunais internacionais, mas de que o Brasil não se valeu. O coco da carnaúba, também subproduto da planta, cultivada por causa da cera e principalmente o dendê, 40 mil hectares de plantações semi-abandonadas no Nordeste, são promessa importante, mas é preciso estudos de competitividade e análise de rendimento. Será que os 8% de óleo da carnaúba compensam? Qual o rendimento da borra de dendê, depois de industrializado para produção de margarina sem gordura trans, para produzir biodiesel? E a expectativa para o babaçu? Falta pesquisa também em relação ao pequi, planta nativa, mas esparsa. Os 40% de óleo da semente, índice altíssimo, compensam a dificuldade da colheita no cerrado heterogêneo? E o que dizer do girassol, que para cima da Bahia rende duas colheitas anuais, até três, se irrigado? Será viável capacitar o agricultor nordestino a investir na planta que é estranha à sua cultura? As perguntas são muitas e a iniciativa privada, sempre tão rápida em sua capacidade de reação, olha para o governo, à espera das respostas. A primeira, mais difícil de se conseguir, seria a redução do subsídio ao diesel, para que o biodiesel possa competir de maneira mais justa. A segunda, dotar a Embrapa dos recursos necessários para que possa pesquisar, desenvolver sementes, investir em melhoria genética, livre do processo de politização que torna sua imensa capacidade de pesquisa refém da agricultura familiar, que mistura eficiência agrícola com solução social. A oportunidade é maior ainda, porque todas as alternativas para produção do biodiesel repousam em terras há muito agricultadas, nenhuma delas pressupõe derrubada de floresta ou degradação ambiental.

O que o agricultor brasileiro precisa, no campo do biodiesel, é de informações claras, diretrizes adequadas, tecnologia que ele não pode desenvolver porque depende de pesquisa cara, confiável -atribuição do governo, a quem cabe definir a busca de respostas como prioridade para que, a médio prazo, o Brasil possa efetivamente contar com um biodiesel competitivo e cuja produção certamente empregará imensa mão-de-obra desqualificada, carente de empregos.

Perguntas são muitas no setor de biodiesel e a iniciativa privada espera respostas do governo.

Carlos Zveibil Neto, diretor da empresa Ponte di ferro - DCI
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