


De uma maneira geral, as palestras do terceiro painel do Agribio 2013 se concentraram em apresentar as ações e iniciativas – de governos estaduais, da iniciativa privada e de entidade representativa do setor – destinadas a impulsionar o programa de biodiesel nas regiões Norte, Nordeste e Semiárido. A abordagem sobre o que ainda precisa ser feito para promover a inclusão social nessas localidades, que era o foco da discussão, acabou tendo pouco destaque.
A abertura do painel ficou a cargo de Francisco Ademarzinho Ponte de Holanda, coordenador do Programa de Biodiesel no Ceará. De todo o Nordeste, o estado é onde o programa está mais presente. Conta com diversos pólos de biodiesel, fixados em áreas consideradas propensas à produção.
Segundo Ademarzinho, o fato de o governo cearense desde o início ter se preocupado em fomentar ações para estruturar o programa no Estado foi fundamental para se chegar ao estágio de desenvolvimento atual. O Ceará criou um protocolo de intenções e depois, em 2008, instituiu decreto criando a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Biodiesel.
O coordenador do Programa de Biodiesel no Ceará evidenciou a interação entre os diversos níveis de gestão do programa (Câmara Setorial, Câmara Técnica, Núcleos Mobilizadores etc.), evidenciando a existência de uma ação bastante participativa. “Quinzenalmente, ou mensalmente quando a agenda está muito atribulada, as Câmaras se reúnem para falar sobre o biodiesel no Estado”, contou Ademarzinho.
A Petrobras também teve papel central no avanço do programa no Ceará. “É a nossa grande parceira. Garante a comercialização daquilo que o agricultor produz”, creditou Ademarzinho, dizendo imaginar as dificuldades dos outros Estados, que não contam com um apoio tão forte como o da Petrobras, para alavancar o PNPB.
Ele lamentou ainda o fato de alguns agricultores não terem consciência dos investimentos feitos pela companhia estatal para a evolução do programa. De acordo com Ademarzinho, muitos acabam não entregando a produção ou entregando a terceiros, numa referência à situação recorrente de compra pela indústria de ricinoquímica da produção de mamona que deveria ser entregue a produtores de biodiesel.
Cultura consorciada
Matéria-prima central na produção de biodiesel no estado, a mamona tinha uma perspectiva de produção para este ano de cerca de 18 mil toneladas. “Mas não vai chegar a isso”, avisou Adermazinho.
Há dois motivos que o levam a fazer esse prognóstico: a severa estiagem e o fato de o cultivo da oleaginosa no Ceará ser consorciada com outras culturas de subsistência. “Um terço da área é plantada com mamona, o outro 1/3 é consorciada com milho, feijão, mandioca”, explicou.
Adermazinho descartou a possibilidade de haver dentro do programa desvios de recursos. “O investimento vem do FECOP, Fundo Estadual de Combate à Pobreza. Mesmo que alguém queria desviar esse dinheiro, não consegue. Ele só sai do Fundo se for direto para a conta do agricultor”, assegurou.
Ainda sobre os recursos do programa, outra colocação de Ademarzinho chamou a atenção. Segundo ele, apenas parte da verba anualmente programada para o desenvolvimento do biodiesel no Ceará é efetivamente usada.
“O programa nunca gastou o dinheiro total aportado para ele. Sempre devolve. Ou porque chove demais como em 2011, ou chove de menos como em 2010, 2012 e agora em 2013”, expôs Ademarzinho, observando que apernas 55% dos recursos para o ano passado foram efetivamente gastos. E neste ano, não deve ser diferente.
Mantendo a fé
A Petrobras Biocombustíveis é uma das poucas a se arriscarem a fazer biodiesel no Semiárido brasileiro. A trajetória percorrida e a experiência angariada desde que a empresa se lançou nesse desafio, há quase cinco anos, foi o tema da palestra do diretor de Suprimento Agrícola da Petrobras Biocombustível, João Augusto Araújo Paiva.
“Estamos tentamos fazendo algo que merece ser ressaltado. E não se trata de um desafio trivial”, enalteceu Paiva, acrescentando que “mesmo com resultados difíceis” é preciso continuar, manter a crença no projeto.
Embora esteja ainda nos primórdios de sua empreitada no Semiárido – como mesmo ressaltou Paiva -, a Petrobras já computou importantes aprendizados que a permitiram desenvolver toda uma estratégia de atuação diferenciada para a questão do biodiesel nessa região. Seus esforços vão desde a criação de um corpo próprio de técnicos agrícolas para interagirem junto aos agricultores (Projeto Cultivar), até a firmação de convênios com universidades para realização de pesquisas voltadas ao fomento de inovações.
“O nosso primeiro passo quando iniciamos o trabalho em 2008 foi nos apoiar numa agenda tecnológica, construindo parcerias com institutos de pesquisa para nos suprir de informações sobre as culturas que estamos trabalhando”, salientou Paiva.
Só com a Embrapa, a Petrobras planeja instalar no Semiárido brasileiro 18 Unidades de Teste e Demonstração (UTDs). “Onde as condições de solo se justificam, a logística é possível e há agricultores interessados em participar da iniciativa, a Petrobras começou, com a Embrapa, a desenhar um conjunto de UTDs, que vão beneficiar em torno de 1.500 agricultores”, revelou.
A “parceria” parece ser a viga mestra de muitas soluções arquitetadas pela Petrobras para o biodiesel. Além de várias instituições de pesquisa, a empresa tem um convênio com a Bioóleo, que se encarrega do transporte, armazenagem, esmagamento e comercialização da mamona produzida PBio.
Agregação de valor
O diretor de Suprimento Agrícola da Petrobras Biocombustível manifestou uma visão mercadológica da mamona mais ampla que a manifestada pelos palestrantes anteriores. Paiva disse que a empresa não enxerga a indústria ricinoquímica como uma concorrente.
“Os que conhecem a história da mamona no Semiárido sabem que ter 30% da oleaginosa destinada à produção de biodiesel é suficiente para produzir um biocombustível de excelente qualidade. Então, não é ‘ou’, e sim ‘e’”, argumentou Paiva ao defender que a postura não deve ser excludente e que a mamona tem condições atender aos dois mercados. “Não é um problema, mas uma solução. A Petrobras mesmo adquire diversos produtos derivados do óleo de mamona para aplicação seus processos industriais”, revelou.
O diretor de Suprimento Agrícola da PBio encerrou sua apresentação com a exibição de um vídeo institucional sobre o “Projeto Belém” - uma iniciativa da Petrobras com a Galp Energia, empresa portuguesa do setor energético. O projeto tem como meta a produção anual de 270 toneladas de biodiesel à base de óleo de palma oriundo de lavouras cultivadas pela PBio no Pará.
Cátia Franco – BiodieselBR.com