Desde 2001, quando iniciei a minha carreira na UnB, venho trabalhando em diversos projetos relacionados com a produção de biocombustíveis a partir de óleos vegetais, seja por transesterificação (Biodiesel) ou por craqueamento (Bio-óleo), bem como o desenvolvimento de técnicas de análise das propriedades físico-químicas desses combustíveis. Tenho lido e produzido muita literatura específica, além de ter participado de inúmeros debates em diversos eventos no Brasil e no mundo. Esta minha experiência tem aumentando a cada dia a minha certeza de que o Biodiesel é uma alternativa concreta aos combustíveis fósseis. Provavelmente o Biodiesel não seja solução definitiva para os problemas energéticos e ambientais que a humanidade esta começando a se deparar, mas acredito que seja pelo menos uma opção intermediária enquanto não é desenvolvida uma solução melhor.
No entanto, apesar de ser um ardoroso defensor do Biodiesel, devo reconhecer que não há somente vantagens nesse biocombustível. De fato, ao comparar o Biodiesel com o Petrodiesel, existem alguns pontos para os quais o biocombustível fica em desvantagem, dentre os quais, o Poder Calorífico, que resolvi escolher como tema da minha coluna este mês.
Em trabalho que publicamos recentemente no periódico científico Thermoquimica Acta, verificamos que a adição dos biodieseis obtidos de soja e dendê ao Diesel vai diminuindo linearmente o poder calorífico da mistura, chegando a uma perda de quase 20 % para B100 em relação ao diesel puro. Obviamente, a implicação direta desse fato é um aumento no consumo de biocombustível em relação ao de diesel para gerar a mesma quantidade de calor durante a combustão no motor, o que contribui negativamente para viabilizar economicamente o Biodiesel. Esta diminuição no poder calorífico se deve principalmente à existência de oxigênio em quantidades consideráveis no biocombustível, enquanto que isso não se verifica no caso do diesel. O irônico é que esse mesmo oxigênio presente no Biodiesel é responsável por diversas das suas vantagens em relação ao diesel, como sua maior lubricidade e diminuição na emissão de poluentes durante a queima nos motores, como sólidos particulados e hidrocarbonetos.
Mas será esta diminuição do poder calorífico igual para todos os biocombustíveis independentemente da matéria-prima utilizada? Para a maioria dos óleos vegetais com potencial para ser usado em escala comercial, tais como soja, dendê, girassol, pinhão-manso, entre outros, as relações entre as massas de carbono e oxigênio são praticamente constantes, havendo pequenas flutuações que não interferem de forma significativa no poder calorífico. No entanto, para os óleos de algumas palmeiras nativas do Brasil, que possuem cadeias curtas de carbono, existe um aumento pronunciado da massa de oxigênio em relação ao carbono, o que faz com que o poder calorífico do Biodiesel sofra uma redução considerável, sendo o exemplo mais significativo o babaçu. Outra exceção é o Biodiesel produzido de mamona, que possui um oxigênio a mais que os demais devido a presença de um grupo hidroxila. De fato, já foi publicado que os biodieseis produzidos a partir de mamona e babaçu têm cerca de 5 % menos poder calorífico que aqueles produzidos a partir de, entre outros, soja, dendê e amendoim (Produção de combustíveis líquidos a partir de óleos vegetais: Relatório final do Convênio STI- MIC / CETEC. Vol. 1 e 2. CETEC: Belo Horizonte-MG (1983)).
Pelo exposto acima, acredito que o poder calorífico é um parâmetro importante e que não tem sido discutido de forma concreta pela comunidade. No entanto, o seu impacto econômico na incorporação do Biodiesel na matriz energética, bem como em um processo de escolha entre diversas matérias-primas, deverá ser levados em conta, pois negligenciá-lo poderá trazer consideráveis prejuízos.
Paulo Anselmo Ziani Suarez é engenheiro químico, colunista BiodieselBR.com, com pós-doutorado pelo National Center for Agricultural Utilization Research dos Estados Unidos. Saiba mais sobre o autor.
No entanto, apesar de ser um ardoroso defensor do Biodiesel, devo reconhecer que não há somente vantagens nesse biocombustível. De fato, ao comparar o Biodiesel com o Petrodiesel, existem alguns pontos para os quais o biocombustível fica em desvantagem, dentre os quais, o Poder Calorífico, que resolvi escolher como tema da minha coluna este mês.
Em trabalho que publicamos recentemente no periódico científico Thermoquimica Acta, verificamos que a adição dos biodieseis obtidos de soja e dendê ao Diesel vai diminuindo linearmente o poder calorífico da mistura, chegando a uma perda de quase 20 % para B100 em relação ao diesel puro. Obviamente, a implicação direta desse fato é um aumento no consumo de biocombustível em relação ao de diesel para gerar a mesma quantidade de calor durante a combustão no motor, o que contribui negativamente para viabilizar economicamente o Biodiesel. Esta diminuição no poder calorífico se deve principalmente à existência de oxigênio em quantidades consideráveis no biocombustível, enquanto que isso não se verifica no caso do diesel. O irônico é que esse mesmo oxigênio presente no Biodiesel é responsável por diversas das suas vantagens em relação ao diesel, como sua maior lubricidade e diminuição na emissão de poluentes durante a queima nos motores, como sólidos particulados e hidrocarbonetos.
Mas será esta diminuição do poder calorífico igual para todos os biocombustíveis independentemente da matéria-prima utilizada? Para a maioria dos óleos vegetais com potencial para ser usado em escala comercial, tais como soja, dendê, girassol, pinhão-manso, entre outros, as relações entre as massas de carbono e oxigênio são praticamente constantes, havendo pequenas flutuações que não interferem de forma significativa no poder calorífico. No entanto, para os óleos de algumas palmeiras nativas do Brasil, que possuem cadeias curtas de carbono, existe um aumento pronunciado da massa de oxigênio em relação ao carbono, o que faz com que o poder calorífico do Biodiesel sofra uma redução considerável, sendo o exemplo mais significativo o babaçu. Outra exceção é o Biodiesel produzido de mamona, que possui um oxigênio a mais que os demais devido a presença de um grupo hidroxila. De fato, já foi publicado que os biodieseis produzidos a partir de mamona e babaçu têm cerca de 5 % menos poder calorífico que aqueles produzidos a partir de, entre outros, soja, dendê e amendoim (Produção de combustíveis líquidos a partir de óleos vegetais: Relatório final do Convênio STI- MIC / CETEC. Vol. 1 e 2. CETEC: Belo Horizonte-MG (1983)).
Pelo exposto acima, acredito que o poder calorífico é um parâmetro importante e que não tem sido discutido de forma concreta pela comunidade. No entanto, o seu impacto econômico na incorporação do Biodiesel na matriz energética, bem como em um processo de escolha entre diversas matérias-primas, deverá ser levados em conta, pois negligenciá-lo poderá trazer consideráveis prejuízos.
Paulo Anselmo Ziani Suarez é engenheiro químico, colunista BiodieselBR.com, com pós-doutorado pelo National Center for Agricultural Utilization Research dos Estados Unidos. Saiba mais sobre o autor.
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