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2º Congresso Internacional de Biodiesel

Estou em Munique, Alemanha, participando do 2º Congresso Internacional de Biodiesel organizado pela American Oil Chemists´ Society e pela Euro Fed Lipid. Como apenas uma semana separa este evento do 3º Congresso da RBTB que aconteceu em Brasília, as comparações são inevitáveis.
Paulo Suarez 6 min de leitura
Estou em Munique, Alemanha, participando do 2º Congresso Internacional de Biodiesel organizado pela American Oil Chemists´ Society e pela Euro Fed Lipid. Como apenas uma semana separa este evento do 3º Congresso da RBTB que aconteceu em Brasília, as comparações são inevitáveis.

Inicialmente, é necessário estabelecer a principal diferença entre os dois eventos: enquanto que no evento de Munique tem um caráter internacional, com forte presença de técnicos de indústrias e da maioria dos principais pesquisadores em biodiesel do mundo, o de Brasília congregou somente brasileiros. Mas as diferenças não param por aí. Em Brasília, cerca de 800 congressistas, entre pesquisadores, alunos, funcionários governamentais e empresários mostraram um otimismo frente a um mercado crescente, que se prepara para atingir com 4 anos de antecipação a meta do B5. Em Munique, menos de duzentos participantes de todas as partes do globo demonstram frustração frente a um mercado que apresentou declínio nas principais economias, como na Europa e Estados Unidos.

Tanto nas palestras como em conversas nos corredores percebe-se uma clara preocupação de todos com o colapso do mercado de B100 nos postos da Alemanha, fato este que havia sido relatado pelo Prof. Martin Mitelbach em Brasília na qualidade de conferencista convidado, o qual abriu espaço para o B7 comercializado hoje. Preocupações também pelo fato de que todas as expectativas de produção de biodiesel para o ano de 2009 nos Estados Unidos e Europa, mesmo as mais pessimistas, provavelmente sejam suplantadas pelos valores reais que serão verificados no mercado. Alguns culpam a crise econômica, outros as políticas dos governos e muitos o alto custo das matérias-primas e mesmo o comprometimento do desempenho devido à qualidade do biodiesel produzido, principal motivo do colapso do B100. Por outro lado, em diversas palestras o Brasil foi citado como exemplo de programa governamental a ser seguido.

Infelizmente, o congresso foi estruturado com até três sessões paralelas, o que me impediu de assistir a tudo. No entanto, cito abaixo algumas das tendências que mais me impressionaram:

1- Matérias-primas. Assim como foi bastante discutido em Brasília, a matéria-prima continua sendo um dos principais gargalos para a competitividade do biodiesel. Representando 80 % dos custos de produção, o preço dos óleos e gorduras deve ser urgentemente reduzido para garantir um menor custo de produção. Neste sentido, foram apresentados trabalhos envolvendo o cultivo de algas, pinhão manso e aproveitamento de resíduos graxos de frigoríficos e da indústria do etanol de milho. No que se refere a algas, ficou claro que o custo ainda é muito elevado e que está ainda em patamares impraticáveis. Para se ter uma idéia, os custos hoje de produção de óleo por microalgas é cerca de 10 vezes superior ao verificado para matérias-primas convencionais. Foram apresentados alguns trabalhos de melhoria de processo que levam a uma maior eficiência e menor custo, mas nada que possa ser o break-thru necessário para torná-las economicamente viáveis. Em relação ao cultivo de pinhão-manso, foram apresentados alguns estudos de processos para retirada dos ésteres de forbol para detoxificar não só a torta, mas também o óleo e o biodiesel. Finalmente, foram discutidas algumas tecnologias para o aproveitamento matérias residuais. Para o uso de óleos e gorduras animais obtidos em frigoríficos e que apresentam alto teor de ácidos graxos livres, foi colocado como alternativa o uso combinado de transesterificação com esterificação e hidrólise, como discutimos em Brasília na sessão dedicada ao tema Produção. Já para o aproveitamento do resíduo obtido pela indústria do etanol de milho, que contem cerca de 2 % de óleo, foram destacadas diversas alternativas que possibilitam a recuperação de forma economicamente viável.

2- Produção. Chamou-me bastante a atenção uma alternativa inovadora da qual ainda não se fala no Brasil. Trata-se da interesterificação utilizando acetato de etila, que é um solvente muito usado pela indústria de tintas, a qual pode ser realizada utilizando os mesmos catalisadores atualmente usados pela indústria do biodiesel. Ao invés de se obter glicerina como subproduto é gerado um derivado dela chamado triacetim, o qual pode ser comercializado para diversos setores industriais, como as fábricas de cigarro, ou mesmo ser comercializado misturado com o biodiesel. De fato, uma das alternativas apresentada por diversos pesquisadores para a glicerina tem sido a geração de triésteres (como o triacetim) ou trieteres para ser usado como aditivo para gasolina ou mesmo biodiesel. O interessante da interesterificação apresenta aqui no congresso é que praticamente são eliminados os co-produtos, pois a reação do óleo ou gordura com o acetato de etila forma apenas a mistura de biodiesel e triacetim, a qual poderia ser usada diretamente como combustível, tendo-se apenas que eliminar o catalisador residual. Foi também mostrado que, como no caso da transesterificação, pode-se também realizar este processo sem catalisador em condições supercríticas, levando a um produto facilmente purificável, necessitando apenas destilar o acetato de etila residual. É claro que ainda se devem realizar estudos em motores para que essa alternativa seja colocada no mercado, mas é uma alternativa interessante para se reduzir os problemas com a super-produção de glicerina.

3- Combustíveis alternativos. Houve uma sessão inteira dedicada a combustíveis alternativos, a qual tive a honra de coordenar. Nesta sessão, foi bastante discutida a geração de hidrocarbonetos por craqueamento e hidrocraqueamento de óleos e gorduras, principalmente usando unidades já existentes em refinarias de petróleo, como o H-Bio da Petrobrás. Outra alternativa bastante discutida foi a geração de bio-óleos a partir da pirólise rápida de biomassa. Pesquisadores do USDA na Filadélfia apresentaram uma planta piloto projetada e instalada por eles para processar palhas e outros resíduos celulósicos agrícolas, gerando uma mistura de compostos líquidos altamente oxigenada, a qual é bem mais ácida que os hidrocarbonetos obtidos pelo craqueamento de óleos e gorduras. Obviamente este bio-óleo deve ser tratado para que possa ser usado como combustível. Para tal, estão sendo propostos processos catalíticos ou mesmo a mistura desses bio-óleos em correntes de refinarias de petróleo, como já feito com óleos e gorduras. Foram também apresentados alguns estudos da Universidade da Pensilvânia com tratores usando diretamente óleo de soja como combustível. Estes estudos envolvem motores completamente diferentes, projetados e desenvolvidos para utilizar óleos vegetais como combustíveis.

Paulo Anselmo Ziani Suarez é engenheiro químico, colunista da BiodieselBR, com pós-doutorado pelo National Center for Agricultural Utilization Research dos Estados Unidos. Saiba mais sobre o autor.
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